O tempo não tirou a vaidade nem a determinação de Yoone Cury, um dos maiores exemplos femininos de garra e sucesso de Bauru e região. A primeira mulher corretora de imóveis, assim é conhecida a simpática senhora que completa, em abril, 80 anos de idade.
Mulher guerreira, dessas que são raras hoje em dia, ficou viúva aos 35 anos e com três filhos para cuidar e orientar, mas não desistiu e batalhou por um lugar ao sol. Yoone não se intimidou, foi à luta e venceu todas as barreiras e dificuldades que a vida lhe impôs. Vendendo livros de porta em porta, ela acabou abrindo uma que lhe direcionou ao trabalho de corretora de imóveis. Mais tarde, fundou sua própria empresa no ramo com a ajuda da família e, hoje, sente-se uma mulher realizada com suas conquistas profissionais e pessoais. Saiba mais sobre a vida dessa mulher de fibra na entrevista concedida ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade - Quando teve início a carreira da senhora como corretora de imóveis?
Yoone Cury - Sou a primeira mulher a trabalhar como corretora de imóveis em Bauru e região. Comecei em 1969, mas meu registro do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci) data de 1973.
JC - Na época, sentiu preconceitos por ser a única mulher nessa profissão?
Yoone - Para ser sincera, nunca percebi esse preconceito. Sempre fui querida pelos meus colegas de trabalho, eu os ajudava com as vendas e eles me ajudavam também, era uma relação de trabalho muito boa. Já na sociedade, meu trabalho também era bem aceito. Muitos maridos não gostavam que suas esposas saíssem para escolher imóveis com corretores homens, então eu era muito requisitada.
JC - A senhora tem alguma história ou fato que marcou sua carreira?
Yoone - Ah, tenho tantas histórias. Uma que me marcou muito foi sobre a venda de uma casa. Eu tinha uma agenda onde marcava o tipo de imóvel desejado por cada cliente. Então, uma pessoa me procurou para que eu vendesse a casa dela e essa residência caiu como uma luva para um cliente que eu tinha. O dono do imóvel perguntou quanto seria minha comissão e, ao ouvir 6%, ele me olhou e disse assim: “ganhar na galinha morta é fácil, né!”. Nossa, eu fiquei tão chateada com a frase e o modo grosseiro como ele a disse que lhe passei um sermão. Falei para ele nunca mais falar uma coisa dessas a outra pessoa e que ninguém merece ser tratado com falta de respeito e educação, desabafei. Mas, no dia seguinte, eu vendi a casa pelo preço que ele pediu e ele foi só agradecimentos, elogios e desculpas para mim. Esse fato me marcou bastante.
JC - Dava para ganhar um bom dinheiro atuando no mercado de imóveis naqueles tempos?
Yoone - E como, você não faz idéia. Eu vendia quase toda semana. Chegava a vender três imóveis ao mês e nunca fiquei um mês sem vender uma casa ou um terreno que fosse. Mas eu trabalhava bastante, não tinha horário, cheguei a fechar negócios à noite. Digo aos corretores que trabalham comigo que o nosso trabalho é ótimo, maravilhoso, para sentir isso basta ser honesto e dar atenção aos clientes que, com certeza a recompensa vem.
JC - Durante quantos anos a senhora atuou como corretora de imóveis?
Yoone - Por 35 anos. Fui funcionária por muitos anos e em 1991 fundei a “Concreto Imóveis”, atual empresa da família. Fui contratando corretores e hoje temos cerca de 60 funcionários, entre fixos e terceirizados.
JC - Houve mudanças marcantes no setor ao longo dessas décadas?
Yoone - Não houve não. Eu acho que os corretores deviam respeitar mais uns aos outros, o companheirismo está se perdendo com o tempo. Por exemplo, às vezes eu tinha imóvel mas não tinha clientes, então era procurada ou ia até outras imobiliárias, havia uma certa parceria e amor pela profissão, coisa muito rara hoje em dia, o que mudou foi isso.
JC - Se sente uma mulher realizada profissionalmente?
Yoone - Muito. Adoro a minha profissão, tanto é que passei a empresa para meus filhos e netos tomarem conta, mas continuo indo lá todas as manhãs. Foi uma profissão que me deu muitas alegrias e realizações. No lado pessoal também sou uma mulher realizada. Amo minha família e meus seis netos (cinco homens e uma mulher), são uma das grandes realizações da minha vida.
JC - Onde a senhora nasceu?
Yoone - Nasci em 10 de abril de 1929 no Estado do Texas, Estados Unidos da América. Quando cheguei ao Brasil tinha apenas 7 anos de idade, viemos para a cidade de Pirajuí. Mais tarde me casei e me mudei para o Paraná, onde meu marido comprou um hotel.
JC - Como chegou a Bauru?
Yoone - No Paraná, eu fiquei viúva e voltei a Pirajuí, por volta de 1964. Eu era muito nova quando meu marido faleceu, tinha apenas 35 anos. Mas não queria que meus filhos crescessem em uma cidade pequena, porque tinha medo que eles não conseguissem estudar e ter um bom emprego, foi quando decidi me mudar para Bauru.
JC - Chegou a passar dificuldades para criar os filhos?
Yoone - A vida não foi fácil depois que perdi Miguel (marido). Posso dizer que cheguei aqui com uma mão na frente e outra atrás, mas tinha três filhos para criar, então segui em frente. Quando me mudei para Bauru abri uma mercearia e passei a vender livros de porta em porta e logo fui convidada, por um parente de meu falecido marido, a trabalhar como corretora, quando fui vender livros na casa dele. Ele me disse que precisava de uma corretora mulher porque isso seria bom para os negócios dele, já que não havia presença feminina no ramo. Comecei a trabalhar mesmo não entendendo nada sobre o assunto e me apaixonei pela profissão. Graças a Deus, consegui dar de tudo a meus filhos, que viveram comigo até se casarem.
JC - Como foi sua infância?
Yoone - Não tenho muitas lembranças da minha infância nos Estados Unidos. Elas foram bloqueadas devido ao sofrimento que passei quando tinha 8 anos e minha mãe faleceu, já aqui no Brasil. Minhas únicas lembranças são dos 40 dias que passei no navio que nos trouxe para cá e das baleias que eu e meu irmão víamos. Outra coisa que me recordo são das crianças me chamando de “americaninha” e da dificuldade em entender o português, no início. Fui criada por um tio, irmão de meu pai, e a esposa dele. Eu e mais sete ou oito primos. Minha infância foi simples, me casei bem nova, tinha apenas 16 anos.
JC - Porque decidiu se casar tão jovem?
Yoone - Por amor! Nossa história é longa e bonita. O conheci através da irmã dele, que fazia vestidos em uma costureira onde eu estava aprendendo a fazer roupas. Certa vez, quando ele foi acompanhar a irmã, nos vimos e nos apaixonamos. Então, ele e o pai dele foram até a casa dos meus tios para me pedir em namoro. Meu tio deixou, mas logo em seguida voltou atrás e disse que eu só tinha 15 anos e não estava na hora de namorar. Logo completei 16 anos e ele disse a um outro tio meu que estava disposto a fugir comigo. Ah, eu adorava ele, não podia ficar sem, então aceitei. Fugimos e nos casamos no civil e no religioso. A festa foi linda, passei a lua-de-mel no Rio de Janeiro. A família dele me acolheu como filha, me deram de tudo, porque eu não tinha praticamente nada. Meus tios que me criaram nunca me perdoaram por eu ter fugido com o Miguel, mas ele foi o grande amor da minha vida e eu fiz de tudo para viver aquela história de amor. Ele era um homem extremamente romântico, costumava dizer que sentia ciúmes do sol porque tocava a minha pele.
JC - A senhora acredita que hoje em dia os homens perderam o romantismo?
Yoone - Sim, hoje em dia os homens não elogiam mais as mulheres como antes. Miguel me elogiava muito. Ele adorava me ver sempre bem vestida e arrumada para ele, e eu sempre estava assim. Acredito que as mulheres devem mostrar seu lado feminino através da beleza, do estar sempre arrumada e bem vestida, independentemente da profissão ou do lugar que esteja, cada um deve fazer sua parte, a mulher deve se produzir para ele, que deve observar e elogiar sua mulher, isso faz com que o romantismo permaneça e fortaleça os laços de amor. Deve haver companheirismo e cumplicidade entre os casais. Quando me casei eu não sabia nem como uma mulher engravidava, meu marido me ensinou tudo, foi meu professor na arte de amar. Claro que hoje são outros tempos, embora os diálogos tenham mudado, a intimidade deve permanecer.
JC - Qual é a sua visão da mulher atual?
Yoone - Hoje as mulheres estão mais liberais e acho isso bom. Antes, muitas tinham vontade de trabalhar mas o marido ou a família não permitiam. Acredito que fui um exemplo para muitas mulheres ingressarem no ramo da corretagem. A mulher tem que ir à luta, ficar sentada reclamando da vida não adianta. Com o trabalho, ficamos independentes financeiramente e nos sentimos realizadas porque, também, temos contatos e fazemos amizade com outras pessoas. O trabalho é muito gratificante, acho que nenhuma mulher deve ficar sem trabalhar fora de casa.
JC - Tem outras paixões além do trabalho e família?
Yoone - Já viajei muito pelo Brasil. Viagens maravilhosas por todo o Nordeste, Rio de Janeiro, entre outros lugares. O povo nordestino recebe muito bem os turistas. Eles são simples e muito comunicativos. Em todas as viagens eu fiz amizades com as pessoas que iam junto nas excursões. Eu fazia negócios até nesses momentos, dava meu cartão e eles me ligavam depois. Fora do País fui apenas para Cancun, no México. Lá é lindo, água limpa com peixes coloridos passando nos pés das pessoas. É a coisa mais linda que já vi. Essa viagem, além de muito prazerosa, rendeu boas risadas. Minha filha, que me acompanhou, esqueceu a carteira com os documentos e os dólares que iria levar. Como o passaporte já estava com o guia turístico e ela podia embarcar somente com ele, eu disse: vamos que a mamãe paga suas contas lá. Pronto, os amigos que foram junto passaram a viagem toda fazendo brincadeiras em relação aos gastos dela com o meu dinheiro. Foi muito divertido e marcante, compramos muita coisa linda lá. Também gosto de cozinhar para minha família e me arrumar, gosto de ficar bonita e de tudo o que é belo, como artes e música, por exemplo.
JC - Existe segredo para se manter bonita e saudável aos quase 80 anos?
Yoone - Me exercito muito. Há mais de 40 anos não saio das piscinas, por muitos anos fiz hidroginástica e, hoje, hidroterapia. Já fiz academia também. Minha alimentação é suave e à base de muitos legumes, verduras e frutas. Toda manhã tomo um copo de suco de frutas variadas, natural e sem açúcar. Sou muito vaidosa e me cuido muito. Outra coisa muito importante é o trabalho, trabalhar faz bem para o corpo e para a mente saudável.
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Perfil
• Nome: Yoone Nahssen Cury
• Idade: 79 anos
• Local de nascimento: Estado do Texas (Estados Unidos da América)
• Marido: Miguel Cury (já falecido)
• Filhos: Lula, George e Eduardo
• Hobby: Cozinhar para a família
• Livro de cabeceira: Bíblia
• Filme preferido: Romances
• Estilo musical predileto: Música clássica
• Time: Corinthians
• Para quem dá nota 10: Para meus filhos
• Para quem dá nota 0: Ninguém merece nota zero