Estamos nos anos 50. Dois irmãos, gêmeos, namoravam a sério duas irmãs, gêmeas. Aspiravam ao himeneu dentro em breve. Equívocos transientes eram provocados pela incrível semelhança entre as duas moças e os dois rapazes. Até vozes e gestos eram análogos. Contraíram núpcias no mesmo dia. Partiram em viagem de lua-de-mel num mesmo carro para economizar dinheiro. Após longa viagem, chegaram ao hotel. Um dos gêmeos cuidou da papelada na portaria e o outro incumbiu-se de descarregar as malas do carro.
Finda a tarefa, deixou as malas do outro casal na portaria e pediu o número de seu quarto. Com o coração trêfego, pegou o elevador até o 10º andar. Desceu, avançou pelo corredor que parecia não ter fim. A porta do quarto estava fechada, mas não com chave. Entrou, procurando no escuro pelo leito nupcial. Nos anos 50 a virgindade ainda era apanágio de 99% das nubentes. E as duas gêmeas eram virgens. Ela esperava debaixo da coberta. Calada, curiosa e sem experiência.
Ele estava fogoso, louco para cumprir seu papel. Mas, como era muito religioso, quis ler um trecho da Bíblia antes. Acendeu a luz do abajur. Abriu aleatoriamente o livro sagrado. Quando ia ler, um terrível engano! Uma pinta de nascença denunciou tudo. Só uma das gêmeas possuía uma pinta no pescoço. Ela era sua cunhada! Correu, ofegante, para o outro quarto ao lado. Disse ao irmão que nada tinham feito ainda. O outro, com enigmático sorriso de Mona Lisa, disse enfaticamente: “Sinto muito, mano, mas aqui ninguém pensou em ler a Bíblia antes...”
Gilberto Sidney Vieira