09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Giro Ishikava

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Do campo à contribuição política em Bauru

Homem humilde e de poucas palavras, mas de feitos eternizados na história política de Bauru. Giro Ishicava é um dos maiores ícones da política local. Ele é o ex-vereador que mais mandatos teve na história da cidade.

Os olhos mansos e calmos desse filho de imigrantes japoneses brilham ao lembrar da sua própria história. A vida humilde daqueles tempos difíceis nas lavouras do Interior do Estado de São Paulo não foram obstáculos para Giro.

Ao lado da família, ele sempre lutou por uma vida melhor. Mais tarde, a determinação e o carisma desse político nato fizeram dele um dos grandes defensores dos direitos do cidadão.

O avanço e as inúmeras melhorias conquistadas em Bauru durante os anos de batalha política de Ishicava estão cravados não só na história desse grande homem e nas paredes da Câmara Municipal, mas também nas ruas e nos bairros que ele ajudou a construir, iluminar, sanear e a desenvolver. Seus feitos lhe renderam, entre inúmeras homenagens, o título de cidadão bauruense no mandato do ex-prefeito Irineu Bastos.

Aos 90 anos, a baixa estatura e a fala mansa de Giro Ishicava não são capazes de esconder sua força e importância no cenário político-social de Bauru. A seguir, leia os principais trechos da entrevista concedida por ele ao JC.

Jornal da Cidade - Seus pais são imigrantes japoneses?

Giro Ishicava - Sim, meu pai e minha mãe vieram para o Brasil em setembro de 1917. Chegaram aqui para trabalhar no cafezal de uma fazenda em Cravinhos, cidade próxima a Ribeirão Preto.

JC - Como foi a chegada da sua família ao Brasil?

Giro - O brasileiro é bastante receptivo. Minha família foi muito bem recebida. Meu pai falava que somente era difícil falar o português. Mas vivíamos em colônias e uns ajudavam os outros. A convivência com outros japoneses não impediu a amizade com os brasileiros, que se deu muito facilmente.

JC - Quanto tempo ficaram na região de Ribeirão Preto?

Giro - Minha família ficou em Cravinhos por uns cinco anos. Foi ali que nasci, no dia 8 de fevereiro de 1919. Depois nos mudamos para a região de Cafelândia. Trabalhamos também nas lavouras de cana-de-açúcar, algodão e arroz.

JC - Sempre foram empregados?

Giro- No início sim, mas meu pai havia se aposentado no Japão e tinha economizado uma quantia que deu para comprarmos um pedaço de terra no município de Avaí. Lá plantamos amora e criamos bicho da seda.

JC - Como era o trabalho na lavoura?

Giro - Ah, era bom. Dava para sobreviver e manter a família bem, mas isso depois que compramos nossa terra e passamos a ser nossos patrões. Antes, me lembro que a vida não era muito fácil. O arroz era muito caro, a comida do dia era basicamente mandioca, abobrinha e feijão. Às vezes conseguíamos pescar e isso complementava nossas refeições. A alimentação naquela época era difícil, eu almoçava muitas vezes na casa de um amigo da escola. Comia arroz, feijão e carne seca. Certas coisas são difíceis de se esquecer, como o falecimento de um irmão. Ele morreu de difteria nos braços do meu pai, que não tinha condições financeiras de levá-lo a um médico.

JC - Como foi sua infância?

Giro - Era um menino levado. Gostava de acompanhar meu irmão mais velho em aventuras como procurar ovos de pássaros, por exemplo, coisas de menino.

JC - O senhor estudou?

Giro - Estudei por quatro anos no município de Avaí. Eu morava na fazenda e andava três quilômetros para ir e mais três para voltar, todos os dias. Lembro-me que gostava de estudar, podia estar chovendo ou muito frio, não importava, eu ia para a escola. Me formei no grupo escolar em 1932.

JC- Tem lembranças daquela época?

Giro - Sim, uma delas é da volta para casa. Havia um pomar de laranjas em uma das fazendas, mas não podíamos colher nenhuma, ficava sempre com vontade daquelas frutas. Outra lembrança que tenho é da minha professora, Tereza Versa. Quando vereador nomeei uma rua de Bauru em homenagem a ela.

JC - Quando veio para Bauru?

Giro - Antes passamos por muitas fazendas. Foi uma vida de bastante mudanças. Até que, em 1946, vendemos a fiação de seda e nos mudamos para Bauru.

JC - Existe algum fato marcante em sua vida?

Giro - Muitos. Mas um dos maiores é quando vi o mar pela primeira vez. Lembro-me como se fosse hoje. Fui até o litoral de Santos com meu irmão. É indescritível a alegria daquele momento. As mais de dez horas de viagem valeram a pena.

JC - Fala japonês fluentemente?

Giro - Estudei a língua por um tempinho, até que consigo me virar. Já viajei umas seis vezes para o país de origem de meus pais. Fui em congressos e reuniões da igreja que participo, mas aproveitei para conhecer muitos lugares lindos do Japão, inclusive Kobe, lugar de procedência de meus pais.

JC - O senhor é um homem religioso?

Giro - Sim, sempre fui. Acho muito bom ter uma religião. Meus pais me passaram a religião deles e continuo até hoje me dedicando a ela. Freqüento a Igreja Tenrikyo, sou um membro muito ativo, procuro sempre me aperfeiçoar. Já estive no Japão por três meses estudando a minha religião, que tem origens lá.

JC - Conte um pouco sobre sua religião.

Giro - A igreja foi fundada em 1936 aqui em Bauru, na Vila Independência. Os adeptos da religião Tenrikyo têm o preceito “fusikomi”, que significa dedicar-se ao próximo anulando o seu ego. Os que praticam, vivem em harmonia familiar e social plenas.

JC - Como sua vida política teve início?

Giro - Eu morava na Vila Independência. E naquela época o povo tinha que votar em três pretendentes ao cargo de vereador para representar o bairro. Então, tive mais de 70% dos votos do povo e me candidatei a vereador pela primeira vez em 1955.

JC - Como o senhor vê toda essa popularidade?

Giro - Não sei ao certo, nunca parei para pensar sobre isso. Porém, a honestidade sempre foi meu lema. Sempre fui engajado e preocupado com os problemas da Vila. Eu fui um dos responsáveis, junto com o pessoal da igreja, pela construção do grupo escolar, ainda de madeira, na Vila Independência. Inclusive o terreno foi doado por membros da igreja. Depois de eleito, consegui a construção, de tijolos, dessa escola.

JC - Foi vereador quantas vezes?

Giro - Creio que foram seis mandatos consecutivos. Ocupei o cargo de vereador por 27 anos e oito meses. Sou o político que mais tempo permaneceu no cargo de vereador, e isso me rendeu uma homenagem na sala dos vereadores da Câmara. Há uma foto minha na parede registrando esse feito, ainda não superado em Bauru.

JC - Quais são as suas maiores realizações como político?

Giro - O primeiro é o grupo escolar. Outra obra que considero um grande feito é e abertura da nova estrada para Piratininga. Com a ajuda de outros membros da política e de moradores da região, a estrada foi feita em cinco dias. Isso foi incrível, nascia ali, em 1954, a avenida dos Expedicionários, hoje chamada de Castelo Branco. Além disso, sempre lutei para melhorar a vida da população com a implantação de água encanada, rede de esgoto, iluminação pública e o asfaltamento dos bairros da cidade.

JC - Quando político, o que o senhor prezava?

Giro - Sempre achei muito importante ouvir e atender a necessidade das pessoas. Fazia o que eu podia, e o que não estava ao meu alcance era levado até a Câmara e ao prefeito para que, juntos, buscássemos as soluções dos problemas que surgissem.

JC - Como era sua relação com os eleitores?

Giro - Sempre foi franca. Não tinha carro, então saía andando pelas ruas dos bairros ouvindo e conversando com as pessoas. Acho que a vida do político deve ser assim, unida e próxima do seu eleitorado. Afinal, um político deve trabalhar para o povo, acima de tudo.

JC - Como surgiu a idéia do cinqüentenário da imigração japonesa?

Giro - Em 1958 tive a idéia de convidar e reunir japoneses para que, na Câmara Municipal, fosse realizada uma homenagem solene aos imigrantes que vieram para a região e que ainda estão vivos. Na época, foi realizada uma contagem de imigrantes e seus descendentes em Bauru e região. Ao todo, contamos 4.145 pessoas.

JC - Como cidadão e como político, o senhor teve a oportunidade de acompanhar muitas mudanças na cidade. Quais são as mais marcantes?

Giro - Nesses 60 anos como cidadão bauruense pude ver o progresso e a evolução da cidade. A extensão de Bauru aumentou muito e a população cresceu também. Acredito que as mudanças mais marcantes estão aí, no crescimento urbano e populacional.

JC - Há pontos negativos nesse crescimento?

Giro - Bom, a violência aumentou muito. Acho que isso é uma tendência de todas as cidades, infelizmente.

JC- Como foi o fim da sua vida política?

Giro - Meu último mandato foi em 1983. Achei que já tinha cumprido meu papel, então resolvi dar espaço aos mais novos. Hoje me dedico à igreja e aos projetos dela, junto à minha esposa.

JC - Qual seu recado para os jovens políticos?

Giro - Digo que é importante trabalhar bastante e atender as necessidades do povo. Trabalhar pelo povo acima de tudo.