Pluralismo religioso. Este é o momento como os estudiosos classificam a fase religiosa que Bauru atravessa nos últimos tempos. De acordo com socióloga Sílvia Fernandes, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), ao longo dos últimos 40 anos, esse movimento ganhou espaço, principalmente nos países da América Latina.
“Esse processo consiste no recuo das igrejas tradicionais, como o catolicismo, luteranismo e até mesmo das igrejas batistas históricas, e no crescimento das pentecostais”, explica Fernandes.
A socióloga lembra que, no passado, as pessoas nasciam e a religião era praticamente imposta a todos, mas a “oferta” maior de opções têm provocado o processo de pluralismo. “Essa intensificação de opções proporciona às pessoas que elas possam escolher a igreja que desejam freqüentar”, comenta.
Esse processo, em Bauru, se reflete no registro oficial de 318 organizações religiosas, entre igrejas católicas, templos evangélicos e templos de umbanda, de acordo com dados baseados na inscrição municipal feita na Secretaria Municipal de Planejamento.
O número não reflete a realidade da cidade e os próprios pastores falam que deva existir perto de 600 organizações em atuação no município. Sendo assim, é possível afirmar que, no momento, para cada 583 bauruenses existe uma igreja.
Fernandes acredita que a pluralidade faz com que as pessoas desejem experimentar cada vez mais o universo religioso. Isso explica o fluxo constante de fiéis nessas igrejas. “As pessoas sabem que não querem ser católicas e assim ficam de igreja em igreja até encontrar alguma afinidade que as faça permanecer por mais tempo em determinada denominação religiosa”, explica.
A socióloga explica que não é só o crescimento dos templos pentecostais que ameaça as igrejas tradicionais e as obriga a uma mudança de atitude para pelo menos tentar frear o recuo cada vez maior de fiéis. O crescente número das pessoas que se intitulam sem religião também é outro alerta. “Quando se fala nos sem-religião, especificamente no Brasil, não quer dizer que ele não acredite em Deus, mas sim que não freqüente nenhum tipo de igreja”, esclarece.
Fernandes explica que até mesmo as igrejas pentecostais já perceberam esse movimento e, na tentativa de segurar ou mesmo atrair os “descontentes” com a religião, os templos passam a fazer ofertas que irão atender as demandas subjetivas da pessoas, como, por exemplo, alcançar um emprego.
Outros fogem do campo material e procuram oferecer a idéia de bem-estar emocional para quem passe a freqüentá-la. “São essas igrejas onde as pessoas vão, choram, cantam e criam sociabilidade”, explica a socióloga. “No momento da acolhida, quando as pessoas chegam a esses locais, os pastores sabem exatamente como e o que falar para aquela pessoa que chegou ali com uma demanda específica”, completa.
Das igrejas pentecostais, Fernandes chama a atenção para a que possui o maior número de adeptos e a que mais “converte” no Brasil: a Assembléia de Deus. Fernandes lembra que mesmo assim, a conversão nem sempre é definitiva e então os números podem mudar.
“A assembléia é um igreja pentecostal tradicional que chegou ao Brasil no início do século passado, mas mesmo dentro da própria igreja as coisas foram mudando, novas vertentes foram surgindo, pregando uma religião mais livre, mais aberta e emocional”, relata.
Na chamada segunda onda pentecostal, a pesquisadora chama a atenção para as igrejas que pregam a cura divina, como a Deus é Amor e do Evangelho Quadrangular. Entre as neopentecostais que surgiram na terceira e, por enquanto, última onda, está a Igreja Universal do Reino de Deus, que embora não tenha o maior número de fiéis no Brasil, possui presença midiática mais expressiva, a exemplo da Igreja Internacional da Graça e a Renascer em Cristo.