08 de julho de 2026
Bairros

A multiplicação da fé

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 5 min

“Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura”. A frase, atribuída a Jesus Cristo e encontrada no Evangelho de São Marcos no capítulo 16 versículo 15, ao que parece, tem sido mesmo levada a sério pelas igrejas pentecostais, que se multiplicam pelos bairros da cidade.

Em alguns lugares, é possível encontrar até duas igrejas em um mesmo quarteirão. No Núcleo Gasparini, um morador conseguiu em poucos segundos lembrar a localização de 14 igrejas de diferentes denominações em atuação no bairro.

Essa multiplicação da fé em parte é explicada pela facilidade em se abrir uma igreja na cidade. Essa rapidez é notada, principalmente, nos bairros mais pobres e populosos, localizados na região noroeste de Bauru.

De acordo com a assessoria de imprensa da Prefeitura de Bauru, até 2008 o município não tinha sequer um cadastro atualizado sobre as organizações religiosas em atuação na cidade. No último mês de agosto, a Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) iniciou um levantamento em seus arquivos para conhecer o número aproximado dessas organizações em atuação no município.

De acordo com o estudo da Seplan, existem atualmente 318 inscrições municipais relativas a igrejas católicas, templos evangélicos, de umbanda, entre outros. Mas quem visita com freqüência os bairros de Bauru percebe facilmente que os números que a secretaria possui se encontram, no mínimo, desatualizados. Isso se deve ao fato de muitos templos funcionarem sem documentação alguma, o que os faz ‘invisíveis’ aos olhos do Executivo.

Se para abrir uma empresa o empreendedor precisa aguardar de dois a três meses e pagar taxas e mais taxas, para que uma igreja possa funcionar de forma regularizada em Bauru o prazo máximo de espera é de 40 dias e o valor cobrado é de R$ 50,48. Mas a igreja pode ficar isenta desse pagamento caso apresente o estatuto de formação, exigido pela lei municipal vigente.

Anderson Adriano, pastor da Igreja Presbiteriana no Jardim Redentor, não concorda com a forma com que o número de templos religiosos se multiplica na cidade. “Basta a pessoa se desentender ou não concordar com a forma de pregar adotada pelo pastor da igreja que freqüenta e, no outro dia, ela abre uma igreja na garagem de casa ou em um bar desativado e começa a pregar o Evangelho”, reclama.

Adriano esclarece que todos têm o direito de pregar o Evangelho, mas acredita que para se dirigir um templo é preciso mais que fé, é preciso preparação teológica. O pastor Jobe de Godoy, que há 28 anos freqüenta a Igreja Assembléia de Deus Ministério da Madureira e há sete anos é pastor em Bauru, também concorda com o colega. Para ele, essa disseminação sem controle até atrapalha o trabalho de divulgação correto da palavra de Cristo.

“Hoje as pessoas abrem uma igreja ou começam um ministério da noite para dia, se intitulam pastores e começam a pregar o Evangelho e a maioria não teve preparação para isso”, lamenta. Por esta razão, Godoy defende que, antes de se tornar pastor, a pessoa passe por outros cargos na hierarquia da igreja, como ser ministro, por exemplo. “Ser pastor não se resume apenas em pregar o Evangelho, mas sim coordenar e orientar os fiéis”, completa.

A facilidade com que o templos religiosos se multiplicam em Bauru não acontece apenas nos bairros da cidade. De acordo com a socióloga Sílvia Fernandes, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), essa realidade também é forte em outras cidades brasileiras. “O número de templos evangélicos se multiplica rapidamente em quase todas as grandes cidades em países da América do Sul”, afirma.

Números da Prefeitura de São Paulo divulgados no início do ano apontam que, em média, a cada dois dias, nos últimos quatro anos, um novo templo religioso foi aberto na Capital. A cada ano, 277 novos templos de diferentes denominações passam a funcionar.

Em São Paulo como em Bauru, a maior parte dos imóveis onde esses templos funcionam é adaptado. “Puxadinhos” construídos inicialmente para serem bares abrigam pequenas igrejas em Bauru. Prédios que, no passado, foram construídos com outra finalidade e que se encontram desocupados no momento são alvos das grandes igrejas.

A região noroeste de Bauru, por exemplo, se tornou uma espécie de “região da fé”, com templos de credos diferentes abertos muito próximos uns dos outros. No Parque Bauru, por exemplo, uma Igreja do Evangelho Quadrangular fica a menos de 400 metros de uma outra da Assembléia de Deus.

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Rotatividade religiosa

A maior parte das pessoas que freqüentam hoje uma igreja evangélica, seja ela qual for, já passou por uma denominação diferente e por outra antes de chegar à atual. A rotatividade de fiéis nas chamadas igrejas pentecostais é muito grande. Neide Oliveira, moradora do Jardim Redentor, está na Assembléia de Deus Ministério Lençóis Paulista há pouco mais de um ano, mas antes freqüentava a Igreja Internacional da Graça.

Os cultos do “ministério independente”, que traz o nome da cidade onde surgiu, por enquanto, acontecem na garagem da casa de Oliveira. “A situação é provisória, só até apenas a gente encontrar um lugar para se estabelecer a igreja”, justifica. Todas quartas e domingos, cerca de 20 pessoas se reúnem no local para ouvir a pregação.

Oliveira relata que freqüentou por nove anos a Igreja Internacional da Graça e que antes disso era católica. “As graças de Deus foram imensas na minha vida, vivia sem ânimo, sempre doente e à custa de calmantes e de outros remédios. Quando passei a freqüentar a outra igreja, já comecei a conhecer a palavra de Deus e tudo mudou”, garante ela, que ainda é batizada na Igreja Internacional da Graça, mas gosta da ‘palavra’ da nova igreja que freqüenta.

Os próprios pastores não negam esse “movimento” constante de fiéis de uma igreja para a outra. As neopentecostais é que registram um fluxo maior. Todos os dias, diversas pessoas passam a freqüentar e também deixam de ir aos cultos.

Nas religiões tidas como tradicionais, esse movimento é menor, afirma o pastor Anderson Adriano, da Igreja Presbiteriana do Redentor. Na sua opinião, essa rotatividade reflete o mercado religioso que afeta o País.

“Quem é batizado dificilmente deixa de ir a uma determinada igreja e passa a freqüentar outra da noite para o dia, mas existem pessoas que não se batizam em lugar nenhum e ficam perambulando de igreja em igreja em busca de encontrar a solução para seus problemas pessoais ou financeiros”, critica.