08 de julho de 2026
Geral

Choque elétrico contra depressão

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Um controverso método terapêutico, que costuma evocar no imaginário coletivo reminiscências das antigas práticas de tortura, ainda é considerado por um expressivo número de médicos a mais poderosa arma no tratamento de distúrbios psiquiátricos graves. A eletroconvulsoterapia, termo técnico que designa atualmente o método que utiliza estímulos elétricos para induzir no paciente uma crise convulsiva de curte duração, vem sendo amplamente aplicada em hospitais ligados a grandes instituições de ensino, como as universidades Estadual Paulista (Unesp) e a de São Paulo (USP).

Mais antigo e polêmico tratamento biológico do arsenal da psiquiatria moderna, a eletroconvulsoterapia é um procedimento regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Atualmente, um movimento no Congresso Nacional vem tentando credenciar a técnica junto ao Sistema Único de Saúde (SUS), de modo que possa ser oferecida de forma gratuita à população.

Defensores da técnica afirmam que a eletroconvulsoterapia é o método mais eficiente para o tratamento de determinados distúrbios psiquiátricos graves, em especial a depressão profunda e a esquizofrenia. Os críticos, por sua vez, argumentam que a terapia de choques ataca apenas os sintomas das doenças e não as causas, sem contar que é invasiva e anuladora do sujeito (leia mais no texto abaixo).

Mesmo os profissionais que se dizem favoráveis ao uso da eletroconvulsoterapia admitem que o método só deve ser usado em último caso, com base em um conjunto de fatores que justifiquem a aplicação dos choques.

Parte dos especialistas garante que a terapia é segura. Séries estatísticas históricas apontam que a taxa de mortalidade relacionada ao procedimento é de dois casos para cada 100 mil pacientes. A quantidade é inferior ao número de óbitos causados pelo uso de medicamentos, que é de cinco para cada 100 mil.

O procedimento dura cerca de dez minutos no total. Antes de ser submetido aos choques, o paciente recebe anestesia geral - essa parte, aliás, é a mais demorada da técnica. Depois que o indivíduo se encontra totalmente relaxado, recebe um estímulo elétrico de baixa intensidade (entre 90 e 600 milicoloumbs), com uma energia máxima de 100 joules (para termos de comparação, aparelhos desfibriladores, utilizados para regularizar as contrações dos músculos do coração, chegam a utilizar 330 joules).

A crise convulsiva obtida a partir desse estímulo tem, em média, 20 segundos de duração, e nesse período o paciente é monitorado por aparelhos de eletrocardiograma e eletroencefalograma, sem contar que tem sua pressão arterial aferida constantemente.

Os estímulos elétricos serviriam para modificar a atividade dos neurônios, células responsáveis pela transmissão dos impulsos nervosos em nosso organismo, fazendo com que o humor do paciente também se alterasse.

Os modernos aparelhos de eletroconvulsoterapia seriam capazes de controlar todos os parâmetros clínicos do paciente. Com isso, a máquina deixaria de emitir o estímulo elétrico quando “percebesse” que não seria bem sucedido.

O número de aplicações utilizadas no tratamento costuma variar de acordo com a situação da pessoa que será submetida à terapia. Mas de dez a 12 sessões (duas ou três por semana) costumam ser suficientes para recuperar portadores de depressões graves.

Mesmo depois de o paciente apresentar melhoras em seu quadro, pode ocorrer de o médico indicar sessões de manutenção de mês em mês para que os sintomas não voltem a se agravar. Há casos, também, em que a pessoa precisa continuar o tratamento com medicamentos para sustentar os efeitos obtidos por meio da eletroconvulsoterapia.

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‘Minha vida parou’

De uns tempos para cá, o bauruense Donzíllio Quaggio, 46 anos, se converteu em defensor ferrenho da eletroconvulsoterapia. Ela atuava como comerciante, negociando de cidade em cidade, mas teve de abandonar o trabalho para poder se dedicar com exclusividade a duas familiares que sofrem de transtornos psiquiátricos graves. Hoje, ele sobrevive da renda obtida com aluguéis de imóveis.

“Dizem que acabaram como os manicômios”, diz Donzíllio, em referência às modificações ocorridas por conta da reforma psiquiátrica, aprovada pelo Congresso em 2001, “mas, na verdade, o manicômio é a minha casa”.

Os problemas começaram há cerca de cinco anos e, desde então, só se agravaram. As duas familiares de Donzíllio já tentaram cometer suicídio várias vezes. Mesmo tomando meia dúzia (e isso não é força de expressão) de remédios antidepressivos, o quadro das mulheres pouco evoluiu.

Os medicamentos têm de ser mantidos em cofre, e Donzíllio não pode se descuidar um segundo sequer, do contrário, as duas tentam se matar. Desesperado, resolveu procurar ajuda no Hospital das Clínicas (HC), em São Paulo.

Recentemente, uma das familiares se submeteu a sessões de eletroconvulsoterapia e apresentou melhoras nos sintomas depressivos. “Antes, ela só ficava deitada, o dia todo. Agora já consegue se levantar para cozinhar, lavar a louça”, garante Donzíllio. A familiar deverá passar por novas aplicações de choques dentro das próximas semanas.

“Espero que, depois da oitava sessão, ela já tenha se recuperado e possamos deixar todo aquele inferno para trás”, diz o comerciante, que aguarda por vaga para que a outra familiar também possa se submeter ao tratamento no HC. Ele acredita que a eletroconvulsoterapia ainda não é oferecida à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) por causa de um tabu ideológico que existe na sociedade.