08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Os artistas


| Tempo de leitura: 3 min

Nesta Tribuna do Leitor, do dia 01/04/09, o sr. Marcelo Machado Pereira traça um paralelo entre pichação e arte. Afirma este leitor que a pichação é simplesmente a reação de artistas incompreendidos, anônimos, talentosos e excluídos socialmente. Temo ter que contrariá-lo, sr. Marcelo. Pichadores não são artistas, mas sim delinqüentes, marginais, criminosos que emporcalham nossas cidades.

O missivista cita Pablo Picasso e Salvador Dalí e assegura que os grafiteiros extrapolam até a influência desses dois mestres da arte. O sr. Marcelo está enganado novamente. Pichação é sujeira, deturpação. Além disso, estes artistas não foram vândalos que aterrorizavam a sociedade de sua época, foram sim contestadores do statu quo. Pablo Picasso foi incentivado por seu pai, que era professor de desenho, e estudou na Escola Superior de Belas-Artes de Barcelona. Duvido que lá pregassem a sujeira e depredação como forma de arte. Já o trabalho de Salvador Dalí chama a atenção pela incrível combinação de imagens bizarras e oníricas, mas com excelente qualidade plástica. Pode-se dizer o mesmo de um muro pichado?

Se seguirmos o raciocínio do sr. Marcelo (que se identifica como técnico em informática), de que todo pichador é um artista plástico frustrado, como poderia ser definido um hacker que viola computadores para cometer atos ilícitos? Um técnico em informática frustrado?

O sr. Marcelo questiona, então, por que não se educar estes jovens, ensinando-lhes técnicas de pintura e tornando-os artistas de fato. Isto é fácil. Primeiro, porque o governo, tanto no âmbito federal, como estadual e municipal, não se preocupa com a educação formal de seu povo, o que dizer então da educação artística. Segunto, porque nesta turba de pichadores, uma minoria tem realmente dons artísticos que valham a pena ser desenvolvidos. A maior parte é simplesmente aprendiz de bandido. Terceiro, porque numa nação onde se sabe que não há punição para qualquer tipo de ato criminoso, a impunidade permeia as sociedade. Óbvio que enquanto não se pode (ou quer?) educar para evitar atitudes criminosas, tem-se que punir, sim, de forma rigorosa e equânime. Não é difícil concluir que boa parte dos “artistas do spray” são menores de idade e dificilmente saberia pronunciar a palavra ininputabilidade, mas sabe muito bem seu exato significado.

Estes “artistas” que degradam o visual da cidade são os mesmos que passam com suas motos a toda velocidade nos radares e encobrem a placa para não serem identificados. Estes “meninos pintores” são os mesmos que de sexta-feira à noite, depois de saírem do Bauru Shopping, descem a avenida Nações Unidas e se concentram na Praça da Paz, incomodando e apavorando os cidadãos de bem. Não esqueçamos que estes jovenzinhos inocentes são os que pulam os muros e portões das residências para roubar (qualquer coisa que tenha valor) e, por vezes, cometer crimes hediondos.

Nesta mesma edição do Jornal da Cidade em que foi publicada a carta do sr. Marcelo, poderia ser lida uma reportagem em que um aposentado, cansado da pichação reincidente, usou a criatividade. Ele próprio “pichou” seu muro, com frases de teor positivo. Lamentável a cidade ter chegado neste estado...

Interessante registrar que o sr. Marcelo considera apenas um “único inconveniente” o fato dos pichadores usarem os muros das casas, paredes de prédios e monumentos, como gigantescas telas para expressar toda sua veia artística, cruelmente reprimida. Sugiro assim que o sr. Marcelo, entusiasta que é desta forma de arte, ceda as paredes internas e externas de sua própria residência e/ou estabelecimento comercial (se é que já não o fez), para que estes “artistas” finalmente demonstrem toda a sua potencialidade. Dessa maneira, transformar-se-á num verdadeiro mecenas bauruense. Quem sabe, daqui a muitos anos, estas paredes valham milhões de dólares, e possam ser ofertadas na casa de leilões Sotheby’s. Não sejamos hipócritas ou inocentes, vandalismo não é arte. Grata.

Simone Pereira Borges Paixão