O aumento de R$ 500 milhões para R$ 980 milhões da linha de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinado aos municípios para a compra de caminhões e máquinas agrícolas é positivo, mas seus efeitos devem ser limitados. O tema está sendo avaliado junto ao setor público e privado depois que a linha de financiamento foi anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na última terça-feira, em Brasília (DF), durante encontro nacional com prefeitos eleitos. A Associação Paulista dos Jornais (APJ) fez a cobertura do encontro e ainda realizou entrevista exclusiva com o presidente da República, a ser publicada no próximo domingo.
No caso da Prefeitura de Bauru, a estimativa para a capacidade de endividamento é de no máximo R$ 3 milhões, valor que atende a uma demanda emergencial mas, nem de longe, responde às necessidades locais. A vice-prefeita, Estela Almagro (PT), esteve anteontem no BNDES para verificar a planilha técnica da situação de Bauru. Embora tenha feito avaliação otimista, a própria administração reconhece a limitação da linha de crédito.
Reconhecidamente em situação de sucateamento, a frota municipal necessita de muito mais que os R$ 3 milhões apresentados. Além do limitador no volume de financiamento, o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) contou que não quer estender a dívida para pagamento além de seu mandato, a ser concluído em 2012. “A idéia é a gente fazer o financiamento para ter uma estrutura mínima para atuar em obras viárias, sobretudo as ruas urbanas de terra, mas com o financiamento para pagar em até quatro anos”, contou Agostinho.
Um dos entraves apontados é o fato da linha ser dirigida apenas às prefeituras e não incluir os prestadores de serviços. O diretor superintendente da Vocal, Cláudio Zattar, que dirige a maior rede de concessionárias Volvo na América Latina, diz ainda que o valor do crédito não é tão expressivo, levando-se em consideração os mais de 5 mil municípios do País.
Apesar do limitador em relação às necessidades, o setor privado considera o financiamento muito atrativo, por ter juros baratos. “Por outro lado é dinheiro barato e que possibilita financiamento de 100% da compra do bem, o que pode ser extremamente atraente para algumas prefeituras que têm obras importantes de infra-estrutura para fazer”, pondera Zattar.
O executivo lembra que a linha oferece juros de 1% ao mês, mais TJLP, prazo de carência de seis meses e prazo de 54 meses para pagamento.
Com a perspectiva de aumentar suas vendas, a Vocal já iniciou trabalho para identificar quais prefeituras podem ser potenciais clientes. Zattar admite, no entanto, que por enquanto, não há negociação com nenhuma administração municipal nesse sentido.
O diretor da Vocal ressalta que a grande aposta do setor de caminhões neste ano são justamente as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “É uma grande oportunidade de vendas”, avalia. Dentro da visão de que a medida não deve ter reflexos significativos, embora ajude, o presidente do Sindicato de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Simers), Cláudio Bier, afirma que o setor levou novas reivindicações ao Ministério da Fazenda e aguarda posição do governo sobre as propostas.
Os fabricantes pediram a desoneração do PIS e da Cofins, a ampliação do programa Mais Alimentos para o produtor rural de médio porte - já que ele beneficia agricultores familiares com crédito para compra de máquinas e implementos - e a adoção de um fundo de aval pelo BNDES. Os agricultores que rolaram dívidas não conseguem captar financiamentos, diz Bier, e o fundo de aval aumentaria seu acesso a novos créditos.
A preocupação com o nível de atividade no setor de máquinas agrícolas chegou à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pelas mãos da bancada gaúcha do PT. Na semana passada, deputados federais e estaduais do partido aproveitaram uma reunião com Dilma em Porto Alegre para expor as dificuldades do setor. Em resposta, a ministra prometeu avaliar a questão.
Desempenho
Apesar da redução das vendas nos últimos meses do ano passado, Zattar, da Vocal, informa que 2008 foi recorde para a empresa. “Só não foi melhor porque a produção estava limitada”, afirma. O faturamento bruto da Vocal cresceu 20% no ano, para R$ 574 milhões, enquanto o lucro líquido subiu 92% para R$ 23 milhões. Em volume, as vendas cresceram 17%, totalizando 1.720 unidades.
Para 2009, a estimativa é registrar números pouco abaixo dos verificados este ano. A empresa projeta faturamento bruto de R$ 522 milhões, lucro de R$ 16 milhões e um volume de vendas de 1.580 caminhões. O diretor da Vocal admite, no entanto, que trabalha também com um cenário B, mais pessimista, onde o faturamento cai para R$ 420 milhões e o volume de vendas recua para 1.200 unidades.
Apesar de não revelar os números de janeiro, Zattar afirma que foi um bom mês de vendas, uma vez que as concessionárias fizeram um esforço grande de vendas para desovar os estoques. “A redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) também ajudou”, avalia. Em fevereiro, por sua vez, o ritmo é bom, mas abaixo dos níveis de janeiro.