09 de julho de 2026
Geral

Com crise, descendentes de japoneses retornam a Bauru

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

A crise financeira internacional levou filhos e netos de japoneses que deixaram o Brasil para tentar a vida no “país do sol nascente” a percorrer o mesmo caminho que seus ascendentes. Se há 100 anos a maioria deles chegava em solo verde-amarelo iludida com a possibilidade de enriquecimento rápido, atualmente os dekasseguis retornam à terra de origem por conta do desemprego e, inclusive, com medo da fome. E, entre eles, há muitos bauruenses que já voltaram por conta do problema mundial.

Prisciane Delgallo Pimi, que ainda está no Japão, espera transitar pela avenida Nações Unidas em março, com o marido e o bebê de 1 ano. “Tem muito brasileiro voltando, muitos brasileiros desempregados, passando fome, sem dinheiro para voltar. Estão com os móveis na rua. Cercam de papelão para protegerem-se do frio. Não aconselho a ninguém vir para cá”, alerta. Por enquanto, o marido dela está empregado, mas a família não vai “esperar” o contrato ser rescindindo.

Atualmente, eles vivem em Minokamo, estado de Gifu, um dos mais afetados pela crise. Um outro bastante atingido é Aichi-ken, informa Seiko Tokuhara. Ele trabalhava há anos como representante de empresas japonesas interessadas em contratar dekasseguis. Sem vagas de emprego no Japão para oferecer a brasileiros, agora transporta os que voltam para cá.

“Faço isso com muita dor no coração. Várias pessoas estão retornando sem dinheiro. Conseguiram passagem com ajuda. Recentemente, dois bebês morreram congelados. Cerca de dez mil brasileiros perderam o emprego e não têm direito ao seguro-desemprego”, acrescenta Tokuhara. Quando vão ao Japão a trabalho, pagam aluguel para a própria empresa, que fica como avalista. Ao serem demitidos, para conseguirem locar um outro imóvel devem pagar uma caução, cujo valor é muito alto, especialmente para quem já não tem fonte de renda.

Demissões

Segundo relatório divulgado pelo Ministério do Trabalho, Saúde e Bem-Estar do Japão, só no mês de dezembro, 4.300 estrangeiros foram demitidos. Todos haviam sido contratados para o setor industrial, através de agências de emprego. Recentemente, duas das principais empresas do Japão anunciaram um total de 27 mil cortes de postos de trabalho. O número se soma agora aos milhares já anunciados em janeiro - grande parte de brasileiros.

De acordo com Prisciane, o índice de furto e roubos no Japão já aumentou. “Está muito ruim. As igrejas evangélicas brasileiras estão ajudando com cobertor e comida os que estão na rua. Espero não voltar mais para o Japão. Essa foi a segunda vez. Da primeira vez, eu era solteira”, comenta. Se antigamente as pessoas que levavam uma vida regrada conseguiam guardar dinheiro, agora precisam se sujeitar a trabalhos com remuneração inferior.

As vagas existentes são reservadas aos próprios japoneses. Os latino-americanos são os últimos da fila, conclui Tokuhara.

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Novo navio

Os primeiros imigrantes japoneses deixaram o porto de Kobe a bordo do navio Kasato Maru e chegaram a Santos em junho de 1908. Agora, a expectativa é que outro navio traga para o Brasil os dekasseguis que passam por necessidades no Japão.

“A gente está aguardando para ver se o governo brasileiro faz parceria com o japonês. Viriam muitos passageiros”, comenta Seiko Tokuhara, ao referir-se às pessoas que não dispõem de recursos nem para voltar. No entanto, extra-oficialmente comenta-se que o congresso nacional seria contra porque abriria um precedente em relação a outros países.

“Tem muitos brasileiros desempregados na Irlanda do Norte, não só no Japão. Na França, nos Estados Unidos, na China. Seria uma atitude para amenizar o sofrimento de pessoas que injetaram dinheiro aqui e agora enfrentam um momento difícil”, conclui.

De volta ao Brasil, obter recolocação profissional não é uma missão fácil para o ex-dekassegui. Não há números sobre o tempo médio para conseguir emprego no Brasil, mas segundo estimativas do Grupo Nikkei - Instituto de Promoção Humana, leva de três a quatro meses, informa o Jornal Nippo Brasil.

Frente à situação, Júlio Akio Kosaka, presidente do Clube Cultural Nipo Brasileiro, checará se todos os bauruenses que voltaram vieram por conta da crise ou se já planejavam o retorno antes dela. No primeiro caso, a entidade tentará recolocá-los no mercado de trabalho local. Ele já fez contato, por exemplo, com o Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Sest-Senat).