11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Maria Teresa Martha de Pinho Meca‘ - Acredito na arquitetura acessível a todos’

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

A arquitetura popular como meta, um pai como modelo e os desejos e medos da juventude para serem enfrentados e vencidos. Assim começou a carreira da bauruense Maria Teresa Martha de Pinho Meca, que se formou em arquitetura na Escola de Belas Artes, de São Paulo. A solidão e a distância da família, durante os seis anos em que morou na capital paulista, foram superadas pelo reencontro com Deus e com sua força interior.

Os anos vividos em São Paulo foram difíceis, mas fizeram com que Maria Teresa deixasse de ser uma menina tímida para se tornar uma mulher determinada e alegre. De volta a Bauru, trabalhou com paisagismo e passou a dar aulas de arquitetura na Universidade Estadual Paulista (Unesp) da cidade. Cerca de oito anos depois, o amor pela profissão falou mais alto e ela deixou a sala de aula por um escritório próprio, no Centro da cidade.

Apaixonada pela profissão, a maior batalha de Maria Teresa é popularizar a arquitetura moderna. Ou seja, unir numa construção conforto, beleza e praticidade sem a exigência de grandes investimentos financeiros para atender todas as classes sociais. Confira mais sobre a vida profissional e pessoal de Maria Teresa lendo os principais trechos da entrevista que ela concedeu ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade– O seu gosto e talento pela arquitetura vêm de família?

Maria Teresa Martha de Pinho Meca – Ah, meu pai era um excelente arquiteto e amava a profissão. Eu sempre respirei a arquitetura em casa, desde criança. Quando não estava trabalhando na empresa, meu pai ficava em casa mexendo nos seus projetos pessoais. Ele tinha uma prancheta e trabalhava nela toda noite. Como eu tinha pouco tempo para ficar com ele, acabava inserida em seus projetos, sem contar que a casa em que morávamos e muitos dos móveis eram projetos dele e, sempre que ele podia, me levava para as obras e para assistir as aulas que ele dava na Unesp aqui da cidade. Eu vivenciei muito o trabalho de papai e me apaixonei pela arquitetura.

JC – Seu pai te incentivou a seguir a profissão?

Maria Teresa - Ele nunca me incentivou, apesar de adorar a profissão. Achava que na época em que ele veio para o Brasil, a arquitetura não era reconhecida na cidade. Ele dizia que eu devia fazer algo que fosse rentável. Mas não teve jeito. Fui para São Paulo e me formei no final de 1986, na Escola Belas Artes.

JC – Como foi ter seu pai como primeiro mestre?

Maria Teresa – Meu pai se formou na faculdade das Belas Artes do Porto, Portugal, onde nasceu. Ele viveu numa época de ditadura e pouca liberdade de expressão. As idéias da escola corbusiana estava explodindo na Europa e ele não podia se expressar livremente. Esse foi um dos motivos que o trouxe ao Brasil. O outro foi o amor por minha mãe, é claro. Além da arquitetura, ele me ensinou muito sobre a vida, sempre me dizia assim: ‘O que quer que você faça, faça com amor e bem feito’.

JC – Então você tem uma linda história de amor na família?

Maria Teresa – Sim. Minha mãe morou por dois anos em Portugal e lá conheceu meu pai. Eles namoraram três anos e meio apenas por carta. Sempre digo que isso sim é confiança. As pessoas diziam para ela não esperá-lo porque ele não iria vir para o Brasil para se casar com ela. E ele sempre dizia que assim que se formasse viria morar aqui e se casar com mamãe. E foi o que ele fez. Deixou os pais, irmãos e trabalho e veio para o Brasil com a cara e a coragem. Aqui ele se casou com o grande amor da vida dele e encontrou a liberdade que queria trabalhar com a arquitetura, influenciado pela escola corbusiana.

JC – Fale um pouco sobre a escola corbusiana Maria Teresa - Ela surgiu no pós-guerra como uma proposta de reconstrução das cidades de maneira rápida. Até essa época, as pessoas estavam acostumadas com um estilo mais clássico e rebuscado. Mas a destruição das cidades devido à guerra trouxe a necessidade de uma construção com menos detalhes porque o tempo era curto. Com o passar do tempo, isso acabou se tornando um estilo, uma nova forma de se projetar arte e estética nas construções. Foi um marco social da época e da arquitetura moderna.

JC – Como definiria a arquitetura ?

Maria Teresa – Sempre gostei de artes plásticas e esculturas de maneira geral, mas eu gostava dessa coisa mais concreta, de criar alguma coisa e ver aquilo edificado. A arquitetura se perpetua por muito tempo e é um referencial de gerações, cultura. Ela marca a forma de viver dos povos. É simplesmente fascinante.

JC – Por que a escolha de São Paulo para cursar arquitetura?

Maria Teresa – Nunca gostei da capital paulista e a Belas Artes foi uma surpresa para mim. Eu passei no vestibular e decidi que iria para lá mesmo não me adaptando muito à cidade. Passei por maus momentos em São Paulo, mas também foi lá que eu me encontrei como ser humano.

JC – Foi uma boa aluna?

Maria Teresa – Acredito que sim. Não conseguia estágio, os escritórios estavam praticamente parados. Creio que aquele foi um dos piores momentos da construção civil no País. Trabalhei onde foi possível e de graça. Eu queria era estar perto da arquitetura.

JC – Qual foi seu primeiro trabalho profissional?

Maria Teresa – Foi em São Paulo mesmo. Conheci uma arquiteta que estava trabalhando em uma tese de mestrado sobre arquitetura de terra. Fiz todos os desenhos dessa tese. Trabalhei com ela um ano e meio e aprendi muito sobre paisagismo, ramo da arquitetura que me despertava bastante interesse. Ela foi uma pessoa que me ajudou muito. Quando me formei, ela chegou a me propor trabalho, mas eu não aceitei e voltei para Bauru.

JC – Por que decidiu voltar?

Maria Teresa – Apesar de São Paulo ser uma cidade onde as oportunidades são grandes, decidi voltar porque meu pai estava doente e eu queria aproveitar, ao máximo, o tempo ao lado dele. Além disso, meu namorado (hoje marido) morava aqui. Fiquei seis anos fora querendo estar aqui. Então não olhei para trás e vim embora. Não sou uma pessoa completa sem estar perto da família e da arquitetura. Preciso sempre unir as duas coisas para me sentir feliz.

JC – Qual foi seu primeiro trabalho em Bauru?

Maria Teresa – Voltei para Bauru e procurei contatos com os amigos e conhecidos do ramo. Fiz um trabalho de paisagismo para uma loja com o arquiteto Maurício Costa, trabalhamos juntos por algum tempo e fiz alguns trabalhos em casa, por conta própria. Nessa época, acabei passando em um concurso para professora na Unesp, onde lecionei paisagismo por oito anos, mas sempre com uma pontinha de saudade do trabalho como arquiteta.

JC – Não dava para conciliar os dois trabalhos?

Maria Teresa – Não. Eu dava aulas em período integral e fazia mestrado em São Carlos. Depois, já casada, tive meu primeiro filho e ficou cada vez mais difícil dar aulas. Então decidi terminar o mestrado e montar meu escritório de arquitetura, onde estou desde 1996.

JC – Qual é a linha do seu trabalho?

Maria Teresa – Um dia me apareceu um rapaz com uma planta nas mãos dizendo que iria se casar e queria várias coisas na casa, inclusive uma banheira de hidromassagem. Ele acreditava não ter dinheiro para pagar, mas queria saber qual seria o valor. Sempre batalho para que a arquitetura se torne popular entre as pessoas e fiquei apaixonada por aquela oportunidade. Achei o máximo aquele rapaz apostar nisso. Dei o preço, e ele disse que faríamos o trabalho.

JC – Você consegue ter uma boa renda?

Maria Teresa – Trabalho mais pelo prazer do que por lucro. Acredito na arquitetura acessível para todos. Quando decidi montar meu escritório eu quis alugar um imóvel que fosse um ponto comercial. Eu trabalhava com a porta aberta e as pessoas passavam e entravam para conhecer o trabalho e o lugar. Realmente esse é o trabalho que eu sempre quis fazer. Provei para mim mesma que é possível fazer arquitetura com pouco dinheiro. Um espaço de qualidade não precisa ser, necessariamente, caro.

JC – Qual é a principal característica do escritório?

Maria Teresa - Com o dinheiro usado para construir uma casa simples de Cohab, por exemplo, dá para criar um espaço bonito, prático e confortável. Às vezes, até com menos dinheiro. Essa é a característica do meu escritório, além de reformas e melhorias em espaços.

JC – Você é realizada com seu trabalho?

Maria Teresa – Sim. Um exemplo dessa alegria aconteceu no início do ano quando o rapaz que eu citei anteriormente veio até mim, anos depois, dizendo que comprou uma casa maior e queria que eu fizesse a área de lazer e o paisagismo. Ter um cliente que volta depois de anos por ter gostado do meu trabalho é um presente.

JC – Quais são os maiores problemas urbanos de Bauru hoje?

Maria Teresa – O trânsito está sobrecarregado e as ruas estão com muitos buracos. Outro problema é a displicência dos moradores com a limpeza e os cuidados das calçadas. O poder público deve agir, mas se cada cidadão fizer a sua parte, há conserto. Como exigir algo do governo se a população não cuida do espaço público! O trabalho precisa ser em conjunto.

JC – Considera seu trabalho uma contribuição social?

Maria Teresa – Sim. Melhorar a vida das pessoas através do espaço em que vivem com melhor iluminação, ventilação, praticidade e, dentro das condições financeiras dela, é um prazer para mim. Não consigo ver a arquitetura diferente.

JC – Você tem um lado espiritual desenvolvido?

Maria Teresa – Sim. Quando fui para São Paulo fazer faculdade eu fiquei muito depressiva por estar longe da família. Passei por maus dias, não conseguia dormir e não tinha alegria em viver. Realizava minhas tarefas, somente isso. Foi quando a menina que morava comigo, percebendo minha angústia, me levou até uma igreja evangélica que ela freqüentava. Fui para não ficar sozinha e achei tudo muito estranho no início. Porém, recebi uma oração e, daquele dia em diante, passei a dormir como um anjo. Continuei freqüentando as orações e melhorando a cada dia. Para minha surpresa, descobri que todas aquelas pessoas do grupo de oração eram de Bauru. Realmente estava em casa. Foram pessoas maravilhosas que me ajudaram a enxergar que Deus precisa estar sempre presente em minha vida. Hoje faço minhas orações diariamente e não me afasto mais Dele, que é a força que me alimenta. Outra coisa que faz bem para minha alma é estar sempre em contato com as pessoas mais simples, procuro dar o que posso e aprendo muito com elas.

JC – Quais são seus planos futuros?

Maria Teresa – Sou a segunda secretária do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) do Núcleo de Bauru e estamos com alguns projetos. Além disso, quero fazer doutorado sobre a obra do meu pai, que contribuirá para estudantes e profissionais da área.