08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A verdade nua e crua da crueldade


| Tempo de leitura: 3 min

Não tenho intenção de chocar, mas relatar fatos que vivi como ativista de uma ONG de proteção. Quando se fala em direito, logo precisa-se de advogado e, mesmo sem recursos, sempre pagamos um que teve exímia dedicação para com nossos casos. Devo contar apenas um entre muitos casos para, assim, mostrar aos leitores o que é defender os animais de seus donos. Recebemos a denúncia de maus tratos por um vizinho que teve a coragem de se identificar, mas para sua proteção, omitimos os nomes. 1.º passo: pela manhã, vamos até o local onde ocorre os maus tratos com recursos nossos. Pelo quintal da denunciante vimos uma cadela amarrada por uma corda com pouco mais de 1 metro num quintal de terra sem água, sem alimento, sem cobertura. Ela tinha dado cria durante a noite anterior e seus filhotes estavam na lama, pois no dia havia chovido. Um dos filhotes, estava pendurado por sua placenta morto. Tudo indica que estava precisando de algum procedimento cirúrgico para a solução. 2.º passo: falar com dono, mas ninguém em casa. Segundo a vizinha (a denunciante) o maridão da dona da cadela estava preso e ela era uma tranqueira, palavras da vizinha. 3.º passo: como não nos cabe a parte psicossocial da dona da cachorra, fomos à delegacia mais próxima para lavrar um BO. Embora tínhamos pouquíssimos dados, mas sempre uma câmara nas mãos, adiantamos o assunto e mostramos as fotos da real situação em que se encontrava a cachorra. E assim, sensibilizar o delegado e seus funcionários para agilizar, caso contrário podemos demorar até 3 horas dentro de uma delegacia para fazer tal BO. Mas como temos um bom relacionamento com a maioria das delegacias regionais de Bauru que, aliás, presto aqui meus agradecimentos a todos que sempre nos trataram com grande consideração. 4.º passo: ainda fazendo o BO, em off já avisamos o delegado que iremos pular o muro e retirar a cachorra de lá, coisa que não recomendo por ser ilegal fazer. O delegado riu e falou: “Não ouvi isto, mas sei que com as senhoras (as protetoras dos animais) não adianta falar não façam isto”. Se querem saber qual é o caminho legal para retirar a cachorra de lá? Pois bem, eu digo: munida de um BO, sempre no período da tarde vá até ao fórum da promotoria de justiça do meio ambiente, no caso em Bauru o dr. Sciulli. Ele vai ouvir o caso, ler o BO e encaminhar para o juiz dar um mandato para a retirada do animal com apoio policial. Quer saber quando podemos ter esta ordem em mãos? Só Deus sabe. Nunca esperamos pra ver. Para salvar a vida não há este tempo. Pergunto para aqueles que estão tendo a paciência em ler esta: consegue ir pra casa, tocar a vida particular e resolver tantos outros problemas depois de ver a situação desta pobre cachorrinha? Um final feliz para ela. Após fazer o BO, voltamos onde estava a cachorra e eu e uma senhora com 52 anos de idade, honesta mãe de família, juntamente com uma amiga também ativista de 63 anos de idade, pulamos o muro e com ajuda da vizinha denunciante, retiramos a cachorra com seus filhotes da casa do algoz. Gostaria de dizer a todos vocês que não se tem idéia para a alegria e satisfação que se sente ao fazer isto!!!! Daí pra frente a cachorrinha e seus filhotes souberam o que é ser cuidado, amado, respeitado. Desde que o mundo é mundo a maldade humana impera e por isto que o mundo é como é. Tem pessoas que têm sua maneira de demonstrar sua revolta, só falam e passam a vida se indignando com as injustiças, mas aquelas que querem mudar as coisas escolhem uma causa para lutar e, assim, fiz a minha escolha para um mundo melhor. Se entendem que estou errada para as atitudes aqui relatadas, pouco importa porque neste caso, “os meios justificam os fins”.

Sandra Maria G. Piova – educadora aposentada – e-mail: sandrapiova@gmail.com