Ligia, 29 anos, vive um dos piores momentos de sua vida. Não quer mais viver com o marido, entretanto, ainda não está em condições de se libertar, principalmente por estar desempregada. Ela relata que já foi descartada para uma vaga de emprego quando o entrevistador percebeu que tinha problemas familiares.
Casada há 13 anos e com duas filhas, diz que a separação será inevitável se arrumar um emprego. Ligia comenta que, muitas vezes, é obrigada a manter relações sexuais com o marido. A desagregação familiar já fez uma baixa no círculo de relacionamentos de Ligia. A filha de 13 anos não aceita mais testemunhar a violência contra a mãe e foi morar com a bisavó.
“Até com meus jornais ele está implicando. Gosto muito do que sai no ‘Ao Pé da Letra’”, comenta, ao se referir à sua coleção da seção publicada aos domingos pelo JC. Ligia comenta que a filha menor ainda a mantém forte.
Outro dia, ao ser assediada pelo marido, ela ameaçou ir embora, porém, teve que se conter porque o esposo disse que não sairia com o bebê e ainda a ameaçou de morte caso o denunciasse. “Primeiro ficava pensando que não queria criar minhas filhas sem pai. Mas agora não me importo mais”, desabafa.
Enquanto descreve seu calvário, as companheiras de grupo no Ciavi choram porque também sentem o mesmo desespero. Margarida também sofreu muito com o marido, principalmente pelo problema do alcoolismo que desencadeava um comportamento agressivo. Quando o alvo não era a esposa, ele destruía móveis e utensílios da casa. Ao passar a freqüentar o grupo de apoio, Margarida obteve mudanças significativas e, principalmente, coragem para enfrentar a situação adversa. Atualmente, se sente respeitada, mas não dá para vacilar.
A violência doméstica não é só de maridos, namorados ou companheiros. Luzia, 71 anos, virou o alvo predileto do filho adotivo. Para mudar sua realidade, foi fundamental o apoio do grupo. “A família vira as costas para a gente”, desabafa. “Hoje, ele melhorou 99%”, completa. Por que não foi 100%? Quem sofre violência doméstica vive no fio da navalha.
Atualmente, o Ciavi faz o acompanhamento de 155 mulheres que sofreram violência. O atendimento é feito por uma equipe multidisciplinar em diversas áreas. As mulheres que se dispuseram a relatar sua realidade integram o grupo Bem me Quero, que está completando um ano e se reúne todas as quintas-feiras, das 14h às 16h, no Ciavi.