10 de julho de 2026
Esportes

Jiu-Jítsu: Presidente faz ‘raio-X’ da modalidade

Por Wagner Teodoro | Com Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 7 min

Recentemente, Bauru teve o privilégio de receber a visita de um dos maiores mestres do jiu-jítsu no País. Trata-se de Otávio de Almeida Júnior, presidente da Federação Paulista de Jiu-jítsu (FPJ) já reeleito para seu quarto mandato (2009-2012), que esteve na cidade para participar de uma solenidade de entrega de faixas na academia Ricardo Pereira/AOA.

Na ocasião, Almeida Júnior concedeu longa e exclusiva entrevista ao Jornal da Cidade e, nela, o comandante da entidade máxima da modalidade no Estado analisa o esporte em Bauru, ressaltando a qualidade das academias na cidade e no País, destacando o crescimento do esporte. Além disso, ele também lamentar a ausência de patrocínios para os praticantes e a imagem negativa da modalidade vinculada ao vale-tudo.

Por fim, o presidente da FPJ esclarece que a modalidade faz com que os mais fracos fisicamente levem vantagem sobre o mais fortes e explica as raízes do surgimento do esporte. Confira os principais trechos da entrevista:

JC – Como está a modalidade em Bauru?

Otávio – O jiu-jítsu em Bauru, há cerca de sete, oito anos, era uma febre. Era uma concorrência e um monte de academias. Hoje, deu aquela filtrada natural e a cidade tem poucas academias, mas com muita qualidade.

JC - A cidade tem grandes nomes que treinam aqui e representam o município e alguns já ganharam até mundiais...

Otávio - É. O Ricardo, por exemplo, tem uma equipe muito forte de competição e é uma pena ele não ter um patrocínio condizente com a equipe que tem, porque os poucos que estão participando dos campeonatos estão ganhando. Só que a gente reconhece que isso tem um custo muito alto para o atleta, porque ele tem de se deslocar até São Paulo, Rio de Janeiro, outros Estados e até mesmo fora do País, quando se trata de Pan-Americano ou Mundial. Fica muito caro para o atleta bancar essas despesas para poder competir. Mas as poucas vezes, ou os poucos atletas que têm ido competir, em São Paulo, no Rio de Janeiro ou fora, têm voltado sempre com título.

JC - Essa falta de patrocínio é geral ou é só aqui em Bauru?

Otávio - Não. Conheço algumas prefeituras que apóiam fortemente o jiu-jítsu.

JC - E fica caro bancar?

Otávio - Se você pensar que sempre as competições são de dois dias, no mínimo, e o atleta tem de viajar, se hospedar e alimentar, além de taxas de inscrição de federação, de custo, de homologação e uma série de coisas, acaba ficando muito caro para o atleta. O valor não é muito alto, mas sabemos que o atleta não ganha e, por isso, precisa de apoio.

JC - O que a Federação Paulista faz para apoiar essas academias? Ela tem alguma verba governamental?

Otávio - Não. A Federação, como os atletas, vive buscando apoio e patrocínio. Algumas vezes, em eventos, a gente tem algum recurso da prefeitura, do governo do Estado, mas é pouca coisa, que não dá condição de levar isso até o atleta. Então, quando tem uma verba, a gente disponibiliza isso em uma premiação condizente para que o atleta não saia das competições de mãos vazias, mas de mãos bem cheias, de preferência.

JC - E no Estado de São Paulo? O jiu-jítsu assim mesmo tem crescido?

Otávio - O jiu-jítsu é, sem dúvida nenhuma, a luta que mais cresce nesta última década. A Federação Paulista tem um número elevadíssimo de competidores. Nossas competições nunca são inferiores a mil atletas, ou seja, são dois dias com mil atletas competindo por um título. É bastante gente. E está crescendo cada vez mais, mas está havendo uma filtragem natural, e isso é muito bom porque o nível técnico está subindo brutalmente.

JC - Como estão os paulistas em relação aos outros Estados?

Otávio - Eu reputo que, hoje, o jiu-jítsu no Estado é o melhor do Brasil. Há cinco anos, o Rio de Janeiro era a maior potência do jiu-jítsu. Mas hoje São Paulo é o Estado mais forte do Brasil. Até porque, nesse último Campeonato Mundial, realizado em junho deste ano, tivemos categorias de faixa preta, cujo campeão mundial e o vice-campeão mundial eram representantes paulistas.

JC - O senhor é faixa coral. Quantos anos demorou para chegar nesse ponto?

Otávio - O faixa coral chega à essa condição com 35 anos de magistério, ou seja, depois da faixa preta tenho mais 35 anos de magistério. Então, se você somar 18, que é a idade mínima para um faixa preta, e eu fui preta aos 18 anos, mais 35, eu só tive condições de adquirir a minha faixa coral com 53 anos de idade. Ininterruptos...

JC - É um projeto de vida...

Otávio - Sem dúvida.

JC - Qualquer pessoa pode praticar o jiu-jítsu?

Otávio - No jiu-jítsu, quanto mais fraco fisicamente você for, melhores resultados você alcançará. O jiu-jítsu é técnica e se engana aquele que acha que o brutamontes leva vantagem. Ele leva vantagem num primeiro momento, em razão da força que tem, mas as técnicas e as possibilidades do franzino, até mesmo por uma questão de elasticidade e flexibilidade, acabam favorecendo.

JC - Como o senhor analisa os lutadores de jiu-jítsu que vão para o vale-tudo?

Otávio - Um mal necessário. Prefiro ver um racha de automóveis dentro de um autódromo do que nas ruas onde estão transitando pessoas sem o preparo para uma corrida. Nas ruas há pedestres que, às vezes, pagam o preço de uma competição ilegal. O vale-tudo é exatamente a corrida, ou seja, é a competição daqueles que não se satisfazem só com a luta de quimono e procuram resolver a coisa na mão. É muito melhor ter essas pessoas dentro de um ringue sob a supervisão de um árbitro, sob a coordenação de professores e com proteção médica, competindo ali, até que seja feio, bárbaro e violento. É muito melhor ter isso oficialmente do que oficiosamente.

JC - O senhor acredita que a vinculação do jiu-jítsu com o vale-tudo manchou a imagem da modalidade?

Otávio - Sem dúvida nenhuma, o jiu-jítsu lamentavelmente está ligado à publicidade negativa. Por ser uma luta muito eficiente, é a única em que você começa e 30 segundos depois você está a 100% da sua capacidade física. Não desmerecendo qualquer outro tipo de atividade esportiva ou de luta, o jiu-jítsu é a única em que você emprega total força e condicionamento físico aplicado diretamente a um adversário. Você não pega um companheiro para treinar e fala: ‘Fica parado que vou te dar um soco para ver se meu soco ficou bom’. Você jamais vai fazer isso. No jiu-jítsu, você gruda no pescoço e aperta até ele falar que não agüenta mais. Você aperta o braço e estica até ele falar para parar porque vai quebrar. Quando uma pessoa não está bem preparada filosoficamente para empregar isso, acaba fazendo essas besteiras na rua. E o jiu-jítsu paga o preço de, infelizmente, ter infiltrado uma série de vagabundos que não fazem parte do nosso clã.

JC - Hoje o jiu-jítsu tradicional quase não existe mais. Quais os motivos disso ter ocorrido? O Hélio Gracie tem influência nisso?

Otávio - Diz a história, e isso narrado em livro de mil oitocentos e talarico, que na primeira confusão em que dois caras saíram na mão ganhou o nome de jiu-jítsu. O jiu-jítsu é o pai de todas as lutas e na sua origem começa com porrada e soco. Quando se vai para a queda, que seria a parte do judô, e quando se vai para o chão e na parte de alavanca, remete-se ao que é praticado, hoje, pelo Gracie. Isso, quem conhecia o jiu-jítsu em sua forma global, não ensinava. Guardava para si, porque era uma arma muito poderosa o conhecimento de todas as técnicas envolvidas em uma única luta. Quando o Mitsu Maeda, o Conde Koma, veio para o Brasil, ele se instalou em Belém do Pará e, em troca de uma amizade com a família Gracie, começou a ensinar esse jiu-jítsu, o completo, que englobava tudo. O mestre Hélio, com uma sabedoria imensa, e até mesmo por causa de compleição física, adaptou isso para a luta de solo. Ele aplicava isso muitíssimo bem, vencendo na época campeões mundiais de outras artes marciais. Isso virou uma febre nacional, e ligado ao vale-tudo, que foi a única maneira que ele teve de provar a eficiência da técnica, começou a ter a divulgação e a promoção que tem até hoje.