10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: A arte da pintura gravada nos genes

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 9 min

Bauruense nata, a pintora bauruense Miriam Volpe, 57 anos, tem a arte gravada em seus genes. Cerca de seis anos atrás, ela resolveu vasculhar a documentação de seu avô Ângelo Volpe, na tentativa de obter cidadania italiana. Enviou quase 1.000 cartas à “Velha Bota”, mas não conseguiu levantar quase nada que se referisse ao antepassado.

Descobriu, contudo, que Ângelo tinha um primo famoso: o pintor Alfredo Volpi, considerado um dos maiores expoentes das artes plásticas na segunda fase do movimento modernista brasileiro. Se esse parentesco teve alguma influência sobre o gosto de Miriam pela pintura, isso ela não sabe responder.

Em todo caso, a inclinação dela pelas artes surgiu cedo, quando ela ainda não passava de uma aluna de grupo escolar. Na época, ela ficou em primeiro lugar em um concurso promovido pela Secretaria Municipal de Cultura. Os competidores teriam que realizar algum trabalho sobre o tema hanseníase.

Miriam, que tinha 10 anos de idade, resolveu fazer um retrato em branco e preto do Doutor Valcur, personagem vivido por Sérgio Cardoso na novela “O Preço de Uma Vida”, da extinta TV Tupi. Como prêmio ganhou sorvete, canetas e um passeio de trem - e ficou toda feliz.

Mais contente ainda ela ficaria a partir de 1998, ano em que se aposentou como diretora de escola estadual e passou a se dedicar integralmente à pintura. Desde então, vem conquistando prêmios e menções em todos os salões de arte de que participa, tanto no Brasil quanto no Exterior.

Nascida em um hotel situado na rua 1.º de Agosto, próximo à antiga Estação da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), Miriam fez os primeiros estudos no grupo (hoje escola técnica estadual) Rodrigues de Abreu. Também passou pelo Ernesto Monte e pela Fundação Educacional de Bauru, onde, aliás, conheceu Guaracy Vitorino da Silva, que acabaria se tornando seu marido.

“Agora, vamos falar um pouco de arte?”, disse ela, durante a entrevista que concedeu ao Jornal da Cidade, na última terça-feira. Pois não, Miriam, vamos sim. Mas vamos também mostrar aos leitores um pouco mais de sua vida como educadora, filha, irmã e mãe, que costumava desenhar palhacinhos baseados em retratos do filho mais velho.

Conheça, a seguir, um pouco mais sobre Miriam Volpe, essa bauruense que carrega nas veias o amor pelas artes.

Jornal da Cidade - Ouvi dizer que você tem um certo parentesco com Alfredo Volpi. Isso é sério? Como surgiu essa história?

Miriam Volpe - É sério sim. Seis anos atrás, resolvi levantar a documentação do meu avô, Ângelo Volpe - com “e” -, para tentar obter cidadania italiana. Ele era natural da região de Rovigo, no norte do país, e veio para o Brasil ainda muito novo. Comecei a mandar cartas para todas as cidades e vilarejos de lá, na esperança de obter alguma informação que pudesse me ajudar. Foi então que acabei descobrindo que Alfredo Volpi era primo do meu avô. O interessante é que, quando Volpi veio para cá, o primeiro lugar onde ele se fixou foi Sertãozinho (região de Ribeirão Preto). Meu avô também era de lá.

JC - E você conseguiu encontrar os documentos referentes ao seu avô?

Miriam - Só os registros aqui do Brasil. Da Itália não encontrei quase nada. Hoje, tenho vários documentos sobre Alfredo Volpi e pouca coisa sobre meu avô (risos).

JC - É possível dizer que, por conta desse parentesco meio distante, você tem o gosto pela arte gravado em seu DNA?

Miriam - Vai saber... (risos)

JC - Como sua família veio parar em Bauru?

Miriam - Meu avô se mudou para cá nos anos 10, eu acho, e entrou para o ramo de hoteleiro. Teve vários estabelecimentos na região da antiga estação ferroviária. Depois que ele morreu, meu pai, Antônio, acabou assumindo o negócio.

JC - Ele ficou nesse ramo por quanto tempo?

Miriam - Permaneceu por um bom tempo. Ele teve vários hotéis na região central da cidade: Modelo, Volpe... Inclusive, eu nasci em um deles, o América, que ficava na quadra 2 da rua 1.º de Agosto (o estabelecimento ainda funciona no local, com o mesmo nome, mas com outro proprietário). Mais tarde meu pai acabou passando para outro ramo de atividade, até falecer, em 1982.

JC - Quando seu pai morreu, a região da estação já havia perdido aquele glamour do passado e começava a entrar em decadência. Como ele encarava isso?

Miriam - Ele sentia uma certa tristeza com a decadência do Centro. Antigamente, ali era o lugar freqüentado pelas elites. Só os ricos costumavam se hospedar naqueles hotéis.

JC - Você estudou em qual escola?

Miriam - O grupo - naquele, tempo, era assim que a gente chamava o período até a 4.ª série do ensino fundamental - foi no Rodrigues de Abreu. Depois, fui para o Ernesto Monte e a faculdade fiz na Fundação Educacional de Bauru.

JC - Em que curso você se formou?

Miriam - Comecei no de engenharia, mas acabei me transferindo para o de física.

JC - Qual a razão dessa mudança?

Miriam - Houve dois motivos. Primeiro, porque eu estava namorando o Guaracy, estávamos prestes a nos casar. Como ele já estava formado e havia arrumado emprego em Araraquara - iria ser professor no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de lá -, eu precisava me formar o mais rápido possível para poder acompanhá-lo. Como física era um curso mais ‘curto’ que engenharia, decidi mudar de carreira. Mas esse não foi o motivo principal, eu acho. Naquela época, também, comecei a trabalhar como diretora de uma escola do Serviço Social da Indústria (Sesi) em Iacanga (50 quilômetros de Bauru). Engenharia é um curso de período integral, por isso eu não teria condições de ficar com o emprego.

JC - Em geral, as mulheres não costumam se deixar atrair pela área de exatas...

Miriam - Na minha sala de engenharia havia quase 120 rapazes e apenas duas garotas.

JC - E de onde vem esse interesse pela engenharia e pela física?

Miriam - Não sei dizer. Sempre gostei dessa área. Quando fiz vestibular, prestei engenharia na ‘Fundação’ e arquitetura, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Passei nas duas faculdades, mas acabei ficando por aqui mesmo.

JC - Por que trocou a Unicamp pela ‘Fundação’?

Miriam - Eu era filha caçula (numa família de seis irmãos), e meu pai não queria que eu ficasse longe de casa. Ele disse: ‘Ah, por que ir para outra cidade se você pode estudar por aqui mesmo?’

JC - Ele era muito apegado aos filhos?

Miriam - Sim. Além disso, quando eu tinha 16 anos, houve um acidente com minha irmã Ismália que o deixou traumatizado.

JC - O que ocorreu?

Miriam - Minha irmã tinha 21 anos e trabalhava como diretora da escola do Sesi em Piraju. Numa noite, o delegado regional da entidade convocou Ismália e mais duas professoras para participarem de uma reunião em Bauru. Foram os quatro no carro dele, um Fusca. Era noitinha, e o delegado não perceber um caminhão que ia adiante deles. Ao que parece, o veículo estava sem a luz traseira. Sei que bateram e o lado em que a minha irmã estava acabou sendo o mais afetado pela colisão. Morreram ela e o delegado. Meu pai precisou reconhecer o corpo. Depois desse dia, perdeu o rumo na vida.

JC - Como foi sua vida em Araraquara?

Miriam - Fui ser professora numa escola estadual. Depois, passei a diretora e, mais tarde, fui supervisora regional da diretoria de ensino, até me aposentar, em 1998. Aí, em 2003, o coração bauruense falou mais alto e resolvi voltar para cá.

JC - E o amor pelas artes, como surgiu?

Miriam - Desde muito cedo. Lembro-me que eu era bem nova, tinha uns 10 anos de idade e ainda estudava no grupo, quando participei do meu primeiro concurso de artes.

JC - Como foi?

Miriam - O concurso era voltado para estudantes e foi promovido pela Secretaria Municipal de Cultura. Precisávamos desenvolver trabalhos sobre o tema hanseníase. Naquele tempo, passava na TV Tupi uma novela denominada “O Preço de Uma Vida”, que tinha um personagem chamado “Doutor Valcur”, vivido pelo Sérgio Cardoso, se não estou enganada. Ele tinha hanseníase. Fiz um retrato dele em branco e preto e acabei ficando com a primeira colocação.

JC - Qual prêmio você ganhou?

Miriam - Sorvete, canetas, um passeio de trem...

JC - Você continuou pintando, depois disso?

Miriam - Sim, por um tempo. Depois dei uma parada e só voltei a pintar com mais freqüência quando fiquei grávida de meu primeiro filho, Guilherme, em 77. Eu costumava pedir para as minhas amigas fotografias dos filhos delas. Depois, fazia retratos de palhacinhos com base nas fotos. Minha intenção inicial era usar os desenhos para enfeitar o quarto do Guilherme. Mas a idéia não deu certo, porque elas acabavam ficando com as pinturas dos palhacinhos para elas. Depois que o Guilherme nasceu, passei a fazer retratos de palhacinhos com base em fotografias dele.

JC - Você havia feito algum curso de pintura, naquela época?

Miriam - Não, eu pintava por conta própria. Em 1998, depois que me aposentei, reuni um grupo de amigas em Araraquara, e fomos procurar alguém competente para nos ensinar as técnicas de desenho. Daí, comecei a ganhar prêmios em salões de arte e resolvi continuar pintando.

JC - Quantos prêmios você já ganhou, ao longo desses anos?

Miriam - Foram muitos, até perdi a conta. Atualmente, até parei um pouco de participar desses salões por causa das dificuldades com o transporte dos quadros. As empresas não querem saber de carregar pinturas, têm medo de que algum dano ocorra durante a viagem. Você precisa levar a tela pessoalmente ao local da exposição, e isso acaba pesando no bolso.

JC - Você já ganhou prêmios fora do Brasil?

Miriam - Sim. Em 2006, participei de um concurso promovido por uma organização norte-americana chamada Keller Willians Realty. Tive trabalhos meus escolhidos para estampar panfletos de propaganda da empresa. Um ano antes, eu havia obtido a primeira colocação em um salão internacional na Itália denominado La Tela Del Mese (em Português, “A Tela do Mês”). Minha tela vencedora foi a de um árabe fumando naguilé.

JC - Atualmente, o que você tem feito da vida?

Miriam - Dou cursos de pintura em meu ateliê. Tenho alunas de até 85 anos de idade. Dar aulas é bom, pois você se mantém sempre atualizada. Todo mundo é capaz de pintar. Basta querer e se esforçar para isso.