10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Londrina, bauruzinho e outras estórias


| Tempo de leitura: 3 min

O que estamos ensinando aos jovens das classes mais abastadas de nosso país? O que sempre ensinamos... que eles tudo podem, porque seus pais podem tudo.

Fico envergonhada por nosso país, quando vejo as estórias de jovens de classe média – ou média-alta - que fazem “brincadeirinhas” envolvendo o patrimônio público, como o Bauruzinho. Mas isto é uma pandemia nacional: em Londrina, formandos de medicina foram filmados, completamente alterados, invadindo um Pronto-Socorro, e aos gritos foram assustando pessoas que ali estavam para ser muito mal atendidas por nossa saúde pública.

Fico envergonhada, porque após terem sua formatura cancelada pela Universidade de Londrina (UEL), foram reconduzidos “como heróis” à graduação de médicos (?) por uma decisão judicial, com a proteção de seus colegas que impediam a entrada da imprensa, e, ainda, aos gritos de “Justiça” dado por seus parentes.

Este não foi um ato isolado. Este foi um eco de nossa sociedade ainda alicerçada no modelo medieval de senhores feudais e vassalos. Quando um advogado – muito bem pago- faz “plantão” no Fórum para a libertação destas “crianças brincalhonas”, ele não está apenas defendendo um cliente, mas sim “um estilo de vida”.

Quando um juiz reconduz estes cidadãos à uma formatura, baseado em “interpretações” da lei, ele está ajudando a manter este estilo de vida. Colegas e familiares alimentam um estilo de vida.,quandeo acham normal tripudiar nos mais humildes que através de seus impostos custearam uma Universidade pública, na qual seus próprios filhos (pobres) nunca entrarão

Um estilo de vida nacional, em que só o “meu” e o “hoje” importam. O “meu’filho não é igual àquele que furta outra pessoa, nem a um vândalo que picha um prédio público. O que importa é que “hoje” ele tem que ser protegido porque é uma criança, e se ele será um adulto irresponsável e insensível à dor alheia, não importa... afinal, já será um “doutor”.

O que é mais irônico e triste em ambas as estórias é que todos os envolvidos são estudantes de Universidades públicas. Criadas e mantidas pelos impostos de todos, mas usufruídas em sua grande maioria apenas pelos filhos dos que possuem melhor condição financeira e de estudo. É uma versão real da música de Zé Geraldo “Cidadão”: “tá vendo aquele edifício moço, ajudei a levantar.... mas criança de pé no chão aqui não pode estudar”.

Pode parecer que um assunto não tem nada a ver com o outro: delinquência de classe média e vagas nas universidades públicas, mas tem sim. Estamos à gerações e gerações dizendo a estes jovens: seu direito de sangue (nobre) é ter regalias e privilégios....

E não há medidas ou critérios éticos para a proteção destes privilégios... Recentemente, para que um Senhor Feudal não fosse algemado, foi se estendido tal regalia a qualquer preso - desde que não apresente risco de fuga... No país das maravilhas, este é o ensinamento que damos a nossos jovens... Muitos dizem que os EUA são hipócritas, e que também bandidos escapam a seu sistema legal... Mas vi Michael Jackson entrar em um Tribunal algemado, como qualquer preso comum. Nunca vi nada igual em nosso país, pois é outro “estilo de vida”.

Mentir, humilhar aos mais humildes, não se responsabilizar pelos seus erros, não se preocupar com o patrimônio público, ou com a falta de uma placa de trânsito furtada em um cruzamento, nem tampouco com a dor de alguém jogado em um corredor de Pronto Socorro, é o que ensinamos aos nossos “jovens nobres”. Mas estes, não chegarão aos pés dos nobres jovens noruegueses que doam um dia de seu salário no ano, para ajudar povos subdesenvolvidos, e ainda vieram auxiliar a construir, com as próprias mãos, casas na favela do Rio de Janeiro com o dinheiro arrecadado... E eles não precisavam... Mas seu país e seus pais lhes ensinam... Como diria Caetano..o Haiti, é aqui. A Noruega, com certeza, não.

Luciana Dias Duarte Falcão - RG 19.197.245