Às vésperas do início do Carnaval, quando a grande maioria das pessoas está fechando as malas para uma viagem de descanso, um grupo de oito profissionais liberais de Bauru colocou o pé na estrada para levar solidariedade a quem precisa. São arquitetos, engenheiros, dentistas e advogados que abriram mão de conforto, belas paisagens, sombra e água fresca, para se embrenhar pelas ruas de lama e na parca infra-estrutura de que dispõe a cidade de Ilhota, uma das áreas mais afetadas pelas enchentes que atingiram o Estado de Santa Catarina no ano passado.
Integrantes da Rede SOS Global, criada em 2005 para atender vítimas de catástrofes em todo o mundo, eles saíram ontem à noite da cidade em dois carros, em um trajeto que deveria durar 10 horas até o ponto de chegada. Lá, se encontrariam com mais 22 pessoas da rede, vindas de cidades distintas como São Paulo, São José dos Campos e Pompéia.
Pagando os custos da viagem ‘do próprio bolso’ e utilizando carros particulares, eles pretendem chegar à Santa Catarina para iniciar um trabalho de mutirão. “Há montanhas de doações de alimentos e roupas que estão paradas nos galpões, por simples falta de mão-de-obra. Então vamos ajudar a distribuir esses recursos nas áreas mais afastadas e de difícil acesso”, pontua o coordenador da empreitada no Estado, o promotor de Justiça Enilson Komono.
Durante os cinco dias em que permanecerão no local, também planejam auxiliar nos trabalhos de remoção de entulhos e de limpeza das casas que foram tomadas pela lama. Dois dentistas estão levando equipamentos odontológicos para atender os abrigados que ainda não conseguiram voltar para casa.
“Uma das preocupações da rede é trazer socorro a quem tem menos assistência. No caso de Santa Catarina, a cidade de Itajaí recebeu uma ajuda enorme. Então priorizamos auxiliar localidades menores, onde não havia tantos voluntários e organizações humanitárias trabalhando”, comenta o fisioterapeuta Robson Daniel Jacinto Barbosa.
Terceira vez
Esta é a terceira vez que o grupo se desloca até Ilhota. Nas duas vezes em que estiveram na cidade, em dezembro do ano passado e janeiro deste ano, levaram médicos e enfermeiros para prestar atendimento de saúde à população e engenheiros para orientar na reconstrução das casas. Na ocasião, os próprios voluntários fizeram as vezes de pedreiros e, literalmente, colocaram a mão na massa.
“Na última vez em que estivemos lá, parte da equipe chegou a ficar 40 dias trabalhando. Infelizmente, desta vez, conseguimos programar nossa estada apenas para o período de Carnaval”, observa Komono.
Nesta terceira etapa da ajuda humanitária prestada à população de Ilhota, o grupo visitará um bairro chamado Alto Baú, que fica em um morro onde viviam 250 famílias, até os desmoronamentos de terra destruírem todas as moradias. “Só agora, depois de quase três meses, é que as estradas de acesso foram reconstruídas, então as pessoas estão deixando os abrigos para recomeçarem suas vidas. E nós estaremos lá para ajudá-las”, destaca o promotor.
Em Santa Catarina, os bauruenses ficarão instalados em um alojamento coletivo para voluntários, cedido pela prefeitura local. Embora haja pouco conforto e nenhuma regalia, eles afirmam que o sacrifício é recompensador.
“Quando a gente sai daqui, pensa que vai só para ajudar as pessoas. Mas somos nós que saímos transformados, nossa vida nunca mais é a mesma. Não existe nada que pague os sorrisos e a esperança que a gente vê nos olhos das pessoas”, conta Barbosa.
A expectativa é de que esta seja a última viagem da equipe até a cidade. “A tendência é que, depois disso, o município consiga suprir, sozinho, as necessidades. Se isso não ocorrer, é possível que a gente volte para lá, trazendo novos recursos”, adianta Komono.
____________________
Rede internacional
Criada em 2005 inicialmente para atender as vítimas do Tsunami registrado na Indonésia no ano anterior, a Rede SOS Global é uma aliança entre Organizações Não-Governamentais (ONGs), empresas e profissionais liberais que visa prestar ajuda a vítimas de guerras e de tragédias provocadas por fenômenos naturais.
Fundada por uma indonesiana que vive no Brasil, a rede também já atuou no socorro à população do Timor Leste, em 2006, durante a guerra civil, e aos desabrigados pelo ciclone que matou milhares de pessoas em Myanmar (Birmânia), em 2008 . Neste mesmo ano, a organização teve sua primeira atuação no Brasil, durante as enchentes que atingiram o Piauí, em abril.
“É uma rede internacional que atua em todo lugar onde tenham ocorrido catástofres. São centenas de voluntários mobilizados em todo mundo, prontos para trabalhar a qualquer momento”, afirma o fisioterapeuta Robson Daniel Jacinto Barbosa.
A rede não possui fins lucrativos ou promocionais e depende, exclusivamente, da disponibilidade financeira de seus membros.