A categoria ética do cuidado emerge de modo mais intenso e acentuado nas mulheres. Carol Gilligan, em “Uma voz diferente”, constata, através da psicologia evolutiva, a diferença no modo como homens e mulheres agem e se colocam diante dos outros. São dois modos distintos e predominantes, porém não exclusivos: a categoria da justiça para os homens e a do cuidado para as mulheres.
A contribuição de Gilligan foi demonstrar a existência de duas orientações éticas fundamentais difusas e acentuadas entre homens e mulheres, justiça e cuidado, respectivamente. Enquanto a justiça se ocupa mais dos princípios éticos universais, de regras, direito e imparcialidade, o cuidado, por sua vez, sem ignorar ou desconsiderar a justiça, vem associado ao afeto que significa sensibilidade nas relações interpessoais, empatia, comportamentos altruísticos, solidariedade, responsabilidade e participação. Algo mais prático do que teórico. O cuidado procura uma sábia mediação entre os valores universais e as exigências particulares, muitas vezes em contradição.
O cuidado favorece a compreensão da necessária interconexão do “eu com o tu” desenvolvendo a consciência da interdependência e conseqüente responsabilidade. “Não podemos assumir para nós a justificativa de Caim: ‘Por acaso eu sou o guardião do meu irmão’ (Gn 4,9). Cada um de nós é ‘confiado’ aos outros e deve sentir os outros ‘confiados’ a si” (S. Majorano). O cuidado cria vínculo. É a realização da responsabilidade moral com comportamento dialógico e cooperativo, em oposição àquele de matriz neoliberal que privilegia a competição. Desenvolver-se não é descuidar de outrem. As pessoas se desenvolvem cuidando.
Esta análise permite inferir que as mulheres são mais propensas à formação de comunidades e associações com forte sentimento de apoio e solidariedade entre elas, além de constância, perseverança e fidelidade criativa. Cabe recordar que os parâmetros de desenvolvimento feminino, não são os mesmos do masculino. A estrutura psíquica da mulher é organizada em torno de ser capaz de fazer e de manter associações e relacionamentos através do reconhecimento da necessidade de conexão. Isso faz com que o seu modo de vida seja mais criativo e cooperativo com forte acento nos relacionamentos e capacidade de cuidar.
A sensibilidade é condição sine qua non para a atitude de cuidar. Nesse sentido, parece ser oportuno identificar a arte de cuidar com aquilo que João Paulo II definiu como “gênio feminino”. Para ele, o progresso unilateral, cujo bem-estar material favorece alguns e conduz a outros à marginalização, “pode comportar um gradual desaparecimento da sensibilidade pelo homem, por aquilo que é essencialmente humano. Nesse sentido, sobretudo os nossos dias, aguardam a manifestação daquele ‘gênio’ da mulher que assegure a sensibilidade pelo homem em toda circunstância: pelo fato de ser homem! E porque ‘maior é a caridade’” (Mulieris dignitatem, n. 30). A mulher é garantia e difusora da sensibilidade que se manifesta no cuidado. “Resgatar o cuidado é resgatar a dimensão feminina do ser humano, que é da essência do feminino no homem e na mulher: proteger, cuidar” (L. Boff).
Assim, o homem, quando sensível e inserido em determinadas circunstâncias, pode desenvolver natural e perfeitamente a ética do cuidado. É a sensibilidade que produz cuidado e não o contrário. Para cuidar não precisa ser mulher, mas necessariamente sensível. A sensibilidade pela vida, expressão do “gênio feminino”, não é apenas uma relevante contribuição das mulheres, mas uma verdadeira missão em vista da construção e afirmação da cultura da vida. Afinal, como afirma Gilligan, “na vida como no Jardim do Éden a mulher tem sido a desviante”, no sentido positivo do termo. É ela que consegue deslocar e alargar a visão masculina, indicando através da sensibilidade e aguçada intuição o prioritário e essencial, preferindo o relacional ao conceitual. As mulheres, diferentemente dos homens, têm visão mais ampliada que se estende mais lateralmente do que os homens que são mais objetivos e mais pontuais.
O cuidado pode curar pessoas e sociedade, tem poder terapêutico. A ética do cuidado não é apenas virtude; é comportamento ativo, atitude permanente, compreendida na ordem do fazer, da práxis. É o afeto em ação. Aparece aqui a vocação “desviante” da mulher, que sabe deslocar o foco para aquilo que é essencial e prático, neste caso, a construção da ética do sim à vida. A necessária revisão crítica dos esquemas morais masculinos e a conseqüente integração e reconciliação entre as óticas masculina e feminina colocarão as bases para a construção do outro mundo possível, pautado pela ética do cuidado pela vida a nós confiada e pela igualdade de gênero. O cuidado concretizado na justa medida deve penetrar todos os ambientes e prevalecer nas relações interpessoais. Eis aqui a grande contribuição das mulheres. Portanto, nossos cumprimentos, reconhecimento e gratidão pelo Dia Internacional da Mulher.
O autor, Pe. Luiz Antonio Lopes Ricci, pároco da paróquia de São Cristóvão, Coordenador Diocesano de Pastoral e Professor de Teologia Moral na Faculdade João Paulo II, em Marília