09 de julho de 2026
Articulistas

Crescer mais que a crise

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Ninguém pode garantir que o PIB da China vai crescer 8% este ano. Da mesma forma que no Brasil, o crescimento não está escrito nas estrelas (nem na estrela vermelha), mas os chineses fizeram a sua aposta e na direção correta: certamente sua economia crescerá mais do que a economia mundial.

É o mesmo caso do Brasil: nós certamente vamos crescer mais do que o mundo este ano e substancialmente é isso o que interessa. O quanto vamos crescer é algo muito discutível. Vai ser aquilo que nós formos capazes de fazer com o nosso trabalho, com a ação do governo e com a inteligência (ou desinteligência) do Banco Central. Fiquei feliz de ouvir esta semana a declaração do seu presidente, Dr. Henrique Meirelles, quando manifestou em Portugal a confiança que o Brasil vai continuar crescendo mais do que o mundo, a despeito da crise. Ele reafirmou que o Brasil, na realidade, está melhor preparado que a maioria dos países para atravessar as turbulências do mercado financeiro mundial. Devemos reconhecer que isso se deve em grande parte à eficiência do Banco Central na fiscalização do nosso sistema bancário.

Isso não elimina as críticas que tenho feito a uma política monetária que manteve o Brasil submetido à maior taxa de juros do mundo nos últimos vinte anos. No período, o crescimento de nossa economia esteve sempre abaixo do crescimento mundial, com exceção dos últimos três anos praticamente. Hoje, há uma perspectiva real de correção, curiosamente estimulada pelos efeitos da crise financeira.

O Banco Central, nos próximos dias vai poder dar uma demonstração que está entendendo a gravidade da situação que estamos vivendo: há uma boa oportunidade na reunião do COPOM (terça e quarta-feira da semana entrante) de uma redução de 1 ponto e meio da taxa SELIC, aproveitando para caminharmos num ritmo de queda que nos leve num futuro próximo a uma taxa de juro de 2% a 3% reais ao ano, que é o nível normal do resto do mundo. Claro que existem muitos problemas no Brasil para realizar o processo e acelerar o ritmo de redução. Um deles é o problema da caderneta de poupança, com uma taxa de juro de 6% real, um pequeno absurdo (se não for um grande absurdo) que precisa ser afastado.

De toda a forma, os problemas estão aí para serem removidos de modo a poder dar condições de crescimento acelerado á economia brasileira. A crise tem sido usada para estimular um certo pessimismo, alimentado por péssimas “teorias” que na verdade são puras invenções de economistas dos mercados financeiros, cuja meta principal é manipular a opinião pública. E com isso influenciar as próprias autoridades monetárias.

O certo é usar as oportunidades que a própria crise oferece para caminhar mais depressa na direção de eliminar o que há de mais absurdo na economia brasileira há duas décadas, a maior taxa de juros real do mundo. Tendo inteligência e coragem, vamos continuar crescendo mais do que o mundo, na realidade mais do que a própria crise.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP. Ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento