09 de julho de 2026
Turismo

Tapetes de serragem: tradição da cidade

Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Todo ano a história se repete: na noite do Sábado de Aleluia e na madrugada do Domingo de Páscoa, as ruas de Ouro Preto se transformam. A população une-se para confeccionar os tapetes que enfeitarão o trecho da cidade por onde passará a procissão da Ressurreição. Este ano, a procissão sairá da Matriz de Nossa Senhora da Conceição e percorrerá cerca de três quilômetros e meio até a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

Todo o trabalho de confecção dos tapetes é artesanal. Para isso são usado ciprestes, farinha de trigo, pó de café, palha de arroz, couro, cal e serragem. A serragem é preparada com quase um ano de antecedência. É separada por textura e tingida de diversas cores.

A Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP) coordena o trabalho dos tapetes, desde o projeto até a confecção. A comunidade se junta aos artistas da FAOP e ainda a turistas brasileiros e estrangeiros.

Bandas de música e grupos de seresta passam a madrugada percorrendo as ruas da cidade para incentivar os moradores que trabalham nos tapetes.

Rivalidade histórica

A tradição de enfeitar as ruas de Ouro Preto com tapetes de serragem é antiga. Em 1733, a Igreja de Nossa Senhora do Pilar foi oficializada pelo Reino de Portugal. O Santíssimo, que representa o Corpo de Cristo, teve de ser transportado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos para a recém inaugurada Matriz de Nossa Senhora do Pilar. “Os negros do Rosário quiseram fazer uma festa muito bonita, durante o Triunfo Eucarístico. Então, eles enfeitaram toda a cidade com tapetes. Depois dessa festa, ninguém mais se lembrou deles”, conta Márcia Valadares.

A confecção dos tapetes só recomeçou em 1963, quando Nossa Senhora do Pilar foi escolhida a Padroeira de Ouro Preto. Todas as ruas da cidade foram enfeitadas, numa grande festa. A Partir daí, os tapetes passaram a compor o cenário da cidade no Domingo de Páscoa e no dia do Triunfo Eucarístico.

A cada ano a cidade fica diferente na Páscoa. É que as duas igrejas matrizes da cidade se revezam na preparação da Quaresma e da Páscoa. Um ano a festa é preparada pela Matriz de Nossa Senhora do Pilar, no outro ano fica por conta da Matriz de Nossa Senhora da Conceição. E cada paróquia tenta fazer melhor do que a outra.

Essa rivalidade entre as duas paróquias vem da época da colonização da cidade. Foram fundadas duas vilas: Vila Rica e Antônio Dias, que brigavam pela maior produção de ouro e pela preferência da Coroa Portuguesa. Depois, Vila Rica se tornou Ouro Preto e anexou Antônio Dias. Mas a rivalidade continuou, principalmente durante a Semana Santa. No ano em que tudo fica a cargo da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, no bairro Antônio Dias, o percurso da procissão é maior, cerca de três quilômetros e meio, contra apenas dois da paróquia de Nossa Senhora do Pilar.

Além de um percurso diferente, as procissões são diferentes. Cada matriz tenta inovar na representação das figuras bíblicas integrantes da procissão, ou acrescentar algo novo à programação.