08 de julho de 2026
Articulistas

Adeus, sem cerimônia


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Desejei despedir-me de Tuga Angerami, ainda prefeito, para agradecê-lo por ter queimado o seu “patrimônio eleitoral”. Preferiu entregar ao sucessor uma cidade menos endividada e algum dinheiro pro aluguel. Pelo menos os caquinhos estão colados. Rompeu-se o ciclo de administrações predatórias que infelicitou Bauru. Alguém teria que pagar a conta da farra com o dinheiro público. Tuga cumpriu o seu papel. Talvez o último. “Um homem de consciência não tem lugar na política”, disse Platão. Outro cidadão igualmente sábio, Célio Gonçalves advertia que, “em política, só se volta para morrer”. Tuga ousou voltar. Ainda que venhamos a sentir saudade do seu tempo, dificilmente terá chance, ou apetite, para um novo mandato.

Fui à Praça Kasato Maru, que seria o último ato da administração Tuga Angerami. Sem poder concluí-la para homenagear os imigrantes japoneses, o prefeito preferiu não ir. Deixou de desfrutar da sombra amiga do único jacarandá do cerrado que sobrou da flora do Jardim Santa Eugênia. Não ouviu os tambores japoneses do Taiko. Até onde se podia ouvi-los se demarcava o limite da cidade, no Japão feudal. Alegou “problemas respiratórios”. Um ataque de asma. Aquela asma ética que o aflige quando as coisas não vão bem.Como inaugurar uma praça sob a enganação de “visita técnica”? O príncipe do new journalism Gay Talese diria que um prefeito com asma é como uma Ferrari sem gasolina. Pelo menos, ele se livrou da vergonha de ser informado do furto de todas as mudas de cerejeiras que a comissão dos festejos do centenário da imigração mandou vir de Okinawa. Na ilha situada no extremo sul do território japonês, o clima mais ameno favorece a aclimatação das sakurais nestes tristes trópicos.

No último dia da gestão, compareci ao Palácio das Cerejeiras. Se ali teve pé de cereja seu fim foi o mesmo das mudas da Praça Kasato Maru. Tuga não estava no Paço. Recebido pela Fujika, a fiel e competente secretária, pelo menos fui brindado com um cafezinho de garrafa térmica. Fiquei sabendo que a Marina está ótima. A mãe-secretária vai poder voltar para sua ong e cuidar novamente de crianças especiais. Na saída, noto na porta do elevador os dizeres: “Aviso: antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se neste andar. Lei estadual...” O texto provoca arrepios. Tem erros para todos os gostos. Como faz falta o professor Gino Crês... Aquele patoá deseduca autoridades, visitantes e o povo que procura a prefeitura para cobrar promessas de campanha.

A frase tem três erros: dois de gramática e um de lógica. E, como desgraça pouca é bobagem, não faltou falha de estilo. “Mesmo” não tem função anafórica. Está proibido, pois, de substituir termo referido antes, ou seja, “elevador”. Em lugar, o pronome “ele” pede passagem: Antes de entrar no elevador, verifique se ele encontra-se neste andar. Espere um pouco... Se for conjunção subordinativa, funciona como imã. O pronome não resiste. Vai parar antes do verbo: Antes de entrar no elevador, verifique se ele se encontra neste andar. Mas se o elevador não estiver no piso, como entrar nele? O vocábulo elevador sobra: Antes de entrar, verifique se o elevador se encontra neste andar.

Em jornalismo, as palavras curtas são preferíveis às longas. Por duas razões. Uma: economizam espaço. A outra: lêem-se (tenho até o final de 2012, se ainda estiver por aqui, para me adaptar à reforma ortográfica; como tenho minhas dúvidas, melhor não me preocupar com tanta antecedência) com mais rapidez. Levado a sério o princípio estilístico, temos: Antes de entrar, verifique se o elevador está neste andar. Ficou melhoooooor? Perceba o leitor, antes de cair no poço, que a língua portuguesa é muito mais difícil de dominar do que os problemas urbanos. “O imperador não está acima da gramática”, disse Júlio César. Ou seja, nem as leis, nem o Lula, nem ninguém. Se a lei estadual é ruim no seu texto, nada impede que um vereador proponha algo correto.

Adeus, Tuga. A nova geração haverá de lembrá-lo como o prefeito que se julgou sem direito de ir para casa em carro oficial. Para ele, seria escandaloso um chapa branca na sua garagem. Já era assim no tempo da Brasília vermelha. O bauruense precisa saber, para que nada mais de ruim aconteça nesta cidade, que não basta assistir ao espetáculo da política. Não basta o povo ser espectador, destinatário, receptor de uma mensagem. Ele tem que ser seu ator e autor, seu emissor, seu sujeito. A cidade, a polis, como diziam os gregos ou, como diríamos hoje, o poder político, é constantemente criada e recriada pelo agir do povo. Se isto não acontece, daqui a pouco alguém terá que juntar os cacos novamente.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC