09 de julho de 2026
Geral

Designer leva ourivesaria ao semi-árido

Juliana Franco
| Tempo de leitura: 3 min

Há quase 30 anos a designer bauruense Karina Achôa optou pelo não convencional e passou a produzir jóias com pedras normalmente não usadas na ourivesaria como, por exemplo, o mármore. A idéia, um pouco inusitada, chamou a atenção do Governo da Bahia, que a convidou, no fim dos anos 80, para participar de um projeto de inclusão de comunidade de áreas mineradoras do semi-árido do Estado. A iniciativa se espalhou para diversos Estados e atualmente milhares de pessoas têm na lapidação de pedras uma fonte de renda.

Nascida em Bauru, Karina foi morar em São Paulo em 1979, onde mantém um ateliê de jóias. Na época em que foi convidada para fazer parte do programa baiano, coordenado pelo geólogo Hélio Azevedo, as reservas de esmeralda estavam praticamente extintas no Estado. Sem água, nem mesmo a agricultura de subsistência garantia o sustento das famílias num cenário de escassez de trabalho. Foi nesta realidade que a designer ensinou moradores do semi-arido baiano a lapidar pedras como biotita e quartzo, rejeitos de esmeralda, para o mercado de jóias. “O grande desafio deste projeto é que eu tinha que ajudar essas pessoas a lapidar qualquer pedra que tivesse na região. A partir daí, comecei a ensinar eles fazerem formato de pedra, fazer bijuterias e, como já faziam esculturas, eu transformei as esculturas grandes em pequenas para que pudessem ser usadas em jóias”, explica Karina. “Hoje virou uma tendência no mundo: pequenas esculturas de pedra viraram jóias”, acrescenta.

Atualmente, existem milhares de artesãos em atuação, organizados em cooperativas, e o modelo de formação de mão-de-obra foi implantado em outros Estados como Piauí, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Tocantins. No último levantamento de artesãos que integram o projeto, divulgado em 2003, mais de 6.400 profissionais tinham na lapidação a fonte de renda. “É impossível ter uma idéia de quantas pessoas vivem da lapidação hoje. Além do número grande de cooperativas, os cooperados ensinam os vizinhos, que ensinam outros vizinhos, e o trabalho toma proporções gigantescas”, explica a designer.

Por conta do trabalho iniciado na Bahia, Karina deu início à confecção de objetivos chamados de utilitários ou brindes institucionais. O último grande trabalho, que durou quatro anos e foi realizado no Estado do Rio Grande do Sul, contou com a parceria de diversos ministérios.

“Nosso trabalho é muito mais complexo do que ensinar. Temos que montar um projeto, conseguir recursos para a aquisição de equipamentos, fazer parcerias para a locação do espaço físico e também ensinar os artesãos a administrar e conduzir o trabalho”, revela. “Além disso, precisamos levar em conta a vocação local. Analisamos e tentamos unir as pedras locais a produtos que dêem retorno financeiro aos vários grupos, não apenas para os que estão inseridos no nosso trabalho”, complementa Karina.

Hoje, a designer ainda presta consultoria ao projeto e consegue conciliar a experiência com as necessidades do ateliê que abriu em 1989. Se antes ela tinha dificuldade para achar quem lapidasse pedras, sobretudo as de pouco valor, agora ela sabe a quem recorrer. “Estou sempre à frente das coordenações. Em alguns casos, eu desenvolvo os programas e acabo dando os treinamentos”, afirma.

“Além disso, aplico este trabalho em meu ateliê. Priorizo 99% das compras no artesanato mineral. Conheço quem trabalha com o produto economicamente mais viável e também o artesão com melhor qualidade. Eu crio minhas coleções baseadas nos projetos”, acrescenta Karina. Além do trabalho nos quatro cantos do Brasil, Karina tem um extenso currículo internacional e atua na América do Sul, na Europa e nos Estados Unidos.

“Sempre sou convidada para participar do projeto governamental Artesania de Colômbia, realizado na Colômbia. Sou consultora de desenvolvimento tecnológico dos produtos deles. Com o meu trabalho, consegui influenciar fábricas de jóias - algumas se tornaram compradoras do artesanato mineral. A grande diferença do meu trabalho é que procuro sair do convencional e não deixo me influenciar apenas pelas tendências”, finaliza Karina.