09 de julho de 2026
Regional

Marrecos, políticos e multidão no último domingo de feira do ano

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

O sol estava de “rachar o coco”, o calor estava de matar, mas ainda assim as feiras da região central da cidade ‘bombaram’, ontem pela manhã. Na da Gustavo Maciel, que funciona a algumas quadras da praça Rui Barbosa, as donas de casa tinham até dificuldades para caminhar carregando seus carrinhos de compra. Na ‘do Rolo’, a situação não era muito diferente. Era gente demais - comprando, vendendo, comendo, olhando, passeando ou só jogando conversa fora.

Embora as eleições tenham sido em outubro e a campanha já tenha chegado ao fim, até mesmo os políticos resolveram dar o ar de sua graça no local. Vidrado em feiras livres, o empresário do ramo da educação Dudu Ranieri, presidente da executiva municipal do DEM, tinha até dificuldades para caminhar entre as barracas da Gustavo Maciel, já que, a todo instante, alguém chegava para cumprimentá-lo.

“O senhor já está em campanha, professor?”

“Sim. Quero ser senador”, brincou Dudu, que admitiu não ser muito chegado a pastel de feira. “Gosto de vir aqui para comprar alho. Ali embaixo, tem um queijo fresco que é muito bom, também”, afirmou ele.

Um pouco mais adiante, sentados próximos a uma barraca que comercializa verduras, dois vereadores “de primeira viagem”, Luiz Carlos Bastazini, o Carlinhos do PS (PP), e Gilberto dos Santos, o Giba (PSDB), conversavam animadamente (quem sabe, a respeito dos rumos que a política bauruense deverá tomar no próximo ano). “Gosto muito de feira. Todos os domingos, costumo dar uma passada por aqui”, disse Giba.

Nas barracas de frutas típicas da época, o movimento era enorme. “Hoje (ontem), as vendas até que foram boas”, afirmou o vendedor Antônio Roberto Gonçalves, 48 anos, que comercializa abacaxis e melancias.

Em épocas normais, ele costuma vender cerca de 150 abacaxis ao dia. Ontem, ele comercializou mais de 300. “É que o pessoal procura para fazer doce”, disse Gonçalves.

Frutas, verduras e pastéis não eram os únicos produtos disponíveis na feira da Gustavo Maciel. Condimentos, queijos, leite, galinha caipira e até marreco podiam ser encontrados no local. Sílvio Frenella, 65 anos, vende frangos na feira há mais de uma década (cada animal vivo sai, em média, por R$ 15,00). Mas será que esses galináceos não estavam um pouco caros demais?

Na opinião de Sílvio, não. “A carne tem um gosto diferente, meu filho. É muito melhor que frango de granja”, garantiu ele, que também comercializa filhotes de pato, a R$ 5,00 cada, e marrecos, a R$ 50,00 o casal (os animais são vendidos vivos, nos dois casos).

“A procura por marrecos até que é boa. Costumo vender uns seis ou sete casais por dia”, afirmou ele. Comerciantes de produtos orgânicos também não tiveram do que reclamar. “Até que o movimento está bom”, avaliou o agropecuarista Renato Streiger, 65 anos, que vende ovos na feira da Gustavo Maciel.

“Bauru ainda não tem uma cultura de consumo desse tipo de produto. A procura ocorre mais da parte das pessoas adeptas da alimentação orgânica”, explicou o agricultor Júlio José Bonachela, que comercializa frutas e verduras no local.

Quem não tinha do que reclamar eram os donos da barraca de pastel (na feira da Gustavo Maciel existem oito, pelo menos). Por volta do meio-dia, uma delas havia vendido cerca de 600 unidades do salgado - prova de que, diferentemente do professor Dudu, os bauruenses são fascinados por pastel de feira.

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Palhaço

Ontem pela manhã, o calor era tanto na feira da Gustavo Maciel, que até o palhaço resolveu pedir arrego. Agachado ao lado da sarjeta, oculto por uma barraca de frutas, Paçoquinha tentava se refrescar com um copo de cerveja gelada. Afinal, ele também é filho de Deus! Mas, e a criançada, será que não vai se deixar levar pelo mal exemplo?

“É perigoso eles começarem a beber por minha causa”, brinca ele, meio sem jeito. Rodrigo Borges tem 27 anos e é natural de Ponta Grossa, no Paraná. Trabalha como artista de rua há cerca de 10 anos. “Eu morava em Belo Horizonte e mexia com marionetes. Só que aquilo quase não dava dinheiro. Certo dia, falaram para mim: ‘Por que você não tenta ser palhaço?’ Desde então, estou nesta vida”, conta.

Ele se apresenta em feiras livres, praças e festas infantis. Em poucos segundos, é capaz de esculpir um poodle usando um balão de borracha. “Aprendi sozinho. Não tem ninguém que ensina a fazer essas coisas. Aliás, ter até que tem. O problema é que é preciso pagar, e dinheiro eu não tenho”, explica.

De vez em quando, Paçoquinha também se arrisca diante dos touros bravos em rodeios. “É perigoso, mas preciso comer”, diz. A única fera que ele não foi capaz de domar foi a ex-esposa, de quem se separou há cerca de sete meses (o casamento já durava nove anos e rendeu três herdeiros a Rodrigo).

“Ela queria que eu fosse trabalhar como pedreiro. Imagine só! Deus me livre ter de carregar pedras... Um dia ela chegou para mim e disse: ‘Ou eu ou a vida de palhaço. Pode escolher’. Preferi continuar sendo palhaço”, conta.

Desde então, solitário, ele tem levado suas palhaçadas de cidade em cidade. Costuma ganhar R$ 1.000,00 ao mês, em média. “Esta aqui é minha lona”, diz, apontando para o céu. “Nunca quis trabalhar em circo. É complicado ser empregado dos outros - chega uma hora em que você tem de lavar encerado, cavar buraco, carregar peso”, argumenta.