10 de julho de 2026
Nacional

Estuprador não será excomungado pela Igreja, diz arcebispo

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Recife - O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, afirmou ontem que o suspeito de ter estuprado uma menina de 9 anos em Alagoinha (a 230 quilômetros de Recife) não deve ser excomungado pela Igreja Católica. Grávida de gêmeos, a vítima foi submetida a uma cirurgia para interromper a gravidez na quarta-feira. Após o aborto, médicos que participaram do procedimento e a mãe da menina foram excomungados.

O padrasto, que foi preso sob suspeita de ter estuprado a menina, confessou à polícia que abusava sexualmente dela e da irmã mais velha, de 14 anos, que possui problemas mentais, há cerca de três anos, afirma a polícia. De acordo com o religioso, no entanto, para a Igreja Católica, o aborto é um “crime mais grave que o estupro”.

“Não, absolutamente não (o padrasto não deve ser excomungado da Igreja Católica). Não fui eu que excomunguei as pessoas envolvidas com o aborto. O aborto é um crime que está previsto nas leis da Igreja, no código aprovado pelo papa. Essa é a penalidade da Igreja”, afirmou Sobrinho, em entrevista à reportagem.

“Quem cometer estupro está cometendo um pecado gravíssimo, aqueles que cometem assaltos também, estão cometendo pecados gravíssimos, e a Igreja também os condena. Mas, para estes pecados, a Igreja não prevê a excomunhão”, disse. “Quem cometeu o aborto é um crime mais grave ainda, porque é tirar a vida de alguém inocente, indefeso.”

A decisão da arquidiocese causou polêmica entre ministros e o presidente Lula, que criticou a atitude da Igreja.

Segundo os médicos que atenderam a vítima, a menina poderia morrer caso a gravidez não fosse interrompida. Para o arcebispo, os médicos deveriam ter se “esforçado” para garantir que ela não perderia a vida -sem que a gestação fosse interrompida.

“O quinto mandamento da Igreja é não matar. Então, neste caso em que a mãe, a menina, estava correndo risco gravíssimo de perder a vida, a Igreja diz: deve se fazer todo o esforço possível para salvar a vida desta menina grávida. Mas não se pode, para atender a essa finalidade, eliminar a vida de outros, duas vidas inocentes. Os fins não justificam os meios”, disse.

Em entrevista à reportagem, o médico Rivaldo Mendes de Albuquerque disse que o religioso não foi “misericordioso” com a menina. “Tenho pena do nosso arcebispo, que não conseguiu ser misericordioso com o sofrimento de uma criança inocente, desnutrida, franzina, em risco de vida, que sofre violência desde os seus 6 anos”, afirmou o médico responsável pela cirurgia.

Excomunhão

A excomunhão é a penalidade máxima prevista pela Igreja Católica. Com ela, os penalizados ficam impedidos de participar de qualquer sacramento, como receber eucaristia e o casamento, por exemplo. Contudo, o excomungado não está banido de participar de celebrações da Igreja, como missas.

De acordo com o arcebispo, caso os médicos e a mãe da menina mostrem “arrependimento” em relação ao aborto e peçam perdão, eles podem ser aceitos novamente na Igreja.

Apesar da polêmica, Sobrinho diz que os fiéis “aplaudiram a decisão”, também apoiada, segundo o religioso, pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A assessoria da CNBB afirmou que o órgão não se pronunciará sobre o assunto por enquanto.