10 de julho de 2026
Bairros

Para driblar a polícia, venda de drogas usa tática de turnos

Por Lígia Ligabue | Com Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

Cada jovem trabalha um período que vai de quatro a seis horas. Ele recebe o dinheiro dos clientes, entrega a mercadoria e quando termina o expediente, outro colega assume o posto. Pode até parecer a rotina de algum ponto comercial de Bauru, mas na verdade trata-se de um esquema utilizado pelo tráfico de drogas descoberto pela Polícia Militar (PM), no Jardim Ouro Verde.

O método de trabalho em turnos foi adotado numa tentativa de despistar o policiamento. Dois rapazes que atuavam no sistema foram presos. Eles escondiam crack em tubo de doces. Ontem, com um deles, de 18 anos, foram apreendidas 44 pedras de crack. Na semana passada, foram apreendidas 38 porções da droga com um rapaz de 19 anos. As duas apreensões foram feitas em locais próximos e a droga escondida em frascos plásticos semelhantes.

De acordo com a PM, os dois jovens detidos integram o mesmo esquema de tráfico que funciona nas proximidades de uma viela que interliga as ruas Zenzo Kikuti e Seijo Ishikawa, no Jardim Ouro Verde. De acordo com o capitão Fabiano Serpa, comandante da 3.ª Companhia da PM de Bauru, o esquema utilizado na área é alvo de investigação desde o início do ano. “Os policiais que fazem o patrulhamento constante na área começaram a perceber que a pessoa que promove o tráfico no bairro passou a pagar para outras pessoas ficarem com pequenas quantidades de droga para fazer o comércio”, conta o comandante.

Segundo os policiais militares da Base Comunitária Oeste, que efetuaram as prisões, o grupo que age no local possui pelo menos 15 “vendedores” divididos em turnos. Na semana passada, um homem foi preso na rua Seijo Ishikawa com 38 pedras em um frasco plástico de bala e com dinheiro trocado.

Por volta das 8h30 de ontem, W.R.R.G, 18 anos, (apenas as iniciais foram divulgadas) foi detido com 44 pedras de crack também em um tubo de balas e portando R$ 85,00 em dinheiro.

De acordo com os PMs, o acusado teria assumido o turno de “trabalho” e sairia à tarde, quando outro chegaria para ficar até as 23h. Dessa forma há sempre uma pessoa diferente atendendo a freguesia que busca o crack de moto, carro e a pé nas imediações da viela.

O acusado foi levado para o Plantão Policial onde seria autuado em flagrante por tráfico de entorpecentes e seria removido para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru, onde aguardará providências do Poder Judiciário. Ele é acusado de tráfico de entorpecentes, crime que prevê de cinco a 15 anos de reclusão. O caso será encaminhado à Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise), que irá averiguar os fatos.

Policiamento

De acordo com Serpa, os vendedores que atuam nos turnos têm entre 16 e 21 anos, a maioria é desempregada e “trabalha” de manhã, à tarde e também nos finais de semana. “Mas a equipe da PM está focada em combater o tráfico e de olho nesse grupo”, afirma o capitão.

Após os flagrantes, a PM continuará o trabalho no bairro. “Vamos trabalhar em conjunto com a Polícia Civil e intensificar o patrulhamento porque o nosso objetivo é acabar com o tráfico de drogas”, afirma. “E com o trabalho de inteligência policial, pretendemos levantar outros possíveis pontos-de-venda e suspeitos”, destaca.

Para o capitão, o apoio e as informações da população são fundamentais para o trabalho policial. “A comunidade precisa ser os olhos e ouvidos da PM, que não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo”, diz. “Se continuarem ajudando, continuaremos a ter sucesso”, destaca.

Os PMs comentam que, em virtude do tráfico, há um número elevado de roubos e furtos a ônibus, a postos de gasolina, a pessoas nas ruas e as casas da região.

____________________

Comunidade

O capitão Fabiano Serpa, comandante da 3.ª Companhia da Polícia Militar de Bauru, avalia que a descoberta do sistema de tráfico em turnos é resultado da aproximação da PM com a comunidade. “Com a descentralização do policiamento, patrulhas passaram a atuar nas mesmas áreas. Assim, existe uma aproximação maior com a população, o policial tem um maior conhecimento de quem mora no local, da geografia da região e dos meliantes da área”, explica.

Com isso, ele explica que o relacionamento entre moradores e PM melhora. “E daí vem a troca de informações”, destaca. “Com observações diárias, denúncias anônimas ou não, conhecimento das ruas do local e com a experiência do policial, ele passa a identificar os marginais e seus modos de agir no bairro”, diz.