08 de julho de 2026
Geral

‘Moreninha linda, do meu bem querer...’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 2 min

Laércio da Silva Marques tem 52 anos e é natural da cidade mineira de Cristina. Perdeu os pais ainda jovem e acabou abandonado pelos irmãos em uma fazenda no município de Tabajara. Ele costumava sofrer crises de epilepsia e, aos 15 anos de idade, acabou sendo mandado para o hospital psiquiátrico da Associação Beneficente Cristã, o Paiva, em Bauru, onde permaneceu por quase três décadas. Atualmente, ele é um dos 40 pacientes atendidos pelo programa das residências terapêuticas da Divisão de Saúde Mental do Município.

No hospital, Laércio evitava se relacionar com os demais pacientes e passava o dia todo isolado em um canto, carregando consigo um bolsa em que colocava todos os seus pertences (creme dental, sabonete, roupas, cobertor). “Ele tinha medo de ser roubado”, explica Sueli Cavicchioli Azevedo, psicóloga encarregada pelos serviços de residência terapêutica em Bauru.

Desde que passou para a residência terapêutica, Laércio vem apresentando melhoras constantes em seu comportamento. Prova disso é que, meses atrás, em uma festa organizada para os pacientes atendidos pelo serviço, conheceu Euclídia Eliana Herrera, que acabaria se tornando o grande amor de sua vida.

“Eu pedi para dançar com a Euclídia e ela aceitou. Depois, cantei assim para ela: ‘Moreninha linda, do meu bem querer, é triste a saudade longe de você’”, conta Laércio. Euclídia sorri encabulada, enquanto ouve o relato.

Ela é deficiente mental e apresenta dificuldades para falar. Em parte porque não tem um dente sequer na boca, pois os mesmos acabaram “estragando” na época em que ela esteve internada e tiveram de ser arrancados. Os vários anos que permaneceu sem a dentição fizeram com que as gengivas “murchassem” e, atualmente, Euclídia não consegue usar dentadura.

Isso tem causado um certo desgosto a Euclídia, que é vaidosa e gosta de andar bem arrumada. Pelo visto, porém, esse pormenor não tem tido qualquer influência sobre os sentimentos de Laércio. Cuidadoso, ele adora comprar guarda-chuvas (já são 12, ao todo) para proteger a amada de possíveis temporais.

Os dois dividem uma casa de dois quartos com Rita Aparecida da Silva, 50 anos. Ela também é paciente da residência terapêutica e como apresenta um grau de autonomia maior que de seus companheiros, acaba atuando como uma espécie de governanta na casa.

“Hoje, a minha comida ficou tão gostosa que eles comeram tudinho!”, conta, orgulhosa. Os três recebem benefícios do Governo Federal e costumam ir às compras sozinhos. “Veja a sandália que ela comprou na loja. Eu ajudei a escolher”, comenta Rita.

Dias atrás, enquanto fazia compras, Euclídia deixou-se levar pelo espírito de final de ano e adquiriu um mimo para si. “Olha que bonito”, diz, exibindo um Papai Noel de brinquedo que dança ao som de uma música natalina.