08 de julho de 2026
Articulistas

Crise e desemprego


| Tempo de leitura: 3 min

Patrão e empregado têm o mesmo objetivo: sobreviver à crise. O patrão quer manter o seu patrimônio, quer evitar uma falência e manter a esperança de voltar a prosperar após a crise. O empregado também quer manter o seu patrimônio (casa, veículo), quer evitar o nome sujo no SPC e manter a esperança de continuar educando e encaminhando seus filhos. Ambos têm um objetivo legítimo, mas será que as suas atitudes caminham na direção que leva ao atingimento do objetivo? Vamos ver.

O primeiro reflexo da crise na empresa é a diminuição das vendas. Se continuar produzindo ou estocando as despesas não só continuarão como aumentarão, mas as receitas diminuirão. Chegará um ponto em que os recebimentos não serão suficientes para pagar as contas. Aí a empresa passará a utilizar economias aplicadas, se tiver, ou a fazer empréstimo bancário. A saída é diminuir as despesas. Suspender as compras é uma das medidas, mas se não pode estocar mais, por que manter os empregados produzindo? A última alternativa, que geralmente acaba sendo a primeira, é dispensar os empregados.

Esse tem sido o caminho, mas será que ele leva ao objetivo, que é vencer a crise? Ao demitir os empregados a empresa estará reduzindo o mercado consumidor. Menos gente empregada significa menos consumidores no mercado, ou consumidores comprando menos. Com o mercado consumindo menos, as empresas vão vender menos ainda e vão ter que demitir mais. Esse é o caminho para o fechamento e não para a recuperação. Para a recuperação é preciso que aumente o número das pessoas que compram e para ter mais gente comprando é necessário que haja mais gente empregada. Demitir empregados, portanto, não diminui, mas agrava a crise.

Para o empregado o reflexo da crise está na perda do emprego e na dificuldade de recolocação. O seguro desemprego é temporário e insuficiente para a continuidade do padrão de vida que estava sendo sustentado pelo salário. Uma saída, que já começou a ser praticada, é aceitar a proposta da empresa para uma redução na carga horária com redução do salário, por um determinado prazo ou até que a crise seja superada. É uma solução que não garante a continuidade do emprego e que leva o trabalhador a abrir mão de alguns direitos trabalhistas. A isso os sindicatos se opõem, criando um impasse que leva as empresas a demitirem. A única coisa que garante a continuidade do emprego é o crescimento do mercado. Obrigando as empresas a demitirem, por falta de acordo, o desemprego reduzirá o mercado consumidor. Também não é o caminho para o objetivo, porque agrava a crise.

O caminho que leva ao objetivo de vencer a crise é um caminho árduo, é o caminho das pedras. Essas pedras são o medo e a desconfiança, de ambos os lados. O medo de falir, o medo de perder o emprego e a desconfiança de má fé, de um em relação ao outro, dificultam o entendimento e a cooperação. Assim, nenhum cede na sua posição. Como a crise afeta a ambos, enquanto cada um espera que o sacrifício seja só por parte do outro, os dois lados continuarão no caminho que os afasta do objetivo almejado.

Como estamos comemorando o bicentenário de Charles Darwin, é de imaginar que vai haver uma espécie de seleção natural para o rompimento da crise econômica. As empresas e os empregados que entrarem num entendimento de cooperação, aceitando, cada um, o sacrifício que lhe couber, é que irão sobreviver. Os que se mantiverem irredutíveis em suas posições, certamente perecerão.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru