08 de julho de 2026
Articulistas

Monstro de mil faces

José Renato Ferraz da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

A violência, em nosso cotidiano, parece tão banal que pensar e agir em função dela deixou de ser um ato circunstancial para se transformar numa forma de ver e de viver o mundo do homem. “Desde o momento em que um longínquo ancestral do homem fez de um osso a primeira arma, a violência sempre caminhou lado a lado com a civilização”.

Lembro aqui, a seqüência inicial do filme “2001 - Uma Odisséia no Espaço” - que mostra o momento em que os macacos descobrem a utilização dos ossos como arma contundente, mortal e vitoriosa. Quando o macaco vitorioso lança para o alto o osso-instrumento de morte, numa linda fusão ele se transforma numa espaçonave gigantesca com a forma de um carrossel. São dois mundos que se interligam, e mesmo se fundem, numa continuidade que tem como elemento de ligação a violência.

Atualmente, independente do local onde o homem vive, seja na grande cidade ou pequena, podemos ser vítimas de todos os tipos de violência: física, racial, sexual, política ou econômica. Ninguém está a salvo! É normal quando falamos de violência que a primeira imagem seja a do ladrão de casas e carros, do assassino sangüinário, do incorrigível, do escroque, enfim, nos inúmeros criminosos que agridem pessoas e assaltam o patrimônio alheio. O pior disso tudo é que não podemos contar com os aparelhos repressivos do Estado. Isso é fato incontestável! Falido, mal gerenciado, equipado e remunerado, os “braços fortes e punitivos da organização estatal” são vítimas das eficientes facções e mentes criminosas que provocam o “reino do caos e da anarquia”.

Além disso, a violência, qualquer que seja a sua intensidade, está presente nos bairros sofisticados, de classe média e nas favelas. A ironia do tempo histórico é que parece que voltamos, ou retroagimos, a uma concepção de moradia que se aproxima à concepção medieval. Casas com altos e intimidantes muros parecem sombrias e assustadoras. Lembram os antigos asilos de loucos. Guaritas que lembram ameias e seteiras dos castelos medievais. “O mundo torna-se menor, restringe-se, e o isolamento familiar, assegurado por trás de pesados portões e protegido por uma parafernália eletrônica - único contato com o mundo exterior -, revela com nitidez que a casa hoje é menos compreendida como o lugar de repouso e tranqüilidade, uma ligação amorosa com o exterior, e mais como um refúgio contra a vida exterior, contra a violência, preocupação constante e diuturna”.

Por outro lado, é menos comum pensarmos na violência institucionalizada pelos sistemas de exploração social, isto é, a violência cruel e maligna dos salários de fome, da falta de moradia, do desamparo à saúde pública, do descaso constante pela educação, do preconceito racial e sexual e etc. Violências cegas e surdas que oprimem milhões de pessoas “sem vez” e ainda “sem voz”. De fato, a violência ou a maldade são categoricamente formas de desrespeito, agressão e destruição praticadas pelo homem contra si próprio, contra outras pessoas (sociedade) ou contra a natureza. No ano passado, admiti numa conversa informal com amigos que não me surpreenderia mais com os atos de violência humana contra outras pessoas ou mesmo contra a natureza. Confesso, irritado, que errei em minha opinião. Há poucos dias, a reportagem do Jornal da Cidade apresentou a notícia de uma crueldade com requintes “diabólicos” (humanos) contra a natureza: “Dois gatinhos foram achados mortos na Vila Independência, aparentemente enforcados. As patas dianteiras foram cravadas em tábuas, com pregos de cerca de 10 centímetros. Um deles, malhado de branco e preto, teve a barriga cortada e as entranhas expostas”. Um crime ambiental brutal e horroroso! Desejo, como outras pessoas indignadas, uma punição rigorosa para esse(s) deliqüente(s)! Basta de impunidade!

O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é cientista político e coordenador do Curso de Relações Internacionais do Iesb-Preve