Resgatado da rua por uma antiga colega de faculdade, o veterinário andarilho Marcelo Carlos de Almeida, de 42 anos, aceitou se internar ontem em uma entidade de Bauru para se livrar do alcoolismo. Há três dias sua história comove a cidade e região depois que o JC o localizou em uma casa abandonada, no centro da cidade, e contou a história de um homem que já foi um profissional bem sucedido, casado e pai de quatro filhos.
No meio da manhã, de ontem, após procurar por Almeida por várias vezes na casa abandonada da quadra 11 da rua Bandeirantes, (chegou a ir oito vezes no mesmo local), finalmente a médica veterinária Eliana Cristina Ribeiro, 43 anos, conseguiu reencontrar o amigo. Sujo e deitado em uma calçada na avenida Lúcio Luciano, perto do Núcleo José Regino, estava o veterinário. Com um lençol sobre o corpo e uma mala, ele reconheceu a antiga colega de faculdade, que leu a notícia no JC, em Botucatu, e imediatamente tomou a iniciativa de ajudá-lo, vindo até Bauru.
Ainda trêmula, Eliana conta que foi muito emocionante ele tê-la reconhecido, 16 anos depois. “Tiveram de me dar água com açúcar, comecei a chorar e estou tremendo até agora”, contou ela à reportagem. “Foi um momento de extrema emoção. Jamais na vida ia imaginar que uma pessoa que tinha a situação financeira dele estivesse assim”, completou.
Eliana conta que primeiro se aproximou, mas notou que ele dormia e que seria difícil reconhecê-la. Ao ser chamado pelo nome, Marcelo foi acordando, totalmente bêbado, e disse o nome da amiga. “Ele me chamou de Eliana”, emociona-se. “Eu era morena na época e tinha uns 25 anos. Hoje sou loira”, relata.
Os dois se formaram na turma de medicina veterinária na Universidade de Marília (Unimar) em 1993. Um ano mais novo que Eliana, Marcelo era um estudante dedicado e inteligente. Tinha uma boa situação financeira, mas, após a separação da esposa, entregou-se ao vício das bebidas alcoólicas e tornou-se um andarilho. “Foi um desastre muito grande o que ocorreu com ele, mas ele merece uma chance. Ele parece estar com problema respiratório, possui cicatrizes e já foi até atropelado”, enumera Eliana.
Na avaliação dela, Marcelo quer sair do vício. “Vejo que hoje ele está disposto a começar do zero. Quero que ele volte a ser o médico veterinário digno que sempre foi. Farei o possível para ajudá-lo”, disse ao JC.
A reportagem acompanhou a chegada de Marcelo à Comunidade Terapêutica Vida e Paz, no Jardim Terra Branca, na quadra 8 da rua México.
Um pouco rouco, ele deu a mão para a ex-colega de faculdade e agradeceu pela ajuda prestada. “Ela está muito mais bonita, íntegra e forte. É essa força dela que está me ajudando a ter força para eu lutar pela minha própria sobriedade. Eu me sinto entregue nas mãos de pessoas que acho que são capazes de cuidar da minha vida. Não quero falar das minhas dificuldades”, disse.
____________________
Recuperação e um "novo lar"
Carlos Augusto Rezende Hosken, monitor da Comunidade Terapêutica Vida e Paz, que trata de dependentes químicos e alcoólicos, disse que Marcelo de Almeida já havia feito uma entrevista para ser tratado na clínica. Porém, a recusa do veterinário em seguir o tratamento impediu a internação. “Ele fez uma entrevista para internação aqui há uns meses, encaminhado pelo Cras. Estava no albergue, mas não quis se tratar”, lembra.
Marcelo terá a companhia de outros 23 internos que tentam vencer o vício. Iria tomar um banho, descansar e “ganhar um lar” durante o tratamento. Sem fins lucrativos, a comunidade vive de doações da população e conta com auxílio para se manter. “Estamos aqui para ajudar a sociedade, mas também precisamos de apoio”, conta. Na recepção do veterinário andarilho, Carlos disse que a Comunidade Terapêutica estava de portas abertas para ele.