11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: José Walter Lelo Rodrigues: De boêmio a político e pregador da fé

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 11 min

A figura de José Walter Lelo Rodrigues, o pastor Lelo, é popular em Bauru. À frente da Igreja Manancial de Sião, suas palavras de fé já são conhecidas não apenas entre evangélicos ou eleitores que, por 24 anos, o acompanharam no Legislativo. Mas o pregador, quem diria, já foi boêmio e pé-de-valsa. Um dia, influenciado pelo amor de uma moça e pela boa música, entrou na Igreja Presbiteriana e pediu a Deus um sinal. A resposta foi simples e imediata. “Segue-me”, dizia o trecho aberto da Bíblia.

Obedeceu, sempre acompanhado da dona de tanta afeição, a esposa Osnilda Cerqueira Leite Rodrigues, com quem compartilha a vida desde os 21 anos. Nesse caminho, seja para onde for, orienta a todos para que nunca desistam. Com insistência, enquanto tiver fôlego, lutará pela faculdade de medicina em Bauru. Com teimosia, transformou o Banco de Leite Materno em algo real. Aprendeu a lutar dentro da própria casa.

Lelo saiu do ventre de uma família operária. O pai foi 42 anos zelador do Edifício Pagani, onde morou com a mulher e os seis filhos. Com os amigos, Lelo brincava na rua Batista de Carvalho. Na avenida Rodrigues Alves, disputava um calçado sem brilho. Aprendeu o ofício de engraxate muito antes de ser pastor. Com os pés descalços, jogou bola com Edson Arantes do Nascimento. Não era craque como Pelé, mas também nunca ficou sem time.

Jornal da Cidade - O senhor é um torcedor assíduo?

Pastor Lelo - Não. Já fui um torcedor forte do Corinthians. Gostei muito. Também joguei futebol.

JC - Foi craque?

Pastor Lelo - Fui um jogador medíocre. Mas cheguei até a jogar, aqui em Bauru, em diversos clubes. Um deles chamava-se Sete de Setembro. Eu não era titular, mas jogava. Também jogava aquele moço que depois foi para o Santos Futebol Clube, chamado Pelé. Um dia, o time do Pelé precisava comprar um jogo de camisas. Ia começar um campeonato. E eles tinham 640 cruzeiros, mas o jogo de camisas custava 700. Então o Pelé e mais um rapaz chamado Valdemar, que era também o presidente do time, me venderam por 20 cruzeiros, na época (ele e outros dois jogadores).

JC - O senhor veio para Bauru com quantos anos?

Pastor Lelo - Com 30 dias. A minha cidade é Bauru. Meus pais vieram de Jaú e, graças a Deus, vim parar nesta terra. Nós éramos seis irmãos. Agora somos três. Meu pai foi um homem que veio da roça, um homem que trabalhou a vida inteira. Quando veio para Bauru, começou a trabalhar desde a construção dos alicerces do Edifício Pagani. Depois que o prédio estava pronto, trabalhou 42 anos como zelador do Edifício Pagani. Para mim, foi uma honra. Meu pai, a vida inteira, trabalhando para o sustento da família. A minha mãe também foi uma lutadora. Fazia o café para os funcionários do DER.

JC - Sua infância foi marcada por um grave problema de saúde.

Pastor Lelo - Em 1952, na minha infância, a cidade teve um epidemia denominada a “asma de Bauru”, que foi provocada pela indústria Anderson Clayton. Eu tinha 9 anos e lembro-me. Sou grato pelo grande esforço e dedicação do médico doutor Abrahim Dabus, que cuidou da minha saúde.

JC - O senhor começou a trabalhar cedo?

Pastor Lelo - Fui engraxate. Meninote, aprendi a engraxar e entregava marmita. Naquela época, ia buscar marmita para as famílias e ganhava um dinheirinho. Tinha uns 12, 13 anos. Naquela época, para engraxar, tive que aprender a falar de trás para frente. Para engraxar na avenida Rodrigues Alves, em frente ao Fórum, onde hoje é a Câmara Municipal, tinha que saber a falar assim.

JC - Já era evangélico?

Pastor Lelo - Católico. Eu tinha uma vida boêmia. Participava de bailes, do Carnaval. Dançava todos os estilos. Era um jovem boêmio envolvido com a música, com a arte. Aí, um dia, comecei a namorar uma moça, que é a Osnilda. Acho que eu estava com 21 anos. Ela veio de Pirajuí.

JC - Onde a conheceu?

Pastor Lelo - Quando eu estava tomando uma cervejinha numa sorveteria. Estava me preparando para ir ao baile. A sorveteria se chamava Pingüim. Era o “point” da época. Estava sentado com um amigo meu, que hoje é o doutor Paulo Afonso Valle Simonetti. Quando vi aquela menina entrando, falei para ele: “Olha que moça linda”. E ele me disse que a namorada dele a conhecia. Entrou em contato com a namorada, que contou para a irmã da Nida (Osnilda), a Olga. E a Olga então organizou um encontro entre nós dois. Eu a conheci e começamos a namorar.

JC - E o senhor se casou na igreja católica?

Pastor Lelo - Não. Namoramos oito anos. E nesses oito anos, um dia falei para ela que domingo íamos ao cinema. E ela disse que não. “Domingo, eu vou à igreja”. Ela foi sempre evangélica, de berço. Eu só ia buscá-la na saída da igreja. Tinha dentro de mim um vazio no coração.

JC - Era angústia?

Pastor Lelo - Difícil explicar. A gente tinha tudo o que queria. Bons amigos, andávavamos juntos nos bailes, no futebol, no cinema, era uma turma boa. Mas, às vezes, quando eu chegava em casa, às 5h, olhava para o céu e perguntava para mim mesmo: mas isso é a vida? Quer queira, quer não, a boemia cansa muito. Não parece. A pessoa não percebe.

JC - Como foi com a igreja?

Pastor Lelo - Eu fiquei buscando minha namorada na esquina da igreja. Não atravessava. Ouvia o coral, era lindo. Ouvi a primeira vez, a segunda. Na terceira, atravessei a rua. Um dia, falei: “Vou chegar na escada porque na escada ninguém me vê”. Até que um dia, comecei a participar de um movimento chamado Avivamento Bíblico, nessa igreja, em 1969. Como ela ia, perguntaram: “Você não quer ir à uma reunião de oração?” Fui. “Não quer ir outra vez?” Educadamente, fui outra vez. Foi aí que começou a mudar um pouco a minha parte espiritual. Um dia, estava na Igreja Presbiteriana Independente, que é a primeira igreja, e estava ajoelhado no último banco derramando minhas lágrimas perante Deus. E surgiu, em cima do banco, um Novo Testamento bem surrado. Eu disse: “Olha, o que está faltando para a minha vida? Fale comigo de alguma forma”. E senti uma coisa. Abri esse Novo Testamento e pus meu dedo num trecho. Consegui ler. Estava escrito: “E disse-lhe, segue-me”. Foi assim, o senhor fala com a gente com simplicidade.

JC - O senhor deixou a boemia aos poucos ou foi radical?

Pastor Lelo - Aconteceu o seguinte. Tinha um conjunto que vinha a Bauru chamado Betinho, o Rei da Noite. Foi ele quem praticamente introduziu a guitarra no Brasil. Foi o criador daquela música “Neurastênico”. Ele foi a bola da vez naquela época. Um dia, minha namorada, que é minha esposa hoje, falou: “Vai um amigo seu hoje na igreja”. Fiquei assustado e fui lá para ver. Era o Betinho. Ele deixou aquela vida artística para servir a Jesus Cristo. Fiquei tão irritado. Quando acabou o culto, fui conversar com ele. “Você falou essas coisas aí, mas vai voltar para os bailes, né?” Ele olhou para mim e falou: “Lelo, estou imunizado, acabou. Agora, eu só louvo a Jesus”.

JC - Mas o senhor, nesta época, já estava freqüentando a igreja?

Pastor Lelo - Eu ia um domingo, faltava quatro. E foi mudando. Deus me cercou de muito amor. Aos poucos, fui deixando o cigarro, deixei a bebida alcóolica, deixei os bailes.

JC - E a atuação política?

Pastor Lelo - Eu nunca tinha entrado na Câmara Municipal até que o pastor Abílio Pinheiro Chagas e o Dudu Ranieri me inscreveram no partido. Era o Arena. Eu não tinha nem noção, porque a minha vida não era nada envolvida com a vida pública. A não ser o trabalho envolvido com o social, o espiritual, o religioso. Em 1978, fui lançado como vereador e fui eleito com 1.124 votos. Um monte de votos eu perdi porque o meu apelido era Lelo e não podia, era número ou nome: José Walter Rodrigues. Lelo é apelido, desde pequeno. Eu tinha um tio que tinha apelido de Nelo, mas eu não conseguia falar. Eu falava “Oh, o Lelo vem vindo”. E ficou Lelo. Eu fui eleito, fiquei eleito 24 anos procurando servir essa cidade que tanto amo. Aqui, nós nos casamos, aqui tive minhas filhas. A nossa vida é aqui. A vida da antiga rua Batista, hoje o Calçadão.

JC - Qual legado o senhor gostaria de deixar?

Pastor Lelo - Eu gostaria de dizer que estamos nesse mundo de passagem. Temos que fazer o bem. Ajudar, compreender as fraquezas das pessoas, entender situações muitas vezes de confronto. Digo sempre assim: “Deus nunca desiste de você. Deus não quer o bom para você, quer o melhor”. Interessante, Deus perdoa, mas a vida, não. O que quero deixar para as pessoas é que elas não desistam. Mesmo se erraram, mesmo se foram vilipendiadas, não desistam porque Deus vai dar força para vencer aquela etapa negativa. Mas sempre sou entusiasmado porque me lembro de um trecho bíblico, de José do Egito dizendo para os irmãos que o venderam, o trituraram. Quando chegam perto dele, ele diz: “Vós intentaste o mal contra mim, mas Deus transformou o mal em bem”. Isso para mim é forte. Toda pessoa que intentar o mal contra sua vida, Deus honra você. Deus tem amor.

JC - Qual é a sua meta atual?

Pastor Lelo - Estou envolvido com o social. Ensino a palavra de Deus na igreja. Vamos orar, vamos cantar, mas vamos trabalhar por quem necessita. Está escrito que a fé sem obras é morta. Não é pelas obras que eu vou entrar no céu. Mas a pessoa que tem Jesus no coração como salvador é uma pessoa envolvida com o social, não tem jeito.

JC - Qual a relação do senhor com a elite?

Pastor Lelo - Respeito a elite porque muitas vezes ela pode até ser criticada, mas investe na cidade. Eu me envolvi e conseguimos o Banco de Leite Materno. Tive a idéia, falei com o prefeito na época e fui atrás. Eu e uma senhora chamada Nereida Panichi. Fui atrás de geladeira, freezer, de aventais. E onde que ia pedir? Para amigos que tinham dinheiro.

JC - Foi um feito importante na sua vida pública.

Pastor Lelo - Como vereador, nós tivemos vários projetos. Trabalhei intensamente para termos a faculdade de medicina, que é a única coisa que falta aqui em Bauru. Temos condições de ter esse curso aqui.

JC - Mas o senhor vai continuar lutando por isso?

Pastor Lelo - Enquanto tiver fôlego, vou continuar lutando por isso. Meu sonho é que Bauru tivesse um hospital para os funcionários públicos. Hoje, o Hospital Regional atende funcionários públicos e não funcionários. Outra coisa, trabalhei incessantemente para que Bauru tivesse o Conselho da Comunidade Negra. Todas as leis de grande importância são de minha autoria, os beneficiando. Por exemplo, a questão do ensino da história afro-brasileira. Tem que ser ensinada na escola municipal, mas de uma forma bem ampla. Conseguimos até fazer uma música. Fizemos um concurso e o Badê e o Jota Luís ganharam essa música, que precisa ser apresentada porque é linda. E outros projetos graças a Deus significativos, como o Corpo de Bombeiros para a Vila Falcão. Oro muito por Bauru.

JC - O senhor também é avô. Tem diferença entre pai e avô ?

Pastor Lelo - Quando eu marcava uma reunião e alguém faltava, perguntava por quê. A pessoa falava: “Olha, você vai me desculpar, mas na hora da saída, chegou minha netinha e não largava mais de mim”. Achava aquilo um absurdo. Hoje, estou pior. Ela mudou minha vida. Agora ela está com 6 anos. Mas desde os 2, ela fica em casa, passando férias. À noite, ela fala; “Vovô, eu já lavei o pé para o senhor fazer uma massagem para eu poder dormir”. Eu e a minha esposa vivemos por ela. O avô que não tinha tempo para nada, agora deita na sala, brinca de cavalinho de novo. Brotou na minha vida uma árvore frondosa e cheio de frutos.

____________________

Perfil

• Nome: José Walter Lelo Rodrigues

• Idade: 65 anos

• Local de nascimento: Jaú

• Nome da esposa: Osnilda Cerqueira Leite Rodrigues

• Nomes dos filhos: Giovanna e Gianne

• Neta: Rafaela

• Hobby: Ouvir boa música

• Livro de cabeceira: Bíblia

• Filme preferido: “Melodia Imortal”

• Estilo musical: Blues, preferencialmente religioso

• Time do coração: Corinthians

• Daria nota 0: Para quem não vive a verdade

• Daria nota 10: Para todas as entidades assistenciais e filantrópicas