09 de julho de 2026
Articulistas

Canalizar a raiva

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Recebo a mensagem de um internauta que tem paciência de ler meus comentários na imprensa indagando se não fico com raiva ao tomar conhecimento que 40 % da indústria de São Paulo admite, na resposta a um questionário, a possibilidade de reduzir o quadro de funcionários se não houver uma reação da demanda no curto prazo. Tenho escrito que o desemprego é o des-perdício maior que uma sociedade pode fazer com os seus cidadãos e, no caso atual, se justifica plenamente a raiva de todos nós porque ele tem sido a conseqüência de uma grande patifaria nos mercados financeiros para a qual não contribuímos em nenhum momento. É pra lá que devemos canalizar a raiva...

Antes da crise, até 15 de setembro do ano passado, a oferta de emprego vinha acompanhando o ritmo robusto de expansão da economia, sustentado principalmente pelo crescimento da demanda interna. A indústria paulista liderava esse processo de expansão do PIB, que certamente alcançaria 6% ao final de 2008, quando foi duramente atingida pela “morte súbita” do crédito interno causada pelo apagão financeiro externo. O que se desenhou para os meses seguintes foi um panorama de esfriamento da demanda interna, à mingua do crédito ao consumidor.

As empresas demitem ou admitem dependendo das flutuações da economia e normalmente a conseqüência da queda do nível da atividade é a redução da oferta de emprego. Quando a constrição do crédito indica a diminuição do ritmo do consumo, o problema se acirra, como aconteceu logo no início da crise entre nós. Isso é uma fatalidade nas economias de mercado, que não pode ser eliminada.

O que aconteceu de importante no Brasil foi a descoberta que existe hoje uma compreensão muito maior entre os trabalhadores e suas empresas que ajudou a minimizar essa situação. Não impediu a tragédia do desemprego que atingiu muitas famílias, com uma concentração maior em São Paulo. Há levantamentos, contudo, mostrando que em praticamente 70% do universo trabalhista encontraram-se formas de evitar o desemprego. Trabalhadores e empresários acordaram em utilizar mecanismos como banco de horas, a antecipação de férias, a redução da jornada e redução da própria remuneração do trabalho. É claro que essas não são soluções ideais e todos rezam para que permitam voltar às atividades normais com menor tempo de sofrimento. A compreensão de usar esses mecanismos é importante, porém, porque abre a oportunidade de manter o trabalhador ligado à empresa, ajudando-o a conservar a sua dignidade, a preservar a sua moral diante da família, para que ele não comece a se sentir um excluído da sociedade em que vive. Há empresas em condições de enfrentar as adversidades aproveitando o tempo para organizar cursos de treinamento ou bancar o aprimoramento da educação do trabalhador e isso está sendo feito, em menor escala do que se deseja, mas ainda dentro das possibilidades de cada uma.

Esta semana tivemos os primeiros sintomas de alguma melhoria nos circuitos do crédito interbancário, o que abre a possibilidade de que se possa encurtar o período de atividade fraca e começar a recuperar a oferta de empregos. O que as empresas disseram naquela pesquisa do emprego industrial em São Paulo é que “se continuar a haver redução da demanda, não podemos manter o quadro de funcionários”. É preciso reverter essa expectativa, com o retorno do crédito.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail contatodelfimnetto@terra.com.br