11 de julho de 2026
Articulistas

O admirável mundo novo!

Janira Fainer Bastos
| Tempo de leitura: 2 min

A crise atual e seu corolário, o desemprego permanente, dizem os políticos é passageira. Alguém está enganando alguém. O trabalho está em vias de desaparecer e se Obama ou Lula fingem não saber, garanto ter conhecido pelo menos uma pessoa que dizia isso com categoria. Na década de 80, quando eu desenvolvia atividades programadas na França, estava sob a orientação do sociólogo Jofre Dumazedier, um comunista desiludido trabalhando com lazer. No final do século XX o mundo teria 40% de desempregados, afirmava. Ao mesmo tempo descrevia as transformações na nova civilização, pois a anterior, fundamentada na estabilidade do emprego como garantia de segurança, estava desaparecendo.

Previa um mundo comandado por economistas, “o jugo da economia,” brincava. Um verdadeiro profeta! Pela primeira vez na história, a maioria dos seres humanos não é mais indispensável ao reduzido número dos que geram a economia mundial. Essa verdade não é escondida, porém os políticos não falam dela com clareza. A economia lança-se cada vez mais à especulação pura. Prestem atenção nas atuais transações dos governos, seja na Europa, seja na América. Refiro-me a uma forma corrente de troca negociando o inexistente como o G-20 e seus trilhões. Transações não com ativos reais, mas onde se transferem dívidas, que por sua vez são negociadas, revendidas e recompradas infinitamente, na maioria das vezes sobre valores virtuais. Loucura? Sim, trata-se de um mercado ilusório, fundamentado nos simulacros. Um homem apostando como em um cassino, pode efetuar esse tipo de transação, apenas com um computador e um fax, confirmando a declaração de Helmut Schmidt à televisão alemã: “nesses mercados surrealistas são feitos cem vezes mais negócios do que nos demais.” Esse comércio virtual conduziu a economia a um beco sem saída e foi incapaz de gerar verdadeiros empregos. Não sei quanto dinheiro Obama entregou às montadoras na vã esperança de segurar empregos, porém elas continuam dispensando funcionários.

Não tenho resposta para a questão, embora nunca tenha separado o fazer cultural do social. A meu ver toda atividade é política, mesmo quando não pretende ser, caso de Shakespeare. Ele ficaria fascinado pelos lances trágicos dessa economia e por suas implicações, pois são eles que dissimuladamente estão transformando o destino dos habitantes desse planeta.

A autora, Janira Fainer Bastos, é articulista do JC