Há uma piada que diz que a primeira profissão do mundo foi a de economista porque, segundo o Gênesis de Moisés, “no início era o caos”. Murphy, um engenheiro norte-americano que criou as leis que levam o seu nome, também dispunha que tudo o que não faz sentido, ou é Economia ou é Psicologia. Se mexer, pertence à Biologia. Se feder, pertence à Química. Se não funciona, pertence à Física. Se ninguém entende, é Matemática. O Guia Prático da Ciência Moderna, escrito por Murphy há exatos 60 anos, já foi atualizado: Se mexer, feder, não funcionar, ninguém entender e não fazer sentido, então é Informática. Com toda certeza.
Pode parecer preconceituoso, mas é assim que vejo o mundo caótico nesta crise. Ninguém sabe nada. Muito menos o economista. Cifras trilionárias são anunciadas quase todas as semanas para “salvar o mundo da crise”. Duvido que alguém tenha sequer noção do que representa essa grana toda. Dizem que, se juntadas todas as notas a pilha chega na Lua. Dá para comprar o Congresso Nacional com todos os deputados e senadores e ainda sobra muito. A G20, cúpula das maiores economias dos países adiantados e emergentes tem razão ao eleger os paraísos fiscais como um dos culpados pela crise. Bancos na Suíça, no Panamá, nas Ilhas Cayman, em Luxemburgo e na Ilha de Jersey servem de refúgio seguro para o dinheiro dos ladrões do povo.
Analistas começam a dizer, dentro e fora do governo que, finalmente, chegamos ao fundo do poço. Daí a pouco a economia volta a rastejar nas profundezas ao invés de subir pelas paredes a procura de luz. Todos estão cegos, como na novela de Saramago que repete o mito da caverna de Platão. Em “Ensaio sobre a cegueira” tudo começa quando o personagem é fulminado enquanto aguardava a luz verde do semáforo. Fica cego. Quem sabe, pelo estresse da inadimplência e da ameaça de despejo da sua casa. A misteriosa doença espalha-se de pessoa a pessoa. Os remédios não dão certo. Muitos inventam que são capazes de ver e fingem que sabem a razão do mal. Lula, por exemplo, pôs a culpa nos banqueiros de olhos azuis. Enxerga um lugar na história se emprestar dinheiro para o FMI socorrer os companheiros que precisam. Acha chique dar, quem sempre foi tomador. De empréstimos. Nesta questão de socorrer bancos, empresas e países quebrados, mais uma vez se esqueceram dos conselhos do velho Murphy: “Qualquer esforço para se agarrar um objeto em queda, provoca mais destruição do que se o deixássemos cair naturalmente”.
Em 2002 o economista Steven Levitt e o jornalista Steven J. Dubner, ambos americanos, se juntaram para lançar o livro “Freakonomics” – algo como “economia excêntrica”. A idéia é explicar o lado oculto de tudo que nos afeta, com uma linguagem acessível, sem chegar a ser simplista. Os autores abordam assuntos da vida das pessoas comuns e os ligam à economia. Uma das perguntas que fizeram e responderam foi: o que mata mais crianças nos Estados Unidos: ter uma arma em casa ou uma piscina? Ter uma piscina é a resposta. Chegaram a esta conclusão depois de analisar os dados e indicadores de mortalidade de crianças por acidente em suas próprias casas.Simples. No terceiro capítulo do livro levantam a questão: por que os traficantes de drogas, apesar de estarem numa profissão altamente rentável, ainda assim têm um baixo padrão de vida? Sempre me intrigou ver na televisão traficantes presos ou mortos pela polícia nos morros, uniformizados com camiseta do Flamengo, calção e havaiana. As causas da crise atual seriam facilmente diagnosticadas se voltássemos aos pioneiros dos estudos econômicos do século 18, quando ainda não havia a categoria dos “economistas”. Eles observaram que um dos objetivos do ser humano é maximizar o seu bem-estar. Para chegar a este estágio, todos nós temos que realizar escolhas, já que nossos desejos seriam ilimitados, ao contrário dos recursos, estes sim limitados. Foi o que aconteceu. Gente querendo uma casa melhor para morar e banqueiros insensatos atrás de bônus milionários pela maior colocação de papéis tóxicos no mercado. Os clássicos da economia também nos ensinaram que há uma contradição entre o lazer e o trabalho. Na medida em que trabalharmos mais, nos sobrará menos tempo para o lazer. Se optarmos pelo inverso, quanto menos trabalho, mais tempo de lazer teremos. Porém, com menos dinheiro para poder desfrutar. Volto a Murphy: “Tudo o que é bom na vida custa caro, é ilegal, imoral, engorda ou engravida”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC