11 de julho de 2026
Regional

Em caso inédito no mundo, bebê pode ter morrido ao pegar febre amarela na gestação

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Botucatu - Um recém-nascido de 11 dias morreu no último sábado, no Hospital das Clínicas da Unesp de Botucatu (100 quilômetros de Bauru) de febre amarela. A equipe médica do hospital investiga a forma de transmissão da doença, que pode ter ocorrido na gestação. Se confirmado, este será o primeiro caso na literatura médica mundial de transmissão intra-uterina da doença.

Os sintomas apareceram tanto na mãe quanto na menina, os nomes foram mantidos em sigilo, três dias após o parto, realizado em Piraju.

A morte do bebê aconteceu no último sábado e a causa da morte foi falência dos órgãos. A mãe sobreviveu e ontem teve alta do hospital. A suspeita de que a criança tenha recebido o vírus da doença através da placenta da mãe pouco antes de seu nascimento está motivando a pesquisa, que será coordenada pelo médico do departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias (MIP) do HC, Carlos Magno Castelo branco Fortaleza.

“Estamos investigando essa possibilidade de transmissão intra-uterina. Tanto a mãe quanto o bebê, três dias após o parto, apresentaram os sintomas de febre amarela. Estranhamos porque a criança não tinha tido qualquer tipo de contato e a transmissão não poderia ser através do mosquito.”

De acordo com o médico, foram colhidos material para todos os exames necessários. “Alguns foram processados e confirmaram a doença tanto na criança quanto na mãe. Estamos aguardando a análise dos órgãos do recém-nascido, que está sendo feita pelo mesmo Instituto Adolfo Lutz.”

A intenção é identificar o vírus para verificar se ele é exatamente o mesmo da mãe. “Não se trata de outro tipo de vírus. É o vírus comum que transmite a febre amarela. A forma de transmissão da doença é que nunca tinha sido vista.”

Fortaleza explica que a questão é descobrir e confirmar, com certeza, se houve a transmissão intra-uterina. “Não é uma questão de tempo, nunca vamos ter certeza absoluta se a transmissão ocorreu dessa maneira, há sempre uma dúvida.”

Segundo o pesquisador, o vírus fica no sangue, em diversos órgãos. “No fígado, no pulmão, no rim, circula em todos os órgãos. A hipótese que estamos trabalhando é que o vírus passou através da placenta para a criança pouco antes do nascimento, foi quando a mãe teve a doença.”

Providências

Para o médico, a melhor forma de prevenção da doença ainda é a vacina. Porém, ela não é indicada para gestantes. “A proteção contra a doença continua sendo a vacina que não é indicada para gestantes, justamente porque ela é composta de vírus vivos, embora enfraquecidos. O risco é exatamente que o vírus venha causar algum dano ao bebê.”

Ele explica que, na prática, não muda nada em relação à prevenção, pelo menos por enquanto. “A importância está no comportamento da doença que pode ter transmissão vertical, ou seja, na gestação. Medidas práticas não serão tomadas, além da notificação do caso junto a Secretaria e Ministério da Saúde”.

Fortaleza enfatiza que no município de Botucatu não foi registrado nenhum caso de febre amarela. “O hospital é referência, um dos mais bem equipados da região, por isso o caso aconteceu aqui. Os casos confirmados de febre amarela aconteceram nos municípios de Piraju, Sarutaiá e Itatinga. Não são importados porque assim chamamos aqueles da Amazônia. São casos autóctones (próprios) da região.”

O médico está convicto de que, com a campanha de vacinação, a transmissão da doença será contida. “Vamos conseguir conter. Não vão acontecer novos casos”, sentencia.

Vacinação

A Secretaria Municipal de Saúde de Botucatu divulgou ontem que todas as unidades básicas da cidade e o posto volante montado na praça Emílio Pedutti prosseguem com a vacinação contra febre amarela. A campanha vacinou 109.487 pessoas, o que representa 85,27% da população.

A vacina é indicada para indivíduos a partir de 6 meses de idade, residentes dos municípios dentro da área afetada e área ampliada de circulação viral recente no Estado de São Paulo, ou que se dirijam a estes municípios, especialmente para áreas ribeirinhas e de mata. A vacina deve ser tomada 10 dias antes do deslocamento para essas áreas.

A vacina é contra-indicada para menores de 6 anos, para portadores de imunodeficiência congênita ou adquirida, para soropositivos de HIV, gestantes e pessoas com história de reação anafilática relacionada a ovo de galinha e seus derivados.

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A doença

A febre amarela é uma doença infecciosa aguda, de curta duração, gravidade variável, causada por vírus, do gênero Flavivirus, da família Flaviviridae.

Há dois tipos de febre amarela, a urbana e a silvestre. Na urbana, a transmissão acontece entre seres humanos através de vetor (Aedes aegypti). Não há casos confirmados no Brasil desde 1942.

A silvestre é mantida na natureza em primatas e transmitida para seres humanos por insetos dos gêneros Haemagogus, principalmente.

Dados atuais

Os casos suspeitos de febre amarela começaram a chegar no Hospital das Clínicas da Unesp no dia 15 de março. Foram internados 18 pacientes, vindos de Sarutaiá, Piraju e Itatinga. Dos pacientes, 15 eram adultos, um adolescente e um recém-nascido em que paira a suspeita de transmissão vertical. Em 11 casos foram confirmados a doença. Oito casos foram a óbito. Neste número, já está incluído o recém-nascido

Sintomas

Febre alta, cefaléia, calafrio, dor lombar, náuseas, vômitos, mialgia, prostação, congestão conjuntival, artralgia e fotofobia em cerca de três dias são os sintomas. Após esse período, ela pode evoluir para a cura ou agravamento. Embora se acredite que 80% dos casos tenham sintomatologia leve, não sendo nem mesmo diagnosticados, sabe-se que, entre os internados, a letalidade é de 50%. Esse índice deve-se, em parte, ao fato de não haver terapia medicamentosa específica.