Andrea Araújo Ferreira levou seis anos para se formar no curso de letras. Hoje, ela é professora, mas para chegar onde chegou foi necessária muita dedicação e doação. Nesses seis anos, ela praticamente não teve vida social. Era da casa para o trabalho, do trabalho para a faculdade e nos fins de semana trabalhava das 9h às 17h auxiliando no programa Escola da Família.
“Teve momentos que eu achava que não iria conseguir. Dava vontade de jogar tudo para o alto, mas minha família e amigos sempre me incentivaram a continuar”, relata. Por conta dessa correria, Andrea admite que não estudou da maneira como deveria. A falta de tempo não permitiu que ela se aprofundasse nos estudos.
Foi suado, mas se não fosse a bolsa de estudos que ela conseguiu por meio do programa Escola da Família, Andrea não estaria formada e não teria um futuro promissor diante de seus olhos. Em troca da bolsa de estudos, ela teve de sacrificar o sábado e o domingo durante seis anos para auxiliar nas atividades sociais do programa.
Sem poder contar com a ajuda financeira dos pais, Andrea teve de se desdobrar para ter a chance de mudar seu destino. Filha de uma dona de casa e de um auxiliar de serviços gerais, que estudaram apenas até a 4ª série, e moradora no Parque Jaraguá, ela tinha consciência que só conseguiria vencer na vida na base de muito esforço e sacrifício.
A partir deste ano, Andrea começa a dar aulas como professora substituta em escola do Estado. Sua meta agora é conseguir passar no concurso para professor efetivo, previsto para este ano, reforçar seu inglês e iniciar um curso de pós-graduação.
Formada este ano em pedagogia, Leda Ferreira da Silva, entende perfeitamente o drama vivido por Andrea. Isso porque a história das duas tem muitas semelhanças. A exemplo de Andrea, Leda vive em um bairro carente (Parque União) e precisou da ajuda de uma bolsa de estudo do programa Escola da Família para poder continuar na faculdade.
A exemplo de Andrea, Leda teve pouco tempo para descanso e lazer durante os cinco anos de curso. Leda trabalhava (e continua trabalhando) de segunda à sexta das 7h30 às 17h. À noite, ia para a faculdade. Nos fins de semana, quando deveria ter um tempo para relaxar, estudar para as provas e fazer os trabalhos exigidos pelo curso, Leda passava o sábado e o domingo inteiros auxiliando nas atividades sociais da Escola da Família.
Ela conta que vários amigos desistiram no meio do caminho por causa das dificuldades impostas por esse ritmo alucinante de trabalho, faculdade e projeto social. “Felizmente, eu consegui terminar o curso. Todo o sacrifício serviu para eu valorizar ainda mais minha conquista”, afirma Leda, que já faz planos para ingressar no mestrado.
Quando tinha 8 anos, ela já demonstrava que tinha vocação para o processo educativo. Com essa idade, ela ensinou o irmão de 5 anos a ler e escrever. Na cerimônia de formatura, Leda conta que chorou muito de alegria, por ter conseguido superar o obstáculo da dificuldade financeira.
Leda, Andrea, Ivanildo, Adelson e muitos outros que passaram e passam pela mesma dificuldade têm todo o direito de bater no peito e dizer “sou um vitorioso”. Com determinação, eles venceram a pobreza e encheram de orgulho a família, cujos pais mal sabem ler e escrever e ganham a vida como diaristas, auxiliar de serviços gerais, serventes, pedreiros ou trabalhadores rurais. São exemplos de que é possível superar a herança das gerações anteriores. E ninguém pense que é fácil conquistar isso. Muitos ficam pelo caminho, mas uma outra parte resiste até o fim. São modelos de persistência e garra que devem ser seguidos.