Na década de 1970, tivemos a oportunidade de realizar treinamento para todos os chefes de estação da Fepasa, de Torrinha a Panorama. Eram ferroviários maiores de 50 anos e que só tinham como formação o antigo curso primário, mas dava gosto verificar como assimilavam os novos conceitos de administração e organização. Com caligrafia impecável, português correto e hábeis no cálculo, junto com a rígida disciplina ferroviária, formavam um grupo de excelência. O instrutor do treinamento acabava aprendendo mais com eles. E tudo isso graças à formação de qualidade que o grupo escolar, que era escola pública, lhes havia dado. Esta lembrança nos veio ao ler, no livro do jornalista norte-americano Thomas L. Friedman, “O Mundo é Plano”, como os Institutos Indianos de Tecnologia - IITs mudaram a Índia, tirando-a do subdesenvolvimento e colocando-a no caminho para uma grande potência. Segundo o autor, os IITs e os Institutos Indianos de Administração fizeram da Índia uma verdadeira fábrica, por assim dizer, que produz e exporta alguns dos maiores talentos em engenharia, ciência da computação e softwares do planeta. Transcreve o “The Wal Street Journal”, que diz: “Os IITs tornaram-se ilhas de excelência ao impedirem que a deterioração generalizada do sistema indiano afetasse seus rigorosos padrões. Não é possível ingressar numa instituição dessas por suborno; os candidatos só são aceitos se forem aprovados num exame extenuante. O governo não interfere no currículo e a carga horária é pesada. É mais difícil entrar num IIT que em Harvard ou no Massachusetts Institute of Technology (MIT).”
No Brasil, já tivemos do que nos orgulhar em matéria de qualidade de ensino. Excelente ensino primário com as conquistas da chamada “Escola Nova”, muita disciplina e apoio da família; nos institutos de educação, com os cursos ginasial, científico, clássico e normal, aprendia-se mais que em muitas das atuais faculdades. O ensino superior na Politécnica, na Faculdade de Direito do largo São Francisco e o ensino de medicina e odontologia nas faculdades da USP, só para destacar os mais conhecidos, equiparavam-se aos padrões internacionais. No ensino profissional, o Senai, originado das experiências de formação racional metódica e assistência integral ao aprendiz, foi que formou a base para a entrada do Brasil na era da industrialização. O ITA e a Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, somados à Politécnica, deram suporte à formação das grandes empresas nacionais e à indústria automobilística. Todas essas escolas, como os IITs da Índia, eram rigorosas tanto no ingresso quanto na formação, mas hoje, juntamente com outras unidades, públicas e privadas, que procuram seguir o caminho da excelência, lutam ingloriamente para não se deteriorarem com o sistema. A Índia olha dos IITs para o futuro, vendo como eles poderão elevar o nível geral do ensino e conduzi-la à condição de país desenvolvido. Nós olhamos do ITA, da GV, da Politécnica e de algumas outras unidades que ainda preservam boas qualidades, para o passado de glória, para o presente de tristeza e para o futuro sem esperança. Nosso ensino não está sendo democratizado como diz o governo, mas popularizado, o que é diferente, e mercantilizado. Se na Índia os IITs estão formando um círculo virtuoso, a popularização e mercantilização, aqui no Brasil, estão formando um círculo vicioso puxado pela má qualidade. Olhando para esse exemplo e para o nosso passado, a lição que se tira é que sem disciplina e sem autoridade, que faliram no nosso sistema de ensino, não é possível conseguir o esforço que o ensino de qualidade exige dos alunos, para que aprendam e se desenvolvam. Com pais que apóiam o mau procedimento dos filhos, como vem mostrando a novela, e com professores impotentes para exigir respeito só iremos ladeira abaixo.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru