09 de julho de 2026
Bairros

Nas repúblicas, valem regras de convivência

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 5 min

Coisa pública. É este o significado correto da palavra república - “res pública” na sua origem, o latim. No português, de acordo com os dicionários, entre as várias definições possíveis, também significa moradia de estudante. E, dependendo do tipo e tamanho do imóvel, nele residem de duas a dez pessoas, que pelo menos na teoria dividem tudo: das contas aos afazeres domésticos.

Em Bauru, por conta do preço mais atraente, os alunos preferem morar em apartamentos. Dessa forma, cada quarto do apartamento abriga geralmente dois alunos. Já as residências transformadas em repúblicas, dependendo do número de quartos, podem abrigar um número maior de pessoas.

O aluguel dos apartamentos, que em geral contam com um quarto, sala, cozinha, banheiro e uma pequena área de serviço, pode ser encontrado entre R$ 400,00 e R$ 550,00. Já o valor pago pelo aluguel para as residências é muito maior. De acordo com as imobiliárias consultadas, uma casa com dois quartos e demais cômodos não sai por menos de R$ 1.000,00 por mês.

As amigas Viena Gomes Andrade, Bruna Rodrigues Silva e Helaine Silva Oliveira tiveram sorte ao encontrar um residência a cerca de 200 metros da Universidade do Sagrado Coração (USC) no valor de R$ 600,00 mensais.

Embora nenhuma das três estude nessa universidade – Andrade, por exemplo, cursa educação física na Faculdades Integradas de Bauru (FIB), Oliveira direito na Universidade Paulista (Unip) e Silva já terminou estudos -, a decisão pelo local foi unânime. “Aqui estamos próximas de tudo. É seguro e o valor do aluguel também despertou nossa atenção”, explica Silva, que já vive na casa há mais tempo que as colegas.

De acordo com as amigas, tanto as contas da casa quanto a limpeza e a arrumação são divididas entre as moradoras. “Só na hora das compras é que nos separamos e cada uma faz o seu supermercado”, completa Andrade.

Elas contam que a parte ruim em morar longe da família está alimentação, já que cada uma tem de preparar o seu prato. Já o lado bom é não ter o controle dos pais na hora da balada. “A gente sai e não tem hora para voltar, diferente de quando morávamos com os pais”, comenta Silva.

Pouco metros separam o apartamento da universitária Thaís Della Tonia da USC, onde cursa o quarto ano de psicologia. Ela e a companheira de quarto Gabriela Casanoto gostam de manter o apartamento sempre organizado. A decoração foi feita com as fotos tiradas ao lado das colegas de faculdade que também moram no mesmo prédio. As imagens estão por todo lugar: nas paredes e até mesmo no lustre da sala, feito com as fotos.

De acordo com Tonia, a relação dela com amiga é muito boa e, apesar do apartamento ser bastante pequeno, é possível respeitar o espaço de cada uma. As contas, como aluguel, água e energia, além das compras da casa, são divididas entre as colegas.

Se a organização e limpeza parecem ser sinônimo das repúblicas estudantis onde residem as mulheres, o mesmo não pode se dizer das casas e apartamentos onde está o público masculino. Tudo fica espalhado pelo chão, como roupas, sapatos, controle do videogame e pratos e talheres se amontoam sobre a pia da cozinha. Este é o caso do apartamento transformado em república onde residem Alexandre Toniolo, que cursa direito na Instituição Toledo de Ensino (ITE), e Fábio Luiz dos Santos, já formado.

Se as meninas se esforçam para preparar a alimentação, os homens preferem simplificar, basta um telefonema para um restaurante que ofereça marmitex e o almoço chega na porta de casa. Para jantar a solução também é simples: basta reunir alguns amigos e organizar um churrasco. Mesmo com toda “bagunça”, por incrível que pareça, a república conta com uma regra geral: “sujô - lavô”.

Em outra república onde só residem homens, mas que de acordo com os moradores as portas estão sempre abertas para as mulheres que queiram visitar o local, os estudantes admitem que para ficar na casa mais de duas horas é preciso ter coragem. Lá residem Marcos Paulo Toledo, 19 anos, que cursa jornalismo na USC, André Lima, 19 anos, aluno de publicidade e propaganda na mesma universidade, e Danilo César Bueno Gomes, 21 anos, que está quarto ano de direito na ITE.

“Para não esquecer as contas que a gente têm que pagar, escrevemos tudo na parede. Depois, quando entregarmos o imóvel, vamos ter de pintar tudo mesmo”, justifica Lima. “A limpeza é feita a cada 15 ou 20 dias, quando uma diarista vem para dar “um trato” na maloca”, completa.

____________________

Sem sossego

Os alunos que estudam nas faculdades mais distantes da cidade ou próximas das rodovias vivem com medo. Quase toda semana, de acordo com os estudantes ouvidos pela reportagem, há registros de carros que são roubados ou que foram arrombados para se levar bolsa ou aparelhos de toca-CD.

Como o movimento próximo das universidade é apenas durante o período de aula, quem reside próximo desses locais é a vítima mais freqüente desse tipo de delito. “Antes era apenas no período noturno, agora está acontecendo também durante o dia e ninguém toma nenhuma atitude”, reclama uma aluna que teve o aparelho de toca-CD furtado duas vezes em um ano. “O jeito foi deixar o carro sem som”, desabafa.

Até mesmo os alunos que viajam de ônibus não escapam da ação dos ladrões. Em algumas unidades, os alunos precisam andar duas ou três quadras para poder tomar o ônibus e quase sempre as mulheres que carregam bolsas são as vítimas preferidas.

A facilidade de fuga, principalmente nas faculdades localizadas próximas de rodovias ou que são muito afastadas da área central, atraem grande parte dos criminosos.