Há alguns anos, Arthur de Castro Luz, o Tute, arrumou um jabuti como animal de estimação. Ele ficou sabendo que o bicho vive mais de cem anos e queria saber se é verdade. O jabuti está com ele, na chácara onde Tute nasceu e onde hoje vai festejar seu centenário. O bicho já dá sinais da idade. Tute, garante que vai vencer o jabuti. Contador e agricultor aposentado, ele mora em Monte Santo de Minas (MG), mas passou 42 anos em Bauru - foi um dos sócios da mais famosa loja de Bauru, a Casa Lusitana, e diretor do Bauru Tênis Clube (BTC).
Tute nasceu em 1909 e chegou em Bauru em 1936. Foi logo contratado pelo comércio da família Garcia. “Ele está no primeiro livro de registros da Casa Lusitana. Entrou em 1936 como empregado e saiu em 1972, como sócio”, afirma Ary Nunes Garcia, que foi proprietário da empresa e colega de Tute.
De acordo com ele, Tute era responsável pela parte de secos e molhados da Casa Lusitana e só saiu por conta do encerramento das atividades da empresa. Solteirão convicto, morou com a mãe na esquina da rua Sete de Setembro com a Gustavo Maciel. “O Tute pegou minhas crianças no colo. Hoje elas já têm mais de 50 anos”, lembra Garcia.
Primo do centenário, Huxley Ivens Pontes Luz de Pádua Cerqueira, diretor da Companhia Teatral Mandrágora, conta que quando passava temporadas na chácara de Tute gostava de virar as madrugadas conversando com ele. “Ele contava que viu Bauru surgir, a estação de trem ser construída”, relata. O diretor também destaca que o primo é muito querido e respeitado e, por sua causa, conseguiu levar a Mandrágora para o Estado vizinho. “Ele sempre me incentivou e abriu a oportunidade para a companhia se apresentar em Minas”, conta.
Helen Maria Pontes Luz Cerqueira, prima de Tute, lembra do amor que ele sempre teve por Bauru. “Tute tem verdadeira paixão por Bauru”, destaca. “E a cidade sempre o acolheu como um de seus filhos queridos”, diz.
Amigo há mais de 50 anos de Tute, Edwald Albieiro, lembra das viagens que faziam juntos. “É uma pessoa de uma retidão incomparável, um amigo verdadeiro. Conheci Minas graças a ele. Quando o Tute morava em Bauru, passava de carro em sua casa, buzinava e dizia: ‘Vamos, Tute’. Ele nem perguntava para onde e a gente ia embora”, conta.
Mesmo depois de aposentado, ele continuou suas atividades na Casa Lusitana. Em 1978, pouco tempo depois que a empresa fechou, ele voltou a Monte Santo de Minas. Reformou e ampliou a propriedade da família, passando a plantar café no local. “Até alguns anos, ele ia e voltava a pé da cidade. Ainda hoje, ele conta que dorme só algumas horas por noite”, conta Huxley. “Ele nunca teve carro. Gostava era de andar”, confirma Garcia.
Hoje, em Monte Santo de Minas, a família vai homenagear o aposentado. Dezenas de amigos de Bauru, São Paulo e Poços de Caldas (MG) vão em caravana prestigiar o centenário de Tute. A festa surpresa foi preparada pela sua irmã caçula, Noêmia, que já soma 96 anos.