08 de julho de 2026
Gastronomia

Monteiro Lobato

Da Redação
| Tempo de leitura: 7 min

Certa vez, Emilia propôs que os livros fossem comestíveis e impressos em papel de trigo bem temperado. A tinta, inofensiva ao estômago, seria estudada pelos químicos. “O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga e come. Quando chega ao final da leitura, está almoçado ou jantado”, diz a boneca de pano. Essa passagem, publicada em “A Reforma da Natureza”, ilustra a ligação entre o universo lobatiano e o ato de comer. Para mostrar a paixão do escritor pelos ingredientes brasileiros e suas raízes, os pesquisadores Marcia Camargos e Vladimir Sachetta lançam “À Mesa com Monteiro Lobato”, pela Senac Editoras.

Quarto título da série “À Mesa Brasileira”, o livro destaca o viés nacionalista de Lobato refletido em suas preferências gastronômicas e em seus personagens de ficção. Responsável pelas bases da indústria editorial no Brasil, o escritor foi sempre um homem a frente de seu tempo. Na contramão da tendência de valorizar os costumes franceses, no início do século 20, já antevia a importância da gastronomia do país como fator de desenvolvimento sustentável e chegou a propor a exploração de plantas e frutas nativas, entre elas a grumixama, uma espécie de cereja.

Os autores resgatam a defesa pelos costumes brasileiros na extensa obra de Monteiro Lobato. Incansável e inquieto, o escritor preencheu sua obra com referências aos pratos típicos do Vale do Paraíba, região onde nasceu. Entre os quitutes de Tia Nastácia, por exemplo, figuram pratos como mocotó à baiana, vatapá com azeite de dendê, quibebe, costela com angu de fubá, picadinho, além dos famosos bolinhos de polvilho, que encantaram São Jorge e um monstro mitológico, personagens dos livros “Viagem ao Céu” e “O Minotauro”.

Com ilustrações das edições históricas de Lobato, publicadas pela Companhia Editora Nacional e fotos do acervo da família, “À Mesa com Monteiro Lobato” apresenta receitas do caderno de dona Purezinha, sua esposa. Datado de 1908, revela pratos salgados e doces como canja de galinha, costela assada com banana, virado de feijão, doce de cidra, marmelada e pé-de-moleque de rapadura. Das 64 receitas, 18 foram descritas pelo próprio Monteiro Lobato, às quais agregou comentários e toques de humor.

• Serviço

“À Mesa com Monteiro Lobato”

Autores: Marcia Camargos e Vladimir Sachetta

Editora: Senac Editoras

Preço: R$ 50,00

Apoio: J. Macêdo, Linha Dona Benta Sítio do Picapau Amarelo

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Nacionalista e bom de garfo

Monteiro Lobato, esse extraordinário brasileiro, além de exímio escritor e defensor dos interesses brasileiros, era bom de garfo. Pronto defensor da cozinha tradicional, principalmente do Vale do Paraíba, onde nasceu. Lobato foi crítico ferrenho dos hábitos gastronômicos afrancesados. Para ele, o içá - tira-gosto muito popular no Vale do Paraíba, feito de saúvas torradas com sal - era o verdadeiro caviar, o néctar dos deuses.

No Brasil do início do século 20, a culinária, muitas vezes de mãos dadas com a literatura, delineou o imaginário e ajudou a moldar o que se convencionou chamar de identidade nacional. Nesse contexto, Monteiro Lobato era a voz do interior, que buscava o gostinho das raízes nacionais.

Paulista de Taubaté - morreu aos 66 anos em São Paulo depois de um espasmo vascular cerebral - conservou o gosto pela comida caipira, que aparece em constantes referências em seus textos. Lobato era fã incondicional de pamonha - ajudava Dona Purezinha a costurar os saquinhos de palha para acondicioná-las - e não dispensava goiabada cascão, sagu com vinho tinto, doce de leite talhado, casca de laranja cristalizada, banana frita e bolo de fubá.

Sem falar na rapadura, que ele picava em pedacinhos e enfiava no bolso para ir mastigando durante o dia.

No café da manhã comia farinha de mandioca ou de milho misturada com café preto. Colocava os flocos na xícara com açúcar até obter uma papinha que nunca deixava desmanchar.

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Arroz com suã

Ingredientes

3 xícaras de arroz;

2 colheres (sopa) de banha de porco ou azeite;

3 batatas pequenas (opcional);

1 kg de suã de porco;

tempero mineiro a gosto;

tempero de especiarias a gosto;

água.

Modo de fazer: Lave bem e deixe escorrer o arroz em peneira.

Refogue a suã na banha e deixe cozinhar um pouco (pode-se moquear). Quando secar a gordura, corar a suã.

Adicione o arroz e refogue mais um pouco.

Junte os temperos, as batatas partidas ao meio (opcional). Acrescente água fervendo até dois dedos acima do nível do arroz.

Cozinhar em fogo lento; se precisar, juntar um pouco mais de água fervendo, até o arroz ficar cozido e solto.

Bolinho caipira ou mata-fome

Ingredientes

2 xícaras (chá) de farinha de milho;

1 xícara (chá) de farinha de mandioca crua;

caldo de carne feito com ½ kg de carne cozida em pedaços, com bastante tempero, cebola, alho, cheiro-verde e pimenta, sal a gosto, óleo para fritar.

Modo de fazer: Em uma vasilha, misturam-se as farinhas e vai-se adicionando o caldo de carne fervendo, misturando até ficar uma farofa úmida. Deixa-se esfriar um pouco. Amassa-se muito bem até ficar macia.

Pega-se uma pequena porção de massa (1 colher de sopa mais ou menos), abrindo-se na mão. Recheia-se com porções de carne cozida, picadinha ou moída e refogada com temperos. Frita-se em óleo quente.

Os bolinhos devem ter a forma de um croquete grande.

CANJIQUINHA OU QUIRERINHA COM CARNE

Ingredientes

2 xícaras (chá) de canjiquinha amarela ou branca de milho (deixar de molho de véspera);

½ kg de carne de porco (suã, costela, lombo ou pernil); pode-se também usar frango em pedaços;

½ xícara (chá) de óleo;

cebola, alho, cheiro-verde e louro;

tomates;

sal a gosto.

Modo de fazer:

Cozinhar bem a canjiquinha com água.

Temperar a carne à parte, refogá-la em óleo quente. Acrescentar os tomates picados. Juntar água aos poucos para o cozimento. Quando estiver cozida, juntar à canjiquinha. Acrescentar mais água se for necessário. Ferver mais um pouco. Provar o gosto para ver se o sal e os temperos são suficientes.

Servir com feijão, couve picada bem fina, refogada e molho de pimenta-malagueta (se quiser).

FAROFA DE TORRESMO

Ingredientes

Toicinho;

Farinha de milho;

Sal e alho.

Modo de fazer:

Fritar um pouco de toicinho, temperado com sal e alho.

Quando estiverem dourados os torresmos, escorra a gordura e junte a farinha de milho. A farofa de torresmo é usada no café da manhã.

COSTELA ASSADA COM BANANA

Ingredientes

3 kg de costela de vaca;

1 dúzia de banana nanica madura;

vinagre;

alho e cebola;

sal e pimenta-do-reino.

Modo de fazer: Tempere de véspera a costela com vinagre, sal, alho, cebola e pimenta. Cozinhe-a em panela de ferro, deixando uma quantidade pequena de caldo. Coloque em assadeira, regando com o molho. Distribua as bananas e ponha para assar até ficar dourada. Esse prato pode ser acompanhado de arroz com urucum e salada de alface.

ESCALDADO DE CAMBUQUIRA

Ingredientes

1 pedaço de músculo;

ovos (para quantas pessoas forem tomar a sopa);

farinha de milho ou mandioca;

cambuquira;

alho;

cebola;

louro;

tomate;

pimenta;

cebolinha verde.

Modo de fazer: Põe-se para cozinhar um pedaço de músculo, com bastante água e todos os temperos desejados, inclusive pimenta vermelha se quiser.

Limpa-se boa quantidade de cambuquira e deixa-se de lado.

Estando o músculo cozido, côa-se o caldo, deixa-se o músculo para ser usado em outro prato. Vê-se o ponto de sal do caldo e ali se coloca a cambuquira para cozinhar. Sirva em pratos fundos, coloca-se uma porção de farinha de milho ou mandioca, quebra-se um ovo sobre a farinha e, em seguida, despeja-se o caldo bem quente, com a cambuquira.

Nota: Cambuquira: hastes e folhinhas do broto da aboboreira.

FAROFA DE IÇÁ

Ingredientes

Içás;

Farinha de mandioca;

Gordura de porco;

Sal a gosto.

Modo de fazer: Limpam-se as içás das perninhas e cabeças. Em seguida, põe-se de molho em água e sal por cerca de ½ hora. Escorre-se bem e leva-se ao fogo, em frigideira com gordura mexendo-se sempre para não queimar.

Quando estiverem bem torradas, acrescenta-se farinha de mandioca, mexendo sempre, resultando a farofa já pronta para ser comida acompanhada de café.

Se quiser, coloca-se em pequeno pilão, juntando-se farinha a gosto, daí resultando uma paçoca de içás.