08 de julho de 2026
Ser

Celular se tornou o ‘brinquedo’ preferido das crianças

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Aos 7 anos, Henry Cazarini Machado de Melo sabia muito bem o que queria ganhar de presente no Natal. Nada de carrinhos, bicicleta, bola ou playstation. Ele queria um telefone celular. Henry faz parte de uma geração que nasceu cercada de produtos eletrônicos com tecnologia avançada, como o computador e o celular. Para eles, manipular controles remotos, teclados, mouses é algo que faz parte do cotidiano, seja em casa ou na escola.

Em muitos casos, a familiaridade das crianças com esses aparelhos é maior que a dos próprios pais. Eles encontram menos dificuldades para lidar com essas tecnologias do que os mais velhos. Como os menores não podem ser donos de linha telefônica, não há como saber quantos estão andando por aí portando um celular.

Levantamento da consultoria TNS InterScience com 500 famílias de São Paulo e do Rio de Janeiro das classes A, B e C apontou que em 36% dos casos pelo menos um dos filhos com idades entre 6 e 15 anos possui celular. Chama a atenção também o potencial de crescimento desse público. De acordo com a pesquisa, 39% das famílias consultadas disseram que tinham a intenção de adquirir um celular para os filhos nesta faixa etária.

Henry foi um dos contemplados. Em conversa, por telefone celular, ele disse que ficou duplamente satisfeito porque, além de ganhar o celular, ele é o único da turma de amigos que tem um. É claro que ele está se sentindo o máximo. Embora os amiguinhos não tenham aparelho, a comunicação entre eles se dá de celular para fixo.

Ele diz que está sempre ligando para convidar os amigos para brincar na casa dele. Em dois meses de uso, Henry diz que já cadastrou dez números em sua agenda eletrônica. Além de combinar com os colegas, ele usa o telefone para se divertir com o joguinhos. No primeiro mês, ele teve bastante tempo para jogar. Isso porque a cota de créditos que ele tinha para gastar no mês acabou em apenas cinco dias. No segundo mês, conseguiu conter a euforia e os créditos duraram um pouco mais.

Marina, 9 anos, usa seu próprio celular há pouco mais de um ano. Ela também ganhou no Natal, mas de 2007. Ao contrário de Henry, ela nunca extrapolou sua cota mensal de créditos para ligações. Também ao contrário dele, não foi a primeira da turma de amigas a ganhar um celular. Esse foi, inclusive, um dos motivos que fez com que sonhasse tanto com um telefone para carregar na bolsa. Quase todas as amigas tinham um.

Além de poder falar com os pais e com as amigas de qualquer lugar, ela queria um telefone que também tirasse fotos. Para os pais foi uma segurança a mais. O fato da filha carregar o celular deu mais liberdade para controlar e alterar horários, dar alguns avisos de última hora. “O contato com ela ficou mais fácil”, aponta o pai, o advogado Wilson Lourenço.

Mas nem todos os pais concordam que dar um celular para os filhos pequenos é um bom negócio. Ainda de acordo com a pesquisa da TNS InterScience, 61% das famílias não pretendem comprar celulares para os seus filhos. A principal razão, citada por 7% delas, é que crianças menores de 10 anos não sabem utilizar e podem quebrar ou perder o aparelho. Outro motivo, apontado por 6% dos pais, é que os filhos não entendem que o aparelho tem propósito sério e vão usá-lo como brinquedo.

Também existem divergências quanto à importância da tecnologia para proteger os filhos. Enquanto 9% dos entrevistados que deram celulares aos seus filhos acreditam que o aparelho pode ser usado para pedir socorro em um momento de perigo, outros 5% acreditam que pode expor o filho a situações de violência, já que alguém pode querer roubar o telefone dele. Gostem ou não, os pais devem estar preparados para apelos cada vez mais precoces dos filhos por um telefone só deles.