10 de julho de 2026
Geral

Aposentada preserva cartas escritas por seus pais no início do século passado

Carlos Demarchi
| Tempo de leitura: 3 min

Aos 84 anos, a professora aposentada Benilda Nagata preserva uma raridade em casa: ela guarda cerca de 100 correspondências trocadas entre seus pais, nas primeiras décadas do século 20.

Benilda demonstra grande lucidez e facilidade para falar sobre o passado dos pais, Péricles Calvino Líbero Mainardi e Izabel Laudino de Barros, que viveram 60 anos juntos e sempre enviavam cartas quando estavam distantes um do outro.

As correspondências, guardadas com carinho pela aposentada em uma caixa e uma pastinha azul, remontam o período de namoro do casal - a mais antiga foi escrita à mão, em 5 de outubro de 1918 - e seguem até o período em que Péricles lutou na Revolução Constitucionalista de 1932. Os textos são marcados pela linguagem emotiva e pela influência religiosa.

Dona Izabel era brasileira e Péricles, de origem italiana. Eles se casaram em 1921. No documento mais antigo, de 1918, Péricles escreve uma carta parabenizando o aniversário de 18 anos da namorada. “Eles se correspondiam por meio de amigos, já que os pais não permitiam namoro naquela época”, conta.

A família morava em Piracicaba, mas se mudou para Pirajuí depois da crise de 1929. Segundo a aposentada, a cidade “era um fim de mundo” no período. Péricles era diretor escolar e veio transferido para o município. Em 1932, quando ocorreu a Revolução Constitucionalista de 1932, o pai da aposentada intensificou o número de cartas correspondidas com a mulher, que ficou com os filhos. Uma delas aborda certa frustação de Mainardi com a permanência da tropa em São Paulo, antes de seguir para o município de Cunha. O pai de Benilda evitava reclamar para a mulher sobre a situação difícil da luta. “Havia grande transmissão de amor e respeito de um para o outro”, explica Nagata.

Durante a fase em que esteve no front da revolução, também eram muito comuns os relatos de saudade da mulher e das crianças. A esposa era chamada de “Dedé”. “Estamos com 600 homens e mais uma companhia de cavalaria com 108 homens e 150 cavaleiros. Como vão os nossos queridos filhos, papai, vovó? Espero que estejam gozando de boa saúde e de felicidade, que tão bem merecem”, diz uma das cartas. No período da guerra, os avós moravam com Benilda. “Ele tinha uma fé extraordinária de que São Paulo fosse vitorioso”, conta a aposentada, que tinha 7 anos naquele momento.

Mesmo nos dias de maior batalha, as correspondências continuavam a ser transmitidas entre o casal. Péricles retornou para Pirajuí, com alguns amigos de combate, em dezembro de 1932. “Minha mãe acompanhava as notícias em um pequeno rádio. Lembro que, em uma noite, minha mãe recebeu a notícia de que houve uma baixa grande na luta. Ela chegou até chorar naquela noite”, recorda.

Para a filha do ex-combatente, é fundamental preservar a história da família. “Acredito que tudo que não tem raiz, não tem vida. Meu pai sempre foi um lutador e corajoso. Quero preservar isso. Quando tenho um tempinho, fico matando a saudade”, relata. A aposentada pretende reunir as cerca de 100 cartas por data e assunto tratado, para facilitar a localização. Hoje, Péricles Calvino Líbero Mainardi dá nome a uma rua no Jardim Colina Verde, em Bauru.