08 de julho de 2026
Articulistas

Las mariposas

Iolanda Toshie Ide
| Tempo de leitura: 3 min

Eram assim chamadas as três irmãs da República Dominicana que ousaram rebelar-se contra a ditadura de Rafael Leônidas Trujillo. Minerva, Maria Teresa e Patrícia Miraval não aceitaram calar-se diante da truculência de Trujillo contra o povo dominicano. A resposta do déspota veio célere: as três foram barbaramente assassinadas. Era 25 de novembro de 1960. Para lembrá-las foi instituído o Dia Latinoamericano de Combate à Violência à Mulher. Só mais tarde, após várias gestões das mulheres latinoamericanas, a ONU proclamou, nessa data, o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher.

Conhecidas são as violências sexuais a que foram submetidas milhões de mulheres durante as muitas guerras e conflitos que os homens protagonizaram ao longo dos séculos. Durante a ocupação da Manchúria por tropas japonesas, mulheres e até crianças chinesas foram indiscriminadamente estupradas. O mesmo ocorreu com as mulheres coreanas. Por ocasião da IV Conferência Mundial da Mulher, em Beijing, uma delas, já bem idosa, sob insistência de alguns grupos de mulheres, esteve presente narrando os horrores a que foi submetida.

Uma jovem italiana que emigrou para o Brasil denunciou: os soldados estadunidenses que chegaram a Itália para libertar (?) o povo da fascismo, estupraram todas as jovens e, até crianças, da sua aldeia. Não foi diferente no recente conflito Servia-Bósnia, cujo principal algoz foi recentemente julgado no Tribunal Internacional de Haia.

Em recente visita à Ilha de Okinawa, fotos de protestos contra a base militar estadunidense que, pelo acordo, deveria ser desocupada em 1960, dão conta da repulsa da população local contra as tropas ali estacionadas. Ainda ocorrem violências sexuais contra meninas okinawanas. Decidida no Seminário Internacional, ocorrido de 26 a 30 de setembro de 2004, na África, uma campanha internacional contra a violência sexual em zonas de conflitos e em zonas militarizadas foi desencadeada, em 25 de novembro de 2004, pelo Coletivo Paz e Desmilitarização da Marcha Mundial das Mulheres.

A grande Marcha de 2005, que se iniciou em 8 de março em São Paulo e culminou com a apoteótica chegada a Burkina Faso (África) no dia 17 de outubro do mesmo ano, teve como um dos principais enfoques o tema da desmilitarização. Muitas mulheres de países da região dos Grandes Lagos ficaram impedidas de recepcionar a Carta das Mulheres para a Humanidade e a Manta que foi sendo tecida em cada um dos 53 países por onde passava a Marcha das Mulheres: estavam vivendo em meio a terríveis conflitos bélicos. Recentemente, puderam se organizar para, finalmente, após três anos, receber a Manta e a Carta. Submetidas a várias modalidades de violências, inclusive sexuais, queriam tocar na Manta para sentir a solidariedade das mulheres do mundo todo.

Pouco antes do início do Fórum Social das Américas, ocorrido em outubro na Guatemala, o coletivo Paz e Desmilitarização esteve reunido em Honduras. As mulheres sabem muito bem o preço que pagam quando são desencadeados conflitos bélicos que interessam, em especial, à indústria bélica e às empreiteiras que lucram com a “reconstrução”. Minerva, Maria Teresa e Patrícia Miraval, rememoramos o dia de seus assassinatos opondo-nos à ditadura, tentando fazer eco à sua luta por paz, desmilitarização e justiça. Estaremos no Fórum Social Mundial: Ditadura, nunca mais! Guerra, nunca mais! Paz sempre!

A autora, Iolanda Toshie Ide, é presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulheres de Lins e professora aposentada da Unesp