07 de julho de 2026
Geral

Confronto surgiu no século 19

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 2 min

Freqüentemente associado ao início da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), em 1905, os conflitos envolvendo os caingangues no oeste de São Paulo teve origem na segunda metade do século 19. Os primeiros brancos - agricultores vindos de Minas Gerais e do Vale do Paraíba - chegaram ao local por volta de 1840, e passaram a trabalhar a terra na condição de posseiros.

“Naquela época, a convivência entre posseiros e índios era relativamente tranqüila no oeste de São Paulo. Os confrontos eram extremamente raros de ocorrer”, explica o historiador bauruense João Tidei de Lima, professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Estudiosos do século 19 estimavam em 10 mil o número de índios vivendo na região (entre xavantes e caingangues).

Tidei explica que os primeiros problemas começaram a surgir a partir de 1850, com a promulgação da “Lei de Terras”, que estabelecia a compra como única forma de acesso à propriedade fundiária.

Segundo ele, a expansão da monocultura do café, nos anos 1880, fez com que se acentuassem ainda mais as divergências entre brancos e índios. “O governo da Província de São Paulo criou comissões de pesquisa para fazer levantamentos na área e nomear os acidentes geográficos (rios, córregos, montanhas) existentes no local. A terra se tornou mercadoria e os caingangues viram-se obrigados a recuar”, conta.

Os fazendeiros passaram a contratar bugreiros para “limpar” as terras de seus antigos donos. A partir de 1905, com o início das obras da NOB, o confronto ganhou ares de guerra declarada. “Em 1908, havia no Brasil três importantes focos de conflito entre brancos e índios: um, na Amazônia, motivado pela construção da ferrovia Madeira-Mamoré; outro, em Santa Catarina, envolvendo os xoclengues e os colonos alemães; e um terceiro, no oeste de São Paulo, por conta da estrada de ferro que atravessava o território dos caingangues”, diz Tidei.

De acordo com o historiador, a ferrovia foi um fator que ajudou a acelerar os conflitos. “Era o testemunho de que a ocupação seria permanente; os brancos haviam chegado para ficar”, explica Tidei. As lutas tiveram grande repercussão ao redor do Brasil, inclusive no interior das Forças Armadas.

“Foi então que surgiu a figura emblemática do ainda major (Cândido Mariano) Rondon, que era descendente de índios e ficou sensibilizado com tudo aquilo que vinha ocorrendo ao seu povo”, relata Tidei.

Graças à mobilização de Rondon e de outros militares, o Governo Militar resolveu criar, em 1910, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI). “Evidentemente, essa medida não visava apenas proteger os nativos, mas também dar um fim rápido aos confrontos, que estavam atrapalhando o avanço da cultura do café em São Paulo”, explica Tidei. O órgão foi responsável pela demarcação das primeiras reservas indígenas no País.