09 de julho de 2026
Geral

Criança ajuda alfabetizar empregada

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Os gestos delicados de Luize D’Alessandro de Paula, de apenas 6 anos, ajudaram a descomplicar a vida de uma mulher de 42 anos. Ao cumprir religiosamente suas tarefas escolares, a menina conseguiu iniciar a alfabetização da ajudante da casa, que já havia freqüentado até aulas para aprender a ler e escrever específicas para jovens e adultos.

Se o curso não deu certo, na companhia de Luize as palavras ganharam significado. Juntas aprenderam que, unidas, vogais e consoantes formam diversos sentidos. A descoberta chegou para a garota ainda no jardim 2. Para a doméstica, depois de batalhar para que a filha concluísse o ensino médio. Aliás, a primeira vez que sentiu de fato necessidade de ler e escrever foi quando constatou que não poderia ajudar seu rebento com as lições de casa.

Já no caso de Luize, muitos anos depois, tudo parecia menos complicado. Bastava ajudá-la a procurar nas revistas palavras que começassem, por exemplo, com a letra A. Ou então letras com as iniciais de seu nome. Entre uma busca e outra, e eventuais correções por parte da nova mestre de apenas 6 anos, as palavras finalmente passaram a ser interpretadas. E assim, grande parte das sinalizações de trânsito e das propagandas estampadas pelas ruas deixaram de ser misteriosas.

Pelo caminho, agora mais compreensível, duas grandes emoções marcaram o processo de aprendizagem da doméstica. A primeira foi a leitura de um trecho da Bíblia. A segunda, a formatura do primeiro ano que seria apenas de Luize. Durante a cerimônia, a ajudante foi chamada ao palco para também receber o diploma das mãos da própria Luize. “E para levantar da cadeira? Passei o maior sufoco”, comenta a mulher que pediu para ter o nome preservado.

Aplaudida pela filha de 22 anos, suas lágrimas arrancaram outras de grande parte dos convidados, conta Fabiana D’Alessandro, mãe da menina e também professora.

Descobertas

Ao perceber que o “método” de Luize poderia colaborar com a aprendizagem de sua ajudante, deixava as duas sozinhas na cozinha, onde levavam de uma a duas horas para cumprirem com a lição de casa. Hoje, na mesma mesa onde aprendeu manuscrever as letras, a doméstica lê manchetes de jornal.

Mais. No final do ano passado, pela primeira vez na vida, conseguiu seguir uma receita e fez um bolo formigueiro, hoje coqueluche na família. Também são bem avaliadas suas lições, que recebem “muito bem” por parte de Luize, cuja ortografia é bela, assim como de sua “discípula”. A escrita, porém, não surpreenderia o pai da doméstica, para quem seus filhos não precisariam ser alfabetizados.

A família dele morava na área rural de uma cidade do Paraná, onde ler e escrever parecia não fazer tanta falta. Mas as coisas se complicavam para a aluna de Luize, sempre que fazia incursões por cidades grandes, como São Paulo-Capital, onde morou por alguns anos. Porém, de um jeito ou de outro, sempre conseguiu se virar. Sentiu falta mesmo quando não conseguiu ajudar a própria filha como o bê-a-bá, compartilhado com ela por outra criança.

“Hoje, quem não sabe ler é pior que cego, porque mesmo o cego lê e consegue fazer as coisas”, diz a ajudante. Apesar do exemplo, pediu para ter o nome preservado pelo constrangimento de ter ficado tanto tempo privada do abecedário.