08 de julho de 2026
Mulher

A violência que seduz mulheres

Da Redação
| Tempo de leitura: 5 min

A atração pelo risco e perigo tem atraído mulheres para gangues e galeras. E embora a maior parte dos grupos seja formado por homens, existe espaço para membros do sexo feminino. Algumas incorporam o mesmo conjunto de valores agressivos dos rapazes, se tornando, às vezes, até mais perigosas que eles próprios. Na gíria, são as garotas “de rocha”, que bebem, fumam, usam drogas e se aproximam de todos os atributos ditos masculinos.

Ironicamente, o mesmo comportamento que traz heroísmo as desqualifica no campo sexual. Por isso, são vistas como vagabundas e vadias. É o mostra a pesquisa “Entre gangues e galeras: juventude, violência e sociabilidade na periferia do Distrito Federal”, realizada pela doutora em antropologia Carla Coelho de Andrade, que defendeu a tese no Departamento de mesmo nome na Universidade de Brasília (UnB).

E é exatamente em relação à sexualidade que se sobressai uma das contradições dos participantes. “Os jovens são extremamente conservadores, guiam-se por estereótipos e preconceitos. Essas não são mulheres para casar. Eles admiram meninas sensíveis, como as mães, e vêem com maus olhos a liberdade sexual feminina”, explica Carla.

As meninas ocupam posições periféricas e funcionais na hierarquia interna das gangues. São responsáveis por esconder armas e drogas durante revistas policiais, uma vez que as batidas são feitas por agentes do sexo masculino, e apenas mulheres podem abordá-las.

Para a pesquisadora, a divisão de responsabilidades entre os gêneros expressa uma forma tradicional de pensar e agir, que também se reflete no desinteresse em reverter a ordem social, promover revoluções ou mudar o mundo. “Pelo contrário, eles querem acessar o universo do consumo, usar tênis Adidas ou bonés da Nike. E assim, projetam o desejo da família tradicional burguesa”.

Para realizar a pesquisa, Carla entrevistou cerca de 200 adolescentes entre 15 e 24 anos em três regiões administrativas do Distrito Federal: Ceilândia, Samambaia e Planaltina. Nas conversas, descobriu que honra e reputação norteiam as relações sociais entre os próprios pares e grupos rivais, num modo de afirmação que destaca a virilidade, masculinidade, coragem, força, valentia e demais sentimentos correlatos.

Com base nisso, a pesquisadora concluiu que situar a violência no contexto dos valores dos jovens é mais relevante do que tentar explicar o ingresso de meninos e meninas em gangues pelas baixas suas condições socioeconômicas.

“É um equívoco associar a pobreza à violência e as ciências sociais têm contestado ferozmente essa versão. Existe muito sensacionalismo em torno do tema, o que me incomoda muito. Claro que há a exclusão social pode ser um deles, mas não é o único fator de adesão”, explica a pesquisadora, que analisou os comportamentos e atitudes valorizados nesse meio social.

Esse modo de pensar e de se sociabilizar se manifesta nos ritos de iniciação às gangues, no revidar de provocações à altura, e em atos ilícitos como assaltos e roubos de carro, padarias, residências, lotéricas, ou brigas internas ou contra facções inimigas. Não ter medo é uma das prerrogativas para manter a honra e reputação, algo que eles devem mostrar a todo o momento.

Nesse contexto, a violência assume o maior fator de status, principalmente quando se refere àquela praticada contra a vida. Matar ou apenas declarar a realização de um assassinato são suficientes para agregar valor à reputação. “A idéia de ‘controle’ sobre quem deve ou não viver gera uma sensação de poder”, explica a estudiosa, que foi orientada pelo professor Wilson Trajano Filho.

O caminho rumo à transgressão e seus diferentes níveis entre esses jovens, no entanto, não surge repentinamente. A trajetória geralmente se inicia com pichações, considerada a forma inaugural da linguagem das gangues, quando tudo ainda é apenas uma brincadeira ou diversão. Mas a busca por mais “adrenalina” impele os adolescentes para práticas cada vez mais audaciosas e proibidas pela legislação ou pela moral.

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Rotatividade

Apesar dos atrativos de uma vida bandida, o estudo “Entre gangues e galeras: juventude, violência e sociabilidade na periferia do Distrito Federal”, realizada pela doutora em antropologia Carla Coelho de Andrade, mostrou uma renovação rápida de participantes nas gangues, com muitas partidas e também chegadas. “Este é um momento importante na vida desses adolescentes. No processo de amadurecimento, tendem a refletir sobre o futuro e a buscar um novo caminho. A maioria, por exemplo, não segue no crime”, afirma.

No plano do cotidiano, esta decisão costuma ocorrer quando os jovens estão ameaçados de morte e julgam ter à frente apenas três possibilidades, segundo suas próprias crenças: a cadeira de rodas, caso sejam feridos em confronto; o Presídio da Papuda, caso sejam presos, ou a morte.

Para escapar desse destino, as escolhas são múltiplas, seja pela arte, esporte, família ou religião, diz Carla. Dentre os cerca de 200 entrevistados, a pesquisadora escolheu quatro para analisar qualitativamente o modo de fugir de um futuro sombrio. Três desses rapazes se converteram à religião evangélica e um se tornou músico de hip hop.

“Ir para a igreja é um caminho socialmente aceito. É como se fosse um cinturão de segurança contra os valores do crime”, explica. “Já o rap se torna um meio de exorcizar as experiências passadas”, completa.

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Múltiplos papéis

O estudo de Carla Coelho de Andrade, intitulado “Entre gangues e galeras: juventude, violência e sociabilidade na periferia do Distrito Federal”, consistiu em tese de doutorado defendida em setembro de 2007 no Departamento de Antropologia (DAN) da Universidade de Brasília (UnB). Além das gangues, o trabalho de campo incluiu as galeras, grupos de amigos unidos por interesses em comum, com a diferença de não cometerem atos de violência.

Segundo a pesquisadora, a distinção entre as duas categorias é bastante tênue. Seus membros costumam transitar de um meio ao outro, assumindo papéis ora de transgressores, ora de cantores, estudantes ou trabalhadores.

* Com informações do Serviço de Comunicação da Universidade de Brasília