08 de julho de 2026
Geral

Quando é hora de reservar um tempo

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Quando somos crianças, a impressão que temos é de que o tempo demora muito a passar. Depois que crescemos, porém, nossa vida adquire um ritmo alucinante a ponto de não sermos capazes sequer de perceber o correr das horas e dos dias.

Atualmente, é muito comum se ouvir nas rodas de conversa alguém dizendo: “Nossa, o Natal e o Ano Novo foram ‘ontem’ e já estamos em março”. Mas, se os dias seguem com 24 horas e nosso planeta continua demorando 365 dias mais seis horas para dar uma volta completa em torno do Sol, como pode o tempo estar correndo mais depressa?

A resposta para essa questão filosófico-científica está no modo de vida que a nossa sociedade vem impondo aos indivíduos. “Hoje em dia, as pessoas estão sujeitas a um acúmulo de funções no cotidiano. Em geral, os problemas com que temos de lidar são complexos e demorados demais para ser resolvidos. Além disso, por conta da globalização, vivemos em contato permanente com as novas tecnologias da comunicação. Tudo se tornou mais instantâneo”, pondera Cláudio Eduardo Badaró, professor do curso de filosofia da Universidade do Sagrado Coração (USC).

“Antigamente, você mandava uma carta e ela demorava quase uma semana para chegar ao destino. Hoje, com alguns toques no celular, você consegue enviar uma mensagem a alguém na certeza de que será lida logo em seguida”, diz Éder Tomasi, dono de uma relojoaria instalada na rua Rio Branco, no Centro.

O argumento do relojoeiro é bastante pertinente. Badaró explica que, na pré-história, a noção de tempo estava bastante vinculada à degradação dos indivíduos e daqueles que o cercavam (ou seja, seu nascimento, desenvolvimento e morte).

Nas sociedades agrárias, o conceito passou a estar associado aos grandes ciclos naturais, caso das estações do ano e dos movimentos dos astros. Não por acaso, muitas sociedades (os países islâmicos, por exemplo) ainda adotam calendários baseados nas fases da lua.

Foi assim por séculos, até que um belo dia surgiu a indústria, e tudo que era sólido se desmanchou no ar. “O tempo passou a ser uma medida de dependência econômica”, afirma Badaró. Isso é fácil de ser constatado por qualquer um que tenha a chance de colocar os pés em uma empresa, por menor e mais desorganizada que seja. Como no velho e batido ditado, “tempo é dinheiro”.

Hoje, muita gente acredita que saber domar o tempo (tanto o seu e quanto o daqueles que nos cercam) eqüivale a possuir uma chave infalível para o sucesso. Como fazer, porém, para controlar algo que por natureza é incontrolável?

Badaró reconhece que a tarefa é difícil, mas acredita que vale a pena tentar. “Precisamos estabelecer um tempo para nós mesmos, para que possamos contemplar a vida e refletir sobre a realidade que nos cerca”, afirma.

O problema, explica ele, é que quando fazemos isso, nos vemos obrigados a abrir mão de dinheiro, prestígio etc. “Sem contar que, como estamos adestrados pela rotina alucinante, muitas vezes nos vemos tomados por uma espécie de vazio existencial, quando deixamos de fazer algo para contemplar a vida”, salienta Badaró.

Esse sofrimento certamente não afeta o comerciante aposentado Vicente Del Rey, 80 anos. “Atuei por um bom tempo no ramo de postos de gasolina. Aí, há uns 15 anos, resolvi largar essa vida. Agora estou ‘descontando’ o tempo em que trabalhei”, afirma, ele, que costuma passar as manhãs sentado nos bancos da Praça Rui Barbosa, olhando o movimento.

Nem todos têm essa sorte. A promotora de crédito Natália Belo, 23 anos, também vai à praça quase que diariamente. Ao contrário de Vicente, todavia, ela quase não tem chance de ficar de papo para o ar.

O trabalho de Natália consiste em abordar os transeuntes e convencê-los a preencher cadastros para uma loja. “Demora entre cinco e 15 minutos para responder ao questionário, mas quem diz que as pessoas estão dispostas a colaborar? Estão sempre com pressa ou atrasadas para algum compromisso”, lamenta. Para obter 15 cadastros, ela precisa abordar, em média, 70 pessoas.