São 16h30 da tarde, o término de mais uma jornada de trabalho para o cobrador de ônibus Edson, de 26 anos. Apesar do relógio apontar a saída do banco em frente a roleta do coletivo que percorre a periferia paulistana, ainda não era o fim da linha para o rapaz, que ainda tinha uma missão antes de chegar em casa para ver a esposa e a filha pequena.
Com uma tia doente em outro canto da cidade, Edson precisava sair do itinerário habitual e, apressado, também abriria mão, naquele dia, do meio de transporte que, além de garantir o sustento, também lhe passava mais confiança. “Geralmente andava de ônibus. Era o meio que me deixava onde queria. Foi a primeira vez que peguei trem, as pessoas diziam que era mais rápido”, atribui.
Edson embarca na estação do Brás, em direção a Ermelino Matarazzo, onde visitaria a familiar. Mas, o fim de expediente não é privilégio do cobrador, que embarca num abarrotado vagão suburbano, com passageiros confinados na disputa por centímetros na composição com portas abertas, com gente pendurada até na porta, pelo lado de fora.
O jovem cobrador sabe que o caos no transporte público da maior cidade da América Latina não é surpresa para nenhum paulistano. No entanto, o sufoco sobre trilhos mal havia começado. O aglomerado dentro do vagão seria alvo de outra mazela metropolitana: a violência.
Um arrastão com o trem em movimento tumultua a ‘lata de sardinhas’ prestes a explodir. No empurra-empurra provocado por ladrões, o cobrador só tem uma preocupação, a bolsa. Afoito e perdido em meio ao amontoado que grita contra os criminosos, ele protege os pertences, sem perceber que, aos poucos, era conduzido à parte lateral da composição.
Do lado de fora, como “aves de rapina”, passageiros pendurados na porta aproveitam para puxar a bolsa de Edson, que se aproxima, cada vez mais, da lateral do trem. Quando menos percebeu, estava na beirada. Em questão de segundos, a borda do vagão também estava para trás. Dependurado, com meio corpo para fora, e com o trem em movimento, Edson é arremessado para fora da composição, e tem a perna e pé direito esmagados pelo atrito entre o concreto da plataforma da estação “Engenheiro Goulart” e a metálica parede do “CPTM”.
“Caí entre a plataforma e o trem. Mina perna direita caiu ali”, recorda. “Tive fratura exposta no braço. Aí não vi mais nada. Creio que tenha sido arrastado por uns 50 metros. Cheguei a dar o endereço da minha casa. Lembro que duas meninas e um rapaz chegaram rápido e me tiraram dali com uma máquina. Só queria ver minha filha. Apaguei quando encostaram na região da minha bacia.”
Edson acordaria apenas no dia seguinte, sem uma das pernas e com o braço direito mutilado. Após 25 dias de internação, o jovem cobrador, figura carimbada em rodas de capoeira, forrós de final de semana e peladas de futebol de salão, era o mais um no desamparado contingente de deficientes físicos brasileiros. “Parei de trabalhar e ‘caí’ no INPS”, lembra.
Largada
A atestada invalidez, para muitos, significaria o ponto final. Não para Edson Dantas, hoje fundista paraolímpico com títulos, em categoria especial, da maratona de Nova Iorque, Corrida de São Silvestre, entre outras importantes competições dos cenários nacional e internacional. Atleta na cabeça e coração, Dantas, hoje com 42 anos, encontrou a inclusão na transpiração. “O meio mais fácil de se resgatar a auto-estima é através do esporte”, ensina.
O pontapé inicial para a retomada de sua vida, confusa e entristecida havia seis meses, foi dado pelos colegas de viação, que juntaram dinheiro e conseguiram com que comprasse a primeira prótese. “Se eu fosse contar com o INPS, estaria de muletas e sem voltar a trabalhar até hoje”, lamenta.
Com a ‘perna artificial’, Dantas reabilitou movimentos na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e, pouco depois, reencontra a alegria da vida. “Coloquei a prótese, já fiz um golpe de capoeira e pensei ‘pronto, dá para fazer tudo’. Era tudo o que eu queria”, recorda.
Dos primeiros passos para as vitórias nas pistas, para que, antes do acidente, já mantinha rotina atlética, mesmo por recreação, foi um pulo. Após se tornar atleta de alto nível, em 2000, ele ganhou importante aporte da fabricante de próteses Otto Bock, que lhe ‘deu asas’, no caso perna, para ir mais longe. Além de vencer importantes corridas em categorias especiais, um dos maiores orgulhos do maratonista é figurar entre melhores em meio aos, como o próprio se refere, “normais”. “Fiquei entre os oito melhores brasileiros no ano passado em Nova Iorque. Para mim é melhor que vencer. Isso sim é inclusão, chegar bem entre os bons de perna”, brinca o fundista, que começou a correr “a sério” com 35 anos.