10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Tradição da Quaresma eleva consumo de peixes em 10 vezes

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

A Igreja Católica iniciou, há uma semana, o chamado período de Quaresma, quando foi celebrada a missa de Quarta-feira de Cinzas. Nesse tempo, que dura 40 dias, católicos do mundo todo costumam não comer ou reduzir carne vermelha e a venda de peixes cresce em até dez vezes nos supermercados. Itens que acompanham a preparação dos pescados, como azeitonas, batatas e ovos, também registram aumento considerável no consumo, nessa época do ano.

O costume de não comer carne durante estes 40 dias foi uma norma estabelecida pela Igreja alguns séculos depois do nascimento de Cristo. Com o passar do tempo, no entanto, a exigência perdeu sua rigidez. Atualmente, segundo explica o coordenador paroquial de pastoral do Santuário Nossa Senhora de Fátima, Antônio Moya, os católicos só não devem comer carne na Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma, e na Sexta-feira Santa, dia em que os cristãos relembram a morte de Jesus Cristo.

“Mas há quem ainda mantenha o hábito de antigamente. Por uma questão cultural-religiosa, alguns católicos ainda preferem se abster da ingestão de carne vermelha durante toda a Quaresma”, observa.

Este é o caso, por exemplo, do comerciante Edson Antônio Guarido Ribeiro, 56 anos, 30 deles abstêmios de carne durante o período quaresmal. Mais do que uma obediência à tradição religiosa, ele revela que opta pelo jejum como forma de elevação espiritual. “Eu deixo de comer carne e de tomar cerveja nessa época porque me faz bem. Sei que essa prática é exceção nos dias de hoje, mas é a maneira que eu encontrei para me reservar espiritualmente e me aproximar mais de Deus”, justifica.

Além dele, o filho mais velho, de 28 anos, e o caçula, de 20, também evitam a ingestão de carne durante o período. “Eu nunca os forcei a isso, eles fazem porque querem. O filho do meio e a esposa acabam entrando no ritmo e diminuem a quantidade de carne vermelha dentro de casa”, pondera.

Embora os abstêmios sejam minoria, somente na última semana, a venda de peixes aumentou em dez vezes em uma rede supermercadista de Bauru. “Em relação aos meses normais, o aumento da procura nesta época é assustador. O consumo de carne vermelha se mantém, mas a venda de pescados nesse período é muito acentuada”, destaca o gestor de compras do setor de perecíveis da empresa, Pedro Sérgio Baptista.

Um dos motivos para tamanha mudança de comportamento, além do hábito alimentar que marca a Quaresma, está relacionado aos preços dos pescados, que se mantiveram praticamente os mesmos dos praticados no ano passado. “Pelo volume de mercadorias que a gente comprou, conseguimos negociar com os fornecedores e manter os mesmos patamares de preço de 2008. Então, para o consumidor, está valendo a pena”, comenta.

No estabelecimento em que trabalha, os peixes mais vendidos são filé de merluza, de abadejo e mapará. Os custos do quilo de cada tipo de pescado são, respectivamente, R$ 9,90, R$ 19,00 e R$ 7,90.

Nas gôndolas refrigeradas dos supermercados, o bacalhau – peixe mais nobre e também mais caro – pode ser encontrado por R$ 19,90, o quilo. “Esse é o preço do tipo Saithe, que é o mais popular e vende muito bem. Já o quilo do bacalhau Porto Imperial sai por R$ 39,90 e do Ling, por R$ 29,90”, comenta.

Além do bacalhau e dos peixes em geral, o gerente de compras Marcos Geraldo França afirma que produtos como batata, azeitonas e ovos de galinha também registraram aumento de 15% nos últimos sete dias, em comparação a semanas anteriores. “São ingredientes consumidos o ano todo, mas que acabam tendo maior venda porque são usados na preparação do prato em que o peixe é o item principal”, pondera.

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Quaresma

O período tem início na Quarta-feira de Cinzas e segue até o Sábado de Aleluia, data que antecede a ressurreição de Cristo na religião Católica. O período lembra os 40 dias em que Cristo jejuou no deserto e para muitas pessoas esse é um tempo de reflexão, preparação para um novo tempo (Páscoa) e também de abstinência.

Alguns tiram do cardápio a carne vermelha durante os quarenta dias, já outros evitam em datas específicas, como a Sexta-feira Santa, que este ano será em 10 de abril.

Há ainda cristãos que realizam promessas durante o período e, para tanto, deixam de consumir algum alimento ou bebida de que gostem muito.

“Tem gente que não come carne, mas há também aqueles que ficam os 40 dias sem tomar refrigerante ou bebida alcoólica, que param de fumar ou de comer chocolate”, enumera o coordenador paroquial Antônio Moya.