10 de julho de 2026
Articulistas

Palavras de frei Hipólito

Luiz Vitor Martinello
| Tempo de leitura: 4 min

Deus é infinito - dizia em seu sermão frei Hipólito. Tem tão grande magnitude, que se expande em doação contínua por todo o espaço. O frei aventava a hipótese de que Deus, embora espírito, “materializara-se”, como que “abrindo mão” da própria perfeição, num exercício de temporalidade, no intuito de readquiri-la em comunhão com todo o cosmo, como se nos revelasse que não valeria a pena ser perfeito sozinho. Que bela idéia - pensei - essa, a de Deus não ser perfeito sozinho. Lembrou-me Albert Camus, romancista francês: “Não é nenhuma vergonha ser-se feliz; vergonhoso é ser feliz sozinho”. Deus, certamente, lera Camus antes de Camus.

Essa perfeição encarnada, porém - comentava o frei - será sempre uma perfeição imperfeita, como semente a desenvolver-se. Perfeição porque advinda do Criador e, portanto, plena. Imperfeita, porque dada num tempo e espaço demarcados, finitos. Seriam assim faíscas de perfeições, como as manifestações da beleza, por exemplo, sejam naturais, presentes na natureza, um pôr-do-sol, um canto do bem-te-vi, sejam frutos de artifícios, um quadro de Picasso, um filme de Charles Chaplin. Outras faíscas de perfeição - dizia o frei - são as manifestações da conduta ética, em que o homem, visando ao bem de toda a humanidade, exerceria uma prática constante de ações exemplares e, por isso, admiráveis. Mas - advertia frei Hipólito - tanto a beleza estética quanto o comportamento ético deveriam ser iluminados pela busca incessante da verdade que, a princípio empírica, elevar-se-ia a patamares outros, perpassando pela verdade científica e atingindo como fim último à verdade metafísica, na qual, todos nos reconhecêssemos, por fim, um e vários, num mesmo e único A-Tempo, o da Transcendência Universal.

Mas que, enquanto buscássemos esse A-Tempo, o da Transcendência Universal, que experimentássemos transcendências menores, concretas já aqui e agora: um arco-íris durante uma chuva de verão, um verso de Quintana, um pensamento de Sócrates, a imitação de um santo da Igreja, São Francisco, por exemplo.

Disse mais frei Hipólito, alegou que poucos poderiam entender do que ele falava, pois que havia muitos dentre nós tão brutos como as pedras, se é que as pedras eram brutas. Disse ser preciso lapidar-nos como a diamantes e que, para isso, o exercício da contemplação do belo nos elevaria, nos desembruteceria, educando nossa sensibilidade. Disse que a reflexão é sempre oportuna, que fazendo uso da filosofia prepararíamos nossas mentes, nos elevando acima das coisas mesquinhas do cotidiano. Disse também que se a ética orientasse nossas ações, perceberíamos com mais clareza o grande plano da criação. Frei Hipólito chegou, então, ao ponto da homilia que queria para aquela cerimônia de celebração da Semana Santa. Disse que Deus, pensando em seu projeto de elevar a humanidade a esse A-Tempo, para que esta se aproximasse e mesmo se confundisse com a perfeição de Deus, “cortara na própria carne” ao enviar Seu Filho a esse nosso mundo.

Ao encarnar - dizia frei Hipólito - Cristo trouxera consigo a perfeição divina: o belo, o bem, a verdade. Era só prestar atenção às suas palavras, às suas ações. Ao encarnar, Cristo trouxera consigo a perfeição divina, porque Ele era o próprio Deus, embora sujeito à nossa imperfeição humana. Cristo falava de Deus querendo que Ele, Deus e nós fôssemos tão somente e apenas UM. No entanto, esse mesmo Cristo - continuava o frei - fora morto cruelmente pela humanidade que, embrutecida, não se sensibilizara à sua mensagem, não se dispusera a ouvi-Lo e mais, a imitá-Lo. Matara-O, porque Ele não era desse mundo, matara-O, porque Ele falava do A-Tempo, da Transcendência, do uno, do inefável, do sublime.

Mas que ninguém se entristecesse, pois que Cristo ressuscitara ao terceiro dia. Morrera, porque era homem; ressuscitara, porque era Deus. Ele fora tão somente a explicação de Deus à humanidade, dizia Frei Hipólito. Inserira-se na história como um relâmpago a anunciar a luz. Sua ressurreição era a prova de tudo aquilo que Ele pregara. Que Seu mundo não era daqui, essa efemeridade melancólica e sem sentido, porque sem horizontes, que havia algo maior, reiterava: a eternidade, o A-Tempo, a transcendência. Que nos alegrássemos todos, que entoássemos aleluia, mas que, em contrapartida, nos impuséssemos também o dever de ressuscitarmos a cada instante, a cada fração de segundo.

Ressuscitamos - dizia frei Hipólito encerrando seu sermão - quando buscamos a verdade, embora esta nos escape sempre por entre os dedos, pois que sempre a agarramos movidos por nossos mesquinhos interesses. Ressuscitamos quando praticamos o bem, e o praticamos quando denunciamos injustiças, quando nos sensibilizamos com as dores dos outros e, principalmente, quando tentamos amenizá-las. Ressuscitamos quando nos alegramos com a alegria do outro, quando contemplamos qualquer coisa bela, seja um vôo de borboleta ou uma criança mordendo um naco de pão. Lá fora caía uma chuva brava, repleta de relâmpagos e trovões. Lembrei-me, então de um belo texto de Rubem Braga, A Outra Noite, em que o narrador, em noite de pesada chuva, revelava a um amigo que lá em cima, além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; que, acima da nossa noite preta havia uma outra, esplêndida, pura, perfeita.

O autor, Luiz Vitor Martinello, é poeta, professor e escritor