08 de julho de 2026
Ser

Mulheres se consagram no samba e vencem Carnaval

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 5 min

Os sambódromos do Rio de Janeiro e de São Paulo foram palco da vitória de duas mulheres no Carnaval deste ano. No Rio, o generoso coração de mãe de Regina Celi Fernandes, 42 anos, quase “explodiu” de felicidade no último dia 24 de fevereiro, quando a presidente do Salgueiro experimentou a emoção de ver a escola conquistar o título de campeã com o enredo “Tambor”, que apresentou a história do instrumento e sua importância para manifestações artísticas e religiosas.

Em São Paulo, Solange Cruz Bichara Resende, 43 anos, comandou o desfile da Mocidade Alegre e conduziu a escola ao posto de campeã do Carnaval paulistano com o enredo “Da chama da razão ao palco das emoções... Sou máquina, sou vida... Sou coração pulsando forte na avenida!”. Conhecida por sua personalidade forte e jeito de “durona”, Solange costuma dizer que “essa pinta é só por fora, mas o coração é mole”. Com ela, a escola ganhou o Carnaval de 2004 - apenas um ano após ter assumido como presidente -, de 2007 e, agora, o de 2009. Até o fechamento desta edição, não foi possível obter retorno de Solange para a entrevista solicitada pelo Jornal da Cidade.

Regina Fernandes foi eleita presidente do Salgueiro em março do ano passado, o que tornou a vitória no Carnaval deste ano ainda mais especial, já que o troféu de campeã havia sido levado pela última vez à quadra da escola de samba em 1993.

Mãe de quatro filhos, dedica a vitória a eles e evidencia o talento das mulheres que trabalham nos bastidores da maior festa popular do Brasil. “As mulheres se destacam em tudo que fazem, e no Carnaval elas comandam vários setores. As mulheres podem fazer tudo com competência”, diz.

União e respeito são as palavras-chave de sua gestão. “O Salgueiro se tornou uma família. Eu acho que precisamos estar unidos para obter sucesso. Eu sou a presidente da escola, mas não pode haver desigualdade entre mim e a comunidade”, ensina a guerreira Regina, que se casou aos 14 anos de idade e que, após sua separação há cerca de dois anos, foi acolhida com grande carinho e respeito pelos integrantes da agremiação comandada por ela desde o ano passado. Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida por telefone ao JC, com muita simpatia, pela mulher que reconduziu o Salgueiro à vitória após 15 anos.

Jornal da Cidade - Como começou o seu envolvimento com Carnaval?

Regina Celi Fernandes - Eu sempre gostei de Carnaval e de samba, desde pequena. Depois, quando eu casei, aos 14 anos, meu marido (atualmente ex-marido, Luís Augusto Duran) se envolveu com o Salgueiro e a gente começou a freqüentar a escola, a desfilar. Mais tarde ele passou a fazer parte da diretoria da escola, depois se tornou vice-presidente e depois presidente. Aí começou meu envolvimento direto com o Salgueiro, de onde não saímos mais. Há cerca de dois anos eu me separei. No ano passado a comunidade me elegeu como presidente do Salgueiro e, graças a Deus, nós conseguimos levar a escola ao campeonato.

JC - Você consegue descrever a emoção de ter levado a escola ao posto de campeã depois de tantos anos?

Regina - Essa emoção foi tudo. É claro que, por ser mulher, às vezes, você é discriminada e sofre uma cobrança maior. Depois que eu assumi como presidente, muitas pessoas acreditaram em mim e muitas criticaram. E como o título de campeã veio, a emoção é muito maior, porque você provou para as pessoas - apesar de que você não tem que provar nada para ninguém - que podia fazer um bom trabalho. Valeu a pena comprovar que uma mulher, separada, mãe de quatro filhos, tem a sua importância não só dentro de casa como também fora, administrando uma empresa, cuidando de uma comunidade, ou seja o que for.

JC - Mas quando você assumiu a presidência do Salgueiro, mesmo já sendo envolvida com a escola há muitos anos, sofreu preconceito por ser mulher?

Regina - Não fui discriminada, mas muitas pessoas ficaram inseguras, porque a Acadêmicos do Salgueiro é uma agremiação muito grande e muita gente falava -“Será que vai dar certo?”. Então, a cobrança é muito grande. Mas como eu costumo dizer, fazendo as coisas com amor e tendo respeito pelos outros, tudo dá certo. Quando você trata as pessoas com respeito, sua credibilidade aumenta muito mais. Você tem que tratar as pessoas de igual para igual. Não é porque eu sou a presidente da escola que sou superior a alguém, a algum integrante da comunidade. Não pode acontecer isso, porque todo mundo depende um do outro.

JC - A desigualdade atrapalha a união...

Regina - Atrapalha, eu acho que afasta um pouco as pessoas. E o que acontece com o Salgueiro hoje é o contrário. É claro que pode ter uma confusão aqui, outra ali, mas isso é normal porque dentro de casa também tem isso. Mas eu acho que o Salgueiro se tornou uma família, e não só uma agremiação. E em uma família todo mundo quer participar das coisas, quer estar junto. Eu gosto assim. Acho que todos nós precisamos estar unidos. A união faz toda a diferença. Meu carnavalesco não botou a escola (na avenida) sozinho, eu não botei, enfim, o trabalho todo é resultado da união.

JC - Você tem quatro filhos, que devem ter dado muita força a você desde que assumiu a presidência da escola. Como foi a comemoração da vitória entre família?

Regina - Meus filhos (Renata, 26 anos, Renato, 23, Louise, 16, e Luísa, 10) são as verdadeiras razões da minha vida. Eles foram muito importantes. Eu fiquei muito ausente dentro de casa durante esse período. Às vezes, eu entrava em casa, dava um beijo neles e já saía. Muitas vezes, eu entrava em casa e eles estavam dormindo, e quando eu saía também. Às vezes, eu passava três dias seguidos falando com eles só por telefone. Da minha parte, eu dedico o título (de campeã da escola de samba) a eles. Eu agradeço por tudo (na vida), porque com fé você consegue superar os desafios e as dificuldades. A gente nunca pode deixar de ter fé. Sem fé e esperança a gente não vive.