10 de julho de 2026
Cultura

O mundo em um instrumento

Maíra Soares
| Tempo de leitura: 6 min

Ele é pianista, arranjador e professor. Com tantas facetas, o músico bauruense Nelson Bargamini já tentou até ser engenheiro mecânico, mas não teve jeito. A música falou mais alto. Depois de morar na Capital do Estado, onde lecionou no Centro Livre de Aprendizagem Musical (CLAM) e tocou na noite, o instrumentista decidiu parar de viajar e ficar em Bauru. Esta nova etapa vem acompanhada de um curso inovador para arranjadores de coral. Bergamini criou uma técnica baseada em sua experiência profissional e pretende transmiti-la aos bauruenses. Empolgado com o novo projeto, o instrumentista falou ao JC sobre sua vida e seus planos. Confira na entrevista a seguir.

JC Cultura - Quando e como começou seu interesse pela música?

Nelson Bergamini - Aos 12 anos de idade. Minha mãe era professora de piano e, tendo a música em casa, a aproximação foi fácil.

JC - Como foi sua trajetória musical?

Bergamini - Eu comecei tocando espontaneamente. Apesar da minha mãe ser professora de piano, eu não estudava com ela. Embora tocasse desde os 12 anos, eu era um amador. Minhas prioridades eram a escola e o cursinho. Meu pai influenciou um pouco nisso e acabei começando a fazer engenharia mecânica na Unesp. Logo vi que era um erro porque eu prezo muito pela criatividade, e na engenharia é tudo muito exato. Percebi que aquele universo matava minha espontaneidade. Então, no segundo ano, deixei a faculdade e, aos 20 anos, decidi ingressar no estudo de piano. Comecei a estudar com a Hilda Campos e ingressei na faculdade de música na Universidade do Sagrado Coração (USC), mas também não concluí porque fui para São Paulo. Lá, fui estudar em uma escola chamada Centro Livre de Aprendizagem Musical (CLAM). Depois me tornei professor na mesma escola e, paralelamente a isso, eu era músico profissional na noite. Tocava piano em bar, boate. Sempre minhas experiências foram voltadas para música instrumental, mais especificamente a bossa nova e o jazz.

JC - Qual foi o momento mais marcante de sua carreira?

Bergamini - Eu passei de pianista à arranjador porque comecei a perceber que a formação de grupo precisava de uma direção. Nessa trajetória, eu tive contato com uma cantora muito respeitada tanto no Brasil quanto no Exterior que se chama Jane Duboc. Eu fiz um show com ela no Sesc em 1995 em prol da construção do teatro de Bauru. Pelo fato de estar ao lado de uma cantora como ela, que estudou inclusive nos Estados Unidos, esse momento foi o mais emocionante que eu tive como músico. Eu pude perceber como eu estava profissionalmente diante de uma pessoa como ela porque eu fui arranjador do show, toquei piano, regi e tudo correu muito bem.

JC - O senhor é pianista, professor e arranjador. Como consegue conciliar todas as atividades?

Bergamini - Na verdade, tudo funciona ao mesmo tempo. Eu tenho um período do meu dia que eu dedico exclusivamente ao estudo de piano. Neste momento eu construo minhas idéias, apuro minha técnica. Dando aula, eu estou exercitando meus pensamentos em relação à música porque a minha aula de piano é baseada no conceito de arranjo. Tudo funciona simultaneamente, não há separação de um estudo para o outro.

JC - Qual delas lhe dá mais prazer?

Bergamini - A que dá mais prazer é fazer arranjo por três motivos: é onde eu vou usar a técnica que eu tenho, é o que eu vou tocar porque geralmente eu sou o músico dos meus arranjos, e o principal é porque usa a criatividade. Para fazer um arranjo, você parte do zero e tem que gerar uma sensação na música que seja sua, inusitada. Então, você vira um co-autor da música.

JC - O senhor se considera realizado profissionalmente?

Bergamini - Muito, pelo fato de que eu estava em outro caminho que era a engenharia mecânica e consegui escapar a tempo de não acabar frustrado. Na música eu encontrei um caminho profissional. Consegui me estabelecer como músico, sobreviver em São Paulo e criar um nome.

JC - O senhor teve medo dessa escolha pela música em algum momento?

Bergamini - Várias vezes. A arte não dá muitas chances. Ou você é aceito e resolve os problemas de quem está te contratando ou periga ficar sem trabalho. Mas eu superei em busca de novas facetas. Decidi ser não só um pianista, mas um pianista que faz arranjos, que dá aulas. A aula é uma saída interessante porque além de ensinar alguém, você tem uma estabilidade. Mas sempre tive atividade musical intensa, sempre toquei bastante.

JC - Quem são seus ídolos?

Bergamini - O primeiro músico que eu tive muita admiração é o Amilton Godoy, que é um pianista de Bauru que eu tenho como referência musical. Tem o Nelson Aires, Cesar Camrgo Mariano, Laércio de Freitas. Esses são os meus favoritos brasileiros.

JC - Quais suas atividades na atualidade?

Bergamini - Depois de seis anos viajando, porque eu morava em Bauru e dava aulas em São Paulo, agora eu resolvi ficar aqui em Bauru e dar aulas. Desde 90, eu dou aulas de piano na cidade e tenho um curso baseado no método da CLAM. Paralelamente a isso eu passei a investir em cursos para formação de arranjador. Só que arranjador não só no piano, agora eu estou visando a formação de vozes. (Leia mais no texto abaixo)

JC - Na sua opinião, qual é o seu melhor arranjo?

Bergamini - Um dos que eu mais gostei foi um que eu fiz para a música O Bem Amado, do Toquinho. Essa música foi concebida para violão e, na época, eu estava num quinteto formado por dois saxofonistas, pianista, baixista e baterista. O resultado foi supreendente tanto para mim quanto para os músicos, pois eu consegui adaptar uma música feita para violão para essa formação. Foi uma grata surpresa, causava bastante impacto nas pessoas.

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Curso para arranjo vocal

Seguindo esta proposta de fixar bases em Bauru, Nelson Bergamini está oferecendo um curso diferenciado para formação de arranjadores de coral. O pianista desenvolveu uma técnica particular de ensino, na qual o regente vê o coral como um único instrumento e não como quatro vozes separadas como é visto no ensino tradicional.

“A grande vantagem do método é a velocidade do resultado. O curso de arranjo feito pelos métodos tradicionais, nas faculdades de música, leva pelo menos um ano. Eu quero exatamente simplificar as informações e ser mais objetivo”, explica Bergamini.

O curso é feito em quatro níveis, começando do básico até o mais avançado. As aulas são baseadas em uma apostila criada por Bergamini e que expõe a técnica baseada em sua experiência como pianista por meio de exercícios. Os alunos não precisam ser músicos profissionais, necessitam apenas ter o conhecimento básico das teorias musicais. Duas turmas já fizeram o primeiro nível e, para o professor, o curso foi um sucesso.

“A experiência foi muito satisfatória para mim porque atingi as expectativas que tinha a respeito dos exercícios. Houve uma sensibilização rápida dos alunos. No futuro pretendo transformar a apostila em livro para levar essas informações para fora da cidade. Eu gostaria que a obra fosse auto-suficiente, ou seja, que a pessoa consiga entender e fazer os exercícios sem que haja a presença do professor”, diz.

Por enquanto, está sendo oferecido apenas o nível básico para que todos os interessados possam fazê-lo. No mês de abril será aberta uma turma para iniciantes, aos sábados, das 8h às 12h. Mais informações pelo telefone: (14) 3223- 7244 ou pelo e-mail nelsonbergamini@uol.com.br.